OPINIÃO
22/08/2014 11:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Amazon no Brasil e nosso sorriso de desespero

Autores felizes, editores felizes, leitores certamente felizes... Afinal, quem não sorriria diante da possibilidade da popularização da leitura que os baixos preços proporcionam? Entretanto, este sorriso pode ser de desespero em algum tempo.

Ontem (21), quem entrou no site da Amazon foi recebido com a seguinte mensagem do CEO da empresa, Jeff Bezos:

Sim, a Amazon começou a vender livros físicos no Brasil, mercado que movimentou mais de R$ 5 bilhões em 2013, de acordo com O Estado de S.Paulo.

Seguindo a nota de Jeff Bezos, são mais de 150 mil títulos em português à disposição do leitor — "este número é praticamente o total de livros físicos brasileiros em catálogo", ressalta o PublishNews. Todos com frete grátis para compras acima de R$ 69; muitos com superdescontos, como os próprios autores apresentaram em posts do Facebook.

 

 

 

Roberta Machado, diretora comercial do Grupo Editorial Record, comemorou o início da operação. Em declaração ao Brasil Post, ela afirmou:

"Estamos animados com a entrada da Amazon [no mercado de livros físicos] no Brasil. Acreditamos que o leitor brasileiro vai curtir todas as novidades e tecnologias que a Amazon está preparando para o lançamento, e nossa torcida é para que essa boa experiência de compra estimule mais leitura e maior bibliodiversidade".

Autores felizes, editores felizes, leitores certamente felizes... Afinal, quem não sorriria diante da possibilidade da popularização da leitura que os baixos preços proporcionam?

Entretanto, este sorriso pode ser de desespero em algum tempo.

Durante a 24ª convenção da Associação Nacional de Livrarias, o vice-presidente da instituição, Augusto Mariotto Kater, mostrou preocupação. "Não somos contra a Amazon vir para cá. Somos contra a canibalização que a Amazon faz com mercados sem regulamentação", disse, conforme reportagem da Folha de S.Paulo.

Essa canibalização pode ser traduzida em preços apelativos. É uma prática comum da Amazon ignorar até mesmo o lucro e baixar o preço de um livro ao extremo, a fim de destruir a concorrência. Assim, ao passo que desbanca livrarias (sejam elas grandes cadeias ou pequenas lojas de esquina), torna a editora cada vez mais sua refém. Em seguida, oferece à editora um contrato "draconiano" (palavras de um amigo que trabalha no mercado livreiro e pediu anonimato) e, se a editora não aceita os termos — que podem incluir descontos absurdos —, a Amazon usa táticas punitivas. Uma delas é se recusar a listar os livros da editora, como afirma o Boston Review.

Este comportamento tem feito muitos desafetos. Oren Teicher, presidente da American Booksellers Association, é um deles. De passagem pelo Brasil para participar do 5º Congresso Internacional do Livro Digital, promovido pela Câmara Brasileira do Livro, ele comentou a'O Globo o início das operações da Amazon:

"Eles têm uma longa história de pressão sobre os editores para fazê-los seguir seus termos de negócio. (...) Sei que os grandes descontos são atrativos para o consumidor. Mas a longo prazo eles têm um impacto bastante negativo no mercado. Ao pressionar o preço do livro, cria-se um ambiente editorial inviável. Fica até mais difícil para um novo autor se estabelecer no mercado. A Amazon mostrou se preocupar consigo própria e não com a economia do livro como um todo."

Em suma, a Amazon não apenas aniquila a concorrência (o que é aceitável no mercado), mas também passa a controlar até mesmo a cadeia de produção — inclusive, em entrevista ao site da Veja, o diretor-geral da Amazon no Brasil, Alex Szapiro, já falou sobre "baixar os preços de produção".

Esperam muita resistência das editoras brasileiras, que podem se sentir ameaçadas pelo impacto que a Amazon deve causar, algo que costuma dar início a novelas parecidas com a que ocorre agora com a francesa Hachette [grupo editorial com quem a Amazon travou uma batalha depois de exigir descontos impraticáveis e, diante da recusa, dificultar o acesso de consumidores aos produtos da empresa]?

Jogamos no mesmo lado das editoras. Queremos satisfazer os dois clientes do mercado editorial, os leitores e os escritores. O objetivo comum é dar ao primeiro a opção de ler como quiser, seja no digital ou não, e quando quiser, com facilidade. Somos agnósticos nesse mercado, pensamos que o leitor tem de ter todas as opções à sua frente. Para o escritor, ajudamos a distribuir a obra. É ainda vantajoso para a editora de outras formas. Além de baixar os preços de produção, ter, por exemplo, o e-book disponível a todo momento é uma forma de as empresas não sofrerem com estoques esgotados, ou com o retorno de exemplares não vendidos.

É um sinal preocupante, pois o cenário proposto por Szapiro não considera que, no País, os impostos diluídos na cadeia de produção representam aproximadamente 15% do valor final de um título — as gráficas nacionais, por exemplo, recolhem 9,25% na impressão de livros, e muitas editoras chegam a optar pela impressão fora do Brasil, em países da Ásia, conforme relatei no artigo Não há incentivo à leitura sem corte de impostos. Desta forma, como as editoras poderiam "baixar os preços de produção" continua um mistério.

Enquanto escritores e editores saúdam a Amazon no Brasil, lá fora existe um inferno em curso: na Alemanha, 1188 autores fazem abaixo-assinado contra a gigante de Jeff Bezos; antes disso, o mesmo aconteceu nos EUA, com mais de 900 escritores; para proteger o mercado local, o senado francês aprovou, em junho, a "lei anti-Amazon", que proíbe o frete grátis e limita o desconto do varejista a 5%.

Será que devemos mesmo ficar felizes com a Amazon aqui?

MAIS LITERATURA NO BRASIL POST

Galeria de Fotos 14 livros da Flip 2014 Veja Fotos