OPINIÃO
25/05/2015 16:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A real tragédia antes da tragédia

Levy Ribeiro/Agência O Dia/Estadão Conteúdo

Na semana passada um caso chocou o Brasil: o assassinato de um médico, por facadas, durante sua atividade física na Lagoa Rodrigo de Freitas. O fato despertou diversos discursos - assim, o texto de hoje buscará pensar sobre essas diversas falas.

A primeira fala que destaco é a tentativa de reforçar a necessidade de uma redução da maioridade penal - como se fosse solução para a criminalidade. Esses dizeres são recorrentes em diversas situações onde há um menor cometendo um crime. Talvez as pessoas que adoraram essa postura sintam-se indignadas com a situação, o que é muito legítimo, porém, não podemos admitir que a indignação transforme-se em discurso de ódio. Um discurso que busca a redução da maioridade penal como uma forma de "vingança" e não de "justiça", fazendo o jovem refletir sobre o ocorrido e buscar a sua superação e reinserção social. (prevejo pessoas dizendo que eu não tenho esse discurso porque não foi em minha família).

Outra fala recorrente é "agora os Direitos Humanos vão defender esse marginal, mas cadê os Direitos Humanos para amparar a família do médico?". Nesse sentido posso dizer que é uma visão muito restrita sobre o que é os Direitos Humanos. Devemos sim buscar amparar a família do médico e, o fato de tentar entender as motivações do crime, de forma alguma pode ser confundida com uma tentativa de sua legitimação.

Nessa tentativa de entender o ocorrido podemos destacar a fala "Um tiro em Copacabana é uma coisa. Na Favela da Coréia é outra", do secretário de segurança pública do Rio de Janeiro.

Já pensaram que esse discurso legitima a crítica que os "defensores de Direitos Humanos" fazem? Ao ler uma frase dessa, fica claro que há um tratamento diferenciado a pessoas de classes sociais diferentes. A única coisa que buscamos é um tratamento mais próximo, que o garoto seja julgado pelo que fez e que o Estado forneça caminhos para uma mudança. Também buscamos que a sociedade adquira uma capacidade de indignação mútua - quando um pobre mata um ciclista médico na lagoa e quando um pertencente das classes sociais mais altas mata um ciclista pobre. As vezes sinto que a indignação seleciona as classes sociais.

Pensar sobre o ocorrido não é legitimar o crime, é buscar atacar o ponto central do problema - realmente acredito que o ocorrido seja um efeito do problema e não a sua causa em si.

Precisamos pensar sobre a causa e, talvez, a frase do secretário de segurança nos dê alguns indicativos.

Nessa busca pelas causas podemos destacar a manchete do Jornal Extra que dizia "Duas tragédias antes da tragédia: sem família e sem escola".

Sim, a manchete do jornal foi ímpar. Ela tentou ir contra um senso comum que diz "é só prender o garoto que resolvemos" ou contra um senso comum mais danoso que diz "é só matar o garoto que resolvemos". Prender e matar, para uns, pode parecer solução, mas se não acharmos a causa do problema, surgirão novos garotos que irão assaltar e matar.

Pois bem, por fim, podemos destacar a fala da mãe do garoto acusado de matar o médico - "eu não o abandonei".

Opa. Então poderia um garoto não abandonado pela família cometer tal atrocidade? Sim. E isso nos faz pensar que, por mais que a manchete do jornal Extra seja inovadora, ela continua sem focar na causa principal do ocorrido, uma cultura onde se "é" pelo que se "tem".

Enquanto não formarmos jovens para além de uma cultura materialista - e digo materialista no sentido de bens materiais, como relógio, celular, carro, moto, etc... não solucionaremos esse problema.

Por outro lado, como é possível fazer isso se o próprio Secretário de Segurança, com sua infeliz frase, diz que você será julgado pelo que "tem" e não pelo que "é"?

Entramos em um impasse. O Estado legitima o valor do que se "tem", segregando tratamento digno entre os que "tem" e os que não "tem" bens materiais. Por outro lado, muito da violência - e nesse caso não incluo algumas psicopatias - está no fato de alguns jovens almejarem o que a vida não proporcionou a eles. Seria então, a tentativa do "ter" uma busca por um tratamento mais digno perante nossa sociedade?

Precisamos ir às causas do problema e, para isso, necessitamos urgentemente de uma revisão de nossos valores sociais, pondo em xeque nossa cultura de consumo e a visão desigual atrelada a ela.