OPINIÃO
10/08/2015 13:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Escola sem partido: um projeto ignorante - vol. 3

Existe um conteúdo, ele deve ser dado e, por isso o professor fica impedido de refletir sobre a inserção daquele conteúdo no dia a dia? Segundo o projeto Escola sem Partido, sim.

zpeckler/Flickr
We don't need no educationWe dont need no thought controlNo dark sarcasm in the classroomTeachers leave them kids aloneHey! Teachers! Leave them kids alone!All in all it's just another brick in the wall.All in all you're just another brick in the wall.-Pink Floyd, "Another Brick In The Wall, Part 2"

Qual a função do professor em sala de aula? Essa pergunta é central na discussão de hoje sobre o projeto "Escola sem Partido" - já discutido anteriormente nos textos (link do texto 1 e 2).

Um trecho diz:

"Combater a ideologização em sala de aula é censura? NÃO

Censura é cerceamento à liberdade de expressão. Ocorre que não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente. Se existisse, o professor não seria obrigado a transmitir aos alunos o conteúdo de sua disciplina: poderia usar suas aulas falando sobre futebol e novela.

Também não existe liberdade de expressão quando a pessoa se dirige a indivíduos que são obrigados a escutá-la, como os alunos numa sala de aula. Do contrário, a liberdade de consciência desses indivíduos -garantida pela Constituição- seria letra morta. O que a Carta Magna assegura ao professor é a liberdade de ensinar".

Miguel Nagib

Assim, gostaria de estabelecer uma leitura sobre a resposta do advogado Miguel Nagib.

Ela confere à atividade do professor um status de "técnico da educação" e não de sujeito inserido em um meio social e com possibilidades de pensar sobre a realidade que faz parte. Esse trecho da resposta é um desrespeito com a atividade docente. Mas leiam o resto no link acima para tirarem suas próprias conclusões.

Existe um conteúdo, ele deve ser dado e, por isso o professor fica impedido de refletir sobre a inserção daquele conteúdo no dia a dia? Segundo a reposta do advogado, sim.

O professor não possui possibilidade de reflexões e de estimular essas reflexões? Acredito que não apenas possui como DEVE estimular reflexões.

Vamos ao que o projeto diz e para cada tópico farei um comentário:

Art. 4º. No exercício de suas funções, o professor:

I - não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente política, ideológica ou partidária;

Comentário: O que é chamado de corrente ideológica ou partidária? Se isso não fica claramente estabelecido, como os casos poderão ser julgados?

II - não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;

Comentário: Essa eu concordo por completo... não é possível que o estudante seja prejudicado por pensar diferente. Aula é diálogo e, por isso sou contra quase todo o projeto - ele reduz a possibilidade de diálogo.

III - não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;

Comentário: Se buscamos desde a Constituição de 1988 uma escola que forme para a cidadania, a impossibilidade de estimular o estudante na participação social e das reflexões sobre a coisa pública é um desserviço à sociedade

IV - ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;

Comentário: concordo, uma vez que essa proposição aumenta a possibilidade de diálogo entre as diversas correntes de pensamento, entretanto, devemos lembrar que um estudante pode afirmar que é nazista. Isso é uma corrente de pensamento? Sim. Mas não deve ser aceito, uma vez que passamos por um percurso histórico e mundial que estabeleceu um consenso de que devemos ser intolerantes à intolerância.

V - respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções;

Comentário: Se respeitar o direito dos pais é propor um dialogo com o que os pais acreditam, estou de acordo. Se respeitar o direito significa com silenciar uma discussão, não posso concordar.

VI - não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de terceiros, dentro da sala de aula.

Comentário: sem necessidade de comentários.

Entendo a importância de discutir um projeto como esse e acredito que só a partir de discussões o projeto poderá ser repensado. Toda discussão é importante quando feita de maneira saudável.

Como já foi enfatizado anteriormente, não acredito na neutralidade e na falta de ideologias no ambiente escolar, como o projeto propõe. Acredito no diálogo como ponto central da Educação escolar.

Os pais possuem diferenças em relação aos professores? Participem, vamos dialogar.

Os professores possuem diferenças em relação aos pais? Vamos dialogar.

Os alunos possuem diferenças em relação pais e aos professores? Vamos dialogar.

Não é solução buscar uma escola neutra. A vida não é neutra. A solução é a busca por uma escola plural, assim como é a vida. Uma escola que levante as diferenças encontre no diálogo um caminho para a TOLERÂNCIA.

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