OPINIÃO
09/08/2014 15:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

A vida é curta demais para gastá-la com romances

Perdemos a paciência para a leitura. Parte do problema é que, hoje, somos tão seduzidos pela distração que não conseguimos mais dissociá-la de uma atividade que demande concentração.

Lubs Mary./Flickr
more than 9.000 views, thank you guys!

O conto não é muito apreciado pelo mercado editorial. Há um estranho eco entre editores: "Conto não vende", dizem. Entretanto, esta forma literária comumente desprezada vive um momento áureo.

Evidências disso não faltam: em 2013, Lydia Davis, escritora norte-americana mais conhecida por seus textos curtos, venceu o tradicional Man Booker International Prize; em 2014, a contista canadense Alice Munro levou o Prêmio Nobel de Literatura. A popularidade se mostra também em número: a venda de contos no Reino Unido cresceu 35% em 2013, de acordo com a revista The Bookseller, publicação especializada no mercado literário da região. O Telegraph percebeu este cenário e publicou um artigo enfático: devido à brevidade da narrativa, o conto é perfeito para os leitores impacientes deste século.

Na mesma semana em que o artigo foi publicado no Telegraph, o Spritz voltou a ser pauta de alguns veículos. Trata-se um aplicativo que promete fazer uma revolução na forma de ler: ao contrário da forma "convencional" de leitura, em que o olho percorre o texto, o Spritz permite que o globo ocular fique parado, enquanto até 700 palavras por minuto passam diante dele. A imprensa voltou a dar atenção ao aplicativo depois que a Samsung anunciou que ele viria pré-carregado no novo Galaxy S5: a Popular Mechanics entrevistou um especialista em cognição visual para saber o que era verdade e o que era balela; a FastCompany se sustentou em pesquisa acadêmica para demonstrar os riscos de leitores dinâmicos; Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo, se mostrou cético quanto à eficácia do aplicativo.

LEIA TAMBÉM: Não há incentivo à leitura sem corte de impostos

As duas notícias — sobre o momento do conto na literatura e sobre o Spritz — não se relacionam diretamente, mas ambas expõem o fato de que não temos paciência para a leitura.

Parte do problema é que, hoje, somos tão seduzidos pela distração que não conseguimos mais dissociá-la de uma atividade que demande concentração. Pois ler não é passar os olhos sobre palavras, mas sim o exercício de criar ligações cognitivas baseando-se nos signos. As palavras em si nada significam: elas ganham alma apenas quando nós conseguimos, a partir delas, criar mundos na mente.

Sobretudo na literatura.

É louvável o fato de, hoje, termos o conto devidamente apreciado — eu mesmo comecei a ler e escrever histórias por meio do conto —, mas qual o real valor disso, se apenas pela sua brevidade é que o consumimos? Significa que estamos perdendo o fôlego para apreciar romances extensos?

Talvez. Will Self, ao decretar a morte do romance no Guardian, justifica o óbito: "A marca da nossa cultura contemporânea é uma resistência ativa à dificuldade em todas as suas manifestações estéticas", afirma. Ele tem razão quanto à "resistência ativa à dificuldade", e um exemplo claro disso é o recente empenho conjunto (pois à escritora Patrícia Secco somou-se o governo, que permitiu o financiamento) de se simplificar clássicos da nossa literatura. Estava muito difícil ler Machado de Assis.

LEIA TAMBÉM: "Você lê Paulo Coelho? Credo!"

Tenho ressalvas quanto à morte do romance — é debate que se arrasta desde Júlio Verne, que instigou teorias literárias e que parece não ter fim —, pois acredito que ele há de sobreviver à crise da falta de atenção (ainda que, para isso, tenha de se ligar mais ao marketing que à arte).

O problema, contudo, não é a sobrevivência ou a extinção do romance, e sim a nossa atenção. A atenção desta geração que parece abraçar forte o déficit de atenção e a hiperatividade. Hoje, se você se dedicar a uma tarefa de cada vez, você é um estranho.

Sabemos que ler toma tempo. E tempo é algo que não temos. E não temos porque desperdiçamos mais e mais segundos com meras distrações. O ser humano é basicamente um ser de desperdícios. Temos interesse no acúmulo e queremos mais de tudo; mas, no final das contas, somos apenas um e não temos como consumir tudo. Queremos tudo porque somos finitos. As coisas não acabam; nós, sim. Mas esta é uma divagação para um possível romance — que você provavelmente não vai ler.

Artigo publicado originalmente na extinta revista Benedito.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS LITERATURA NO BRASIL POST:

Galeria de Fotos 14 livros da Flip 2014 Veja Fotos