OPINIÃO
08/07/2014 14:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Não existe "beijo gay"

Quero ecoar algumas perguntas até então confinadas no quarto escuro do meu cérebro. Uma delas é: por que os jornais noticiam beijos gays? Beijos deveriam ser apenas beijos, todos muito banais.

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No dia 30 de junho, os jornais deram a notícia sobre o beijo gay de José Mayer e Klebber Toledo logo no começo da novela Império, da Globo. No mesmo dia, eles noticiaram a catástrofe da chuvas no Sul do País — mais de 50 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas.

As duas pautas não têm relação entre si. Tampouco ouso hierarquizar a gravidade dos assuntos em questão — poderia fazê-lo, mas acredito que este tipo de análise não cabe neste texto. Quero, aqui, fazer uma outra observação. Ou melhor, quero aqui ecoar algumas perguntas até então confinadas no quarto escuro do meu cérebro. Uma delas é: por que os jornais noticiam beijos gays?

Parece um questionamento retórico, com resposta óbvia, mas não é. Há, pelos menos, dois pontos passíveis de discussão aí.

O primeiro ponto é semântico. Adjetivar um beijo ("beijo gay", "beijo lésbico" e congêneres) é distingui-lo dos demais beijos. É separá-lo do todo. De um lado, beijo hétero; de outro, beijo gay. Essa distinção é algo perigoso e, no fim das contas, pode levar a mais preconceito.

Não existe "beijo gay"; existe beijo. E beijos deveriam ser banais (no bom sentido do termo).

Outro ponto é o papel do jornalismo. Fazer o beijo gay ocupar um espaço na imprensa sempre que ele ocorre em novelas o torna algo extraordinário, fora da normalidade (tal qual uma catástrofe causada por chuvas no Sul).

Há aquele paradigma de pauta que todos os jornalistas aprendem na faculdade e que pode ser ilustrado assim: quando um cachorro morde um homem, não é notícia; quando um homem morde um cachorro, é. Enquanto os jornais publicarem o beijo gay, os beijos serão tratados como mordidas em cães, como algo fora da normalidade. E, sob o véu da anormalidade, será objeto de mais preconceito.

Imagino que seria um grande passo para o jornalismo (como mediador do diálogo entre sociedade e poder público) se ele permitisse que um beijo gay fosse exibido na novela das 8 sem a necessidade de anunciá-lo, sem alarde algum, como são os beijos no dia a dia. Eles não ganham manchetes — e nem deveriam.

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