OPINIÃO
24/09/2015 15:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Os refugiados representam uma segunda chance para a Europa

A resistência aos refugiados vem do medo da perda da cultura do europeu. Mas os refugiados devem estar sentindo um medo cem vezes maior. É a adaptação e a sobrevivência deles que estão em jogo.

AP Photo/Petros Giannakouris

Os refugiados estão dando uma segunda chance para a Europa, um momento histórico capaz de retificar as estruturas sociais que fracassaram tantas vezes.

Basta olhar para a Conferência de Evian, em 1938, na qual tantos países expressaram simpatia pelo sofrimento dos refugiados judeus, mas só a República Dominicana aceitou acolhê-los.

A União Europeia foi fundada como resultado da Segunda Guerra Mundial, a fim de evitar a repetição dos erros do passado.

O debate sobre a acolhida aos refugiados expõe muitos medos e incertezas. Os refugiados estão vindo a despeito de nossa "permissão", e temos de considerar os medos dos reticentes ou resistentes como desafios a superar.

Temos de colocar em prática políticas e programas de apoio para que os recém-chegados contribuam para o futuro de nossa sociedade.

Em seu primeiro contato com a Europa, os refugiados estão tendo uma impressão idealizada (como as boas-vindas dadas por alemães e austríacos) ou demonizada (como os maus-tratos na Hungria).

Mas contatos positivos com os refugiados não serão suficientes para garantir experiências interculturais que permitam que os refugiados se tornem participantes ativos em nossas estruturas democráticas, plurais e igualitárias.

Os recém-chegados precisam aprender os direitos e responsabilidades de nossa Europa multicultural. Precisamos ajudá-los a superar preconceitos, tais como os que eles possam ter contra judeus, mulheres, gays e lésbicas.

Mas, como anfitriões, também temos de desafiar nossos estereótipos; os refugiados podem nos ajudar a superar nossa xenofobia e, assim, estaremos mais bem preparados para expandir nossas ideias de identidade comum.

A boa vontade expressa por muitos em relação aos refugiados sírios pode oferecer à Europa a oportunidade de lidar de forma mais eficaz com o problema da discriminação étnica na oferta de empregos e na desigualdade reforçada por nossos sistemas escolares.

Não nos esqueçamos dos milhões de cidadãos europeus que podem ser negros, roma, muçulmanos ou de outras identidades "diferentes" e que passam por discriminação regularmente: no trabalho, nas lojas, nas ruas, procurando moradia, na mídia e nas escolas.

Em sua maioria, os economistas concordam que os novos trabalhadores serão bons para a economia europeia. Eles podem contrabalançar o déficit de mão-de-obra gerado por uma população que está envelhecendo.

Temos de garantir que os empregadores possam tomar partido desse aumento da força de trabalho. Eles precisam de uma estratégia para se preparar para o mercado de trabalho e para se sentirem realizados em suas novas ocupações.

Políticas de educação de adultos, transferência de competências, programas que ensinam habilidades práticas e intelectuais - tudo isso faz parte dessa estratégia, assim como um treinamento da força de trabalho atual, para evitar discriminação contra os recém-chegados.

Temos de levar a sério os medos daqueles que temem um aumento no número de casos de terrorismo, ainda que esteja claro que o terrorismo já existe antes mesmo da chegada dos refugiados.

A triagem dos candidatos a asilo é essencial para evitar a entrada de pessoas que tenham tido contato com organizações terroristas.

Mas não podemos esquecer que essas pessoas estão fugindo do terror. Elas são sobreviventes. E diversas: cristãs, xiitas, sunitas, alauítas, curdas e yazidis.

Se forem bem recebidas, há melhores chances de que sejam fiéis à Europa.

Essencialmente, muito da resistência contra os milhares de refugiados que esperam na fronteira da União Europeia vem do medo da perda da cultura, do fato de que sua identidade não será mais a regra.

Mas os refugiados devem estar sentindo um medo cem vezes maior. Eles precisam se adaptar - sua própria sobrevivência está em jogo.

E os europeus cujas raízes são tão profundas? Um pouco de mudança é inevitável com ou sem refugiados.

Mas, se conseguirmos realizar a integração com benevolência, curiosidade e decência, educando-os sobre as vantagens da democracia secular, poderemos vislumbrar um futuro melhor e mais pacífico.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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