OPINIÃO
21/01/2015 17:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

Charlie Hebdo e Marco Archer: conflitos culturais da nossa época

Ser contra a execução não significa que apoio o tipo de prática que ele tinha... Na próxima semana, vocês não me verão com a camisa "Je suis trafico na Indonésia". Mas também penso que devemos discutir sobre o ocorrido, mesmo que seja sobre a legislação de outro país.

Duas notícias chamaram bastante a atenção nas últimas semanas: o episódio ocorrido com o jornal Charlie Hebdo e o pedido de clemência da presidenta pelo traficante Marco Archer na Indonésia. Ambos podem ser lidos como conflitos entre diferentes culturas e nos ajudar a pensar um pouco.

O Charlie, pra mim, é um jornal que passa dos limites - acredito que só existe liberdade de expressão no respeito com o outro -, entretanto, isso não torna justificável a morte dos jornalistas. Por outro lado, ir contra a morte dos jornalistas não significa que eu apoio o tipo de publicação que o jornal fazia... Não serei Charlie, mas penso que devemos discutir muito sobre o ocorrido porque as generalizações desse episódio ampliam bastante a islamofobia ao ponto de que já podemos ver notícias de embaixadas pichadas e pessoas apedrejadas.

Acredito que os apedrejadores se julgam superiores aos assassinos dos jornalistas, o que seria irônico, não?

Mas não é só isso, por outro lado também temos notícia de diversos protestos com a queima da bandeira da França. Um conflito cultural que o caminho mais saudável, para ambos os lados, é dar um passo para trás.

Já no Brasil, a presidenta Dilma faz um apelo para não ocorrer a execução do brasileiro preso na Indonésia por tráfico internacional de drogas. Podemos pensar: "o traficante foi executado na Indonésia...". Ele fez algo muito errado, de fato. Mesmo assim, sua morte não é justificável. Ser contra a execução não significa que apoio o tipo de prática que ele tinha... Na próxima semana, vocês não me verão com a camisa "Je suis trafico na Indonésia". Mas também penso que devemos discutir sobre o ocorrido, mesmo que seja sobre a legislação de outro país.

Sim, a legislação era de outro país e isso faz com que seja mais difícil enfrentá-la. Porém, nenhuma lei é imutável. Ao mesmo tempo em que são construídas pelos valores da sociedade em uma determinada época, também constroem esses valores. É uma relação dinâmica e, por isso, HUMANAMENTE mutável.

Enfrentar a pena de morte é enfrentar a cultura vigente na Indonésia? Oras... Enfrentar o machismo é ir contra os machistas, enfrentar o racismo é ir contra os racistas. Isso acontece a todo o momento - devemos, sim, questionar a pena de morte, mesmo que a de outros países. Como fazer isso é que se torna o ponto chave da questão.

Esse "como fazer" retoma o papo sobre o ocorrido com o Charlie.

O jornal buscava estabelecer críticas aos sistemas vigentes, mas a forma com que essas críticas eram feitas contribuíam muito pouco para a promoção de reflexões e para o repensar a sociedade. Elas se buscavam muito mais agressivas do que propositivas, o que só contribui para a ampliação dos conflitos existentes, não para a promoção de uma cultura de diálogo. Entendo também que é impossível dialogar com alguns grupos culturais, mas será a violência um bom caminho? Tenho minhas dúvidas. Acredito que a construção de charges ou qualquer forma de arte seja um instrumento de luta e de explicitação dos problemas sociais. No entanto, elas devem ser feitas com mais conteúdo e menos ofensas.

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