OPINIÃO
09/12/2014 18:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

As violações cotidianas

Não sou apenas eu que tenho essas vivências, se você parar para pensar um pouquinho também vai lembrar. O que precisamos fazer pra nos repensar e transformar nossas práticas que perpetuam a indiferença?

Image Source via Getty Images

Estamos acostumados com o outro diferente? Vamos buscar na memória aqueles momentos que podem ser percebidos como violações de Direitos Humanos?

Como professor da Educação Básica eu comecei a pensar sobre essas violações de Direitos em algumas falas que pra mim foram muito representativas.

A primeira de todas foi num dia que resolvi mostrar cordéis aos meus alunos. Nesse dia, uma menina muito ativa em todas as aulas questionou sobre o preço do cordel. Quando respondi " dois reais" ela olhou com desdém e pronunciou a frase "também... isso, né". Naquele momento talvez não estivesse preparado para perceber que a estudante considerava aquele folheto como algo menor, mais desprezível socialmente e, por isso, possuía um valor de compra "barato" - para ela.

Outros três momentos, no ano seguinte de minha passagem pela Educação Básica, ocorreram no mesmo dia. O primeiro foi um diálogo entre mim e dois alunos: "x é muito inteligente, pena que é preconceituoso"/ "eles dizem que eu sou preconceituoso só porque não aceito gays e não gosto de judeus". A fala seguiu com umas indagações, nada muito significativo - saí impressionado daquela aula e muito pensante -, já na aula seguinte perguntei " y, como está seu irmão?" e a resposta foi "meio viadinho, mas bem". Como assim, meio viadinho, mas bem?

Outro momento de fala que me impressionou no mesmo dia. Ao ir para a terceira turma um estudante perguntou minha religião e eu, ao responder que não tinha religião, fui taxado de má pessoa, e o estudante demonstrou um certo preconceito sobre pessoas que não professam uma fé. Três momentos no mesmo dia e na rotina escolar. A partir daquele dia comecei a pensar muito mais sobre como que as palavras ditas podem expressar visões de mundo preconceituosas, constituindo-se em violações de Direitos Humanos por enfatizar uma representação que ignora a existência do outro.

O outro diferente passa a ser posto de lado, rebaixado, considerado menor. Como não somos um deles (ou não nos enxergamos como) acreditamos com muita certeza que aquilo não irá acontecer conosco. Essa representação do outro contribui com a construção dos preconceitos e dos discursos homofóbicos, racistas, machistas, classistas. Por eu não ser gay não vou me preocupar que gays sejam agredidos, por eu não ser negro, não irei me preocupar que os negros tenham sido escravizados; não irei me preocupar que muitos negros ainda são postos em posições subalternas, entre muitos outros exemplos.

Na rua a situação fica menos tensa porque o convívio não é necessariamente obrigatório, assim surge o não olhar, o ignorar o outro enquanto humano.

Finjo que ele não existe, finjo o não ser e o outro diferente se apaga. Pude reparar isso quando fui dar uma volta pela rua Uruguaiana no Rio de Janeiro com uma amiga. Nessa rua funciona um camelódromo muito freqüentado - lá vai todo tipo de gente possível, todas as orientações sexuais, classes sociais, etnias, religiões, etc. Resolvemos fotografar olhares e, os dois com câmeras buscando pessoas para tirar fotos nos momentos que elas estivessem se olhando.

Tínhamos a seguinte premissa. Pessoas passam por outras a todos os momentos, mas elas preferem não se olhar. O olhar gera estranhamento e vivemos cada vez mais num vazio do outro. Nós queríamos apenas alguns segundos de olhar para o outro-diferente no espaço público. A partir daí iríamos fotografar... Não sabíamos o que iria surgir, mas seria legal ver os olhares, sorrisos, jeitos de lidar com o outro. Tentamos algumas fotos com pessoas diferentes, uma senhora e um jovem, um rapaz e uma servidora de limpeza urbana. Na terceira tentativa de cruzamento de olhares abordamos um rapaz, artista de rua, que se apresentava vestido de mulher. A abordagem foi feita e ele prontamente aceitou participar - nesse momento achamos ótimo e queríamos buscar a outra pessoa, diferente para trocar olhares. Tentamos o primeiro rapaz que aceitou a proposta da foto, mas quando viu com quem ele teria que trocar olhares, ele se negou. Outro senhor fez o mesmo e justificou "O que iriam falar se me vissem em uma foto olhando para um gay?". A impossibilidade da foto nos assustou, foi algo meio difícil de digerir e começamos a pensar sobre. Parece que algumas diferenças tornam-se incomunicáveis para certas pessoas. Se um simples olhar torna-se algo impossível, imaginem lutar para que os outros diferentes não sejam invisíveis? Para que sejam reconhecidos na sociedade e que tenham voz?

A indiferença assola.

Não sou apenas eu que tenho essas vivências, se você parar para pensar um pouquinho também vai lembrar... o que precisamos fazer pra nos repensar e transformar nossas práticas que perpetuam a indiferença?