OPINIÃO
21/05/2015 14:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Trote: machismo e homofobia

É inaceitável que o meio universitário - local considerado por sua produção intelectual e fonte de uma boa parcela dos conhecimentos e pensamentos do mundo -, continue estabelecendo práticas que, legitimadas como uma simples brincadeira, desvalorizam grupos sociais e contribuem para a manutenção de uma lógica machista e homofóbica.

rafa macedo

A postagem de hoje é sobre um assunto recorrente. Todo início de período nas instituições de ensino superior há o "tradicional trote", uma suposta forma de fazer com que os calouros sejam bem recebidos. A situação que era pra ser de "boas vindas", ao longo dos anos, se tornou uma forma de brincar e, às vezes, humilhar aqueles que estão chegando. Sim, uma humilhação que diz aos novatos "você tem que respeitar quem chegou antes". Uma grande bobeira, em minha opinião, porque em muitos cursos o "novato" senta-se, em matérias como cálculo, ao lado daquele "ser superior" que aplicou o trote, mas não conseguiu a aprovação em todas as disciplinas.

Na Universidade Federal do Tocantins, instituição que faço parte, os estudantes nessa semana realizaram um trote onde os calouros deveriam andar com placas com o seguinte conteúdo "Bixete danada", "bissexual, vou sair do armário", "quero fazer suruba com meus veteranos", "adoro anal", "vale boquete", entre outros.

Em seguida a reitoria se pronunciou - de forma muito bem feita, através de uma nota de repúdio:

"A Universidade Federal do Tocantins (UFT) repudia qualquer tipo de violência na recepção aos novos acadêmicos. Desde 2006, por meio da Resolução Nº08, é determinado que são terminantemente proibidas, no âmbito da Universidade, todas e quaisquer manifestações por parte da comunidade acadêmica desta Ifes contra o aluno dito "calouro", a título de recepção do mesmo "trote", que violem sua liberdade individual, que o submetam a qualquer constrangimento ou humilhação, por meio de palavras, gestos e agressões, que inibam sua liberdade de ir e vir ou que levem à agitação, à perturbação da ordem e a danos físicos e morais ao recém-ingresso, bem como danos aos seus bens e/ou depredação do patrimônio da UFT, sujeitando-se o infringente às penalidades previstas nesta Resolução".

Entretanto, não bastou a reitoria expressar seu repúdio e classificar tal trote como violento. Em discussões nas redes sociais, surgiram outros questionamentos.

Se os calouros não se sentiram ofendidos, o trote foi ofensivo? Se as pessoas que aplicaram o trote são mulheres e homossexuais, o trote foi machista e homofóbico? (inclua na leitura lesbofóbrico, bifóbico etc.)

Acredito que, como professor da área de Educação em Ciências com foco Educação em Direitos Humanos não posso me calar e, como tenho escrito sobre nesse espaço a postagem se faz necessária.

Essas dúvidas são muito frequentes e, devemos lembrar que, apesar de existirem documentos oficiais que buscam uma formação básica amparada por princípios da Educação em Direitos Humanos, esses estudos ainda são muito recentes. Outro ponto que vai contra uma formação na área é uma falsa ideia de que Formar em Direitos Humanos passa pelo conhecimento da lei, esquecendo-se que, além da lei, formar em Direitos Humanos é uma formação em valores sociais voltados para os Direitos Humanos.

Se esse tipo de formação básica ainda é restrita, o estudante, ao chegar na universidade estaria apto a julgar se as frases que carregaram no pescoço possuem cunho machista e homofóbico? Acredito que não. E, por isso, torna-se fundamental a discussão de tais frases, buscando suas interpretações históricas.

É importante sempre lembrar que uma determinada frase pode reforçar ou transformar um estereótipo social. Portanto, ao escreverem "Adoro anal", é reforçado um discurso de que adorar anal é algo ruim. Mas é? Cada um tem o direito de gostar ou não, sem ser desmerecido por isso. A frase "bissexual, vou sair do armário" também leva a questionar... por que a bissexualidade é utilizada em um momento onde a intenção é humilhar o calouro? Será que ela sendo utilizada nesse contexto não reforça uma ideia de que a bissexualidade é algo ruim? Vamos pensar um pouco? Essa reflexão pode ser feita em qualquer frase.

Outro ponto é que qualquer mulher ou homossexual pode ser machista ou homofóbico e não é o fato ser do sexo feminino ou de orientação homossexual que faz aquela pessoa ter uma reflexão sobre a produção daquelas frases.

Por fim, é inaceitável que o meio universitário - local considerado por sua produção intelectual e fonte de uma boa parcela dos conhecimentos e pensamentos do mundo -, continue estabelecendo práticas que, legitimadas como uma simples brincadeira, desvalorizam grupos sociais e contribuem para a manutenção de uma lógica machista e homofóbica.

Mais do que punir, é necessário repensar e buscar a construção, com nossos estudantes, de novos valores sociais.