OPINIÃO
12/08/2014 18:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Sempre tem um cretino que exige limites morais à literatura

A literatura em si não tem uma moral alguma, pois é um simulacro da realidade e contém toda sorte de brutalidade e beleza que a mente humana é capaz de imaginar. Mas constantemente vemos tentativas de se impôr limites morais às narrativas.

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"Literature is dark and full of terrors", diria Melisandre, Sacerdotisa Vermelha a serviço de Stannis Baratheon na saga As Crônicas de Gelo e Fogo. Os livros da série de George R.R. Martin (e a adaptação para a TV, Game of Thrones) contêm violência de todas as formas, o que tem gerado algumas críticas. A mais recente aconteceu na quarta temporada da série de TV e diz respeito a uma cena de sexo que, no livro, é consensual, mas que virou estupro na adaptação da HBO. Por este motivo, há algum tempo, a New York Times entrevistou George R.R. Martin, que defendeu o uso de violência sexual na sua obra.

"Meus romances são fantasia épica, mas inspirados e posicionados na História. Estupro e violência sexual têm tomado parte de todas as guerras já ocorridas, dos antigos sumérios aos nossos dias. Omitir isso de uma narrativa centrada em guerra e poder seria fundamentalmente falso e desonesto", afirmou. Para o autor, "Westeros é um lugar sombrio e depravado, (...) mas não mais que o nosso próprio mundo. A História é escrita com sangue."

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A literatura em si não tem uma moral definida — ou melhor, não tem moral alguma —, apesar de ser (ou justamente por ser), em maior ou menor grau, um simulacro da realidade que contém toda sorte de brutalidade e beleza que a mente humana é capaz de imaginar. Entretanto, constantemente vemos tentativas de impôr limites morais à literatura.

Foi o que ocorreu no edital para concessão de bolsas literárias da Fundação Biblioteca Nacional, em 2012. Raquel Cozer, na Folha de S.Paulo, levantou questionamento sobre o item 1.2 do documento, que deixava bem específico: os projetos concorrentes sofreriam restrições se tivessem como tema, entre outros, pornografia e discriminação racial ou religiosa.

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Outro exemplo de limitação moral na literatura foi o debate sobre racismo na obra de Monteiro Lobato. Em 2010, o Conselho Federal de Educação, vinculado ao Ministério da Educação, emitiu um parecer classificando o livro As Caçadas de Pedrinho, de 1933, como racista. Apesar do MEC ter rejeitado a opinião do CFE, estados como Mato Grosso e Paraíba tiraram o título da grade curricular. A Bravo! deu uma reportagem sobre o assunto. Desde então, outras obras de Monteiro Lobato — que, de fato, flertou com a Klu Klux Klan — viraram alvo de ações, como Negrinha, de 1920. (Leia aqui a notícia no G1.)

Em linhas gerais, a literatura articula-se intimamente à atuação do homem em um determinado momento social. Tem, sobretudo, uma função crítica: fazer literatura é um ato político, acredite. Evitar temáticas ou personagens que escapam à moral vigente é um ato de cinismo. É enganar o leitor e querer levar à sociedade uma visão de Pollyanna para uma realidade de Christiane F.

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