OPINIÃO
20/03/2015 16:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O 'iTudo' e o imperativo da redistribuição

Novas tecnologias não estão apenas substituindo os trabalhadores. Elas também substituem o conhecimento. A combinação de sensores avançados, reconhecimento de voz, inteligência artificial, big data, leitura automatizada de textos e algoritmos de reconhecimento de padrões está dando origem a robôs inteligentes capazes de aprender ações humanas rapidamente - e até mesmo de aprender uns com os outros.

ASSOCIATED PRESS
The Apple Watch is displayed on Tuesday, Sept. 9, 2014, in Cupertino, Calif. (AP Photo/Marcio Jose Sanchez)

Hoje é possível vender um novo produto para centenas de milhões de pessoas sem precisar de muitos trabalhadores para produzi-lo ou distribuí-lo.

No seu auge, em 1988, a Kodak, empresa americana icônica da fotografia, tinha 145 000 funcionários . Em 2012, a Kodak foi à falência.

No mesmo ano em que a Kodak faliu, o Instagram, empresa de fotografias online, tinha 13 funcionários e atendia 30 milhões de clientes.

A proporção de produtores para consumidores continua a despencar. Quando o Facebook comprou o WhatsApp (aplicativo de mensagens) por 19 bilhões de dólares no ano passado, o serviço tinha 55 funcionáriosatendendo 450 milhões de clientes.

Um amigo que trabalha em casa, em Tucson, recentemente inventou uma máquina que detecta certos elementos no ar.

Ele já vendeu via internet centenas dessas máquinas para clientes em todo o mundo. Ele as produz em casa, com uma impressora 3D.

Até agora, o negócio inteiro depende de uma só pessoa - ele mesmo.

Novas tecnologias não estão apenas substituindo os trabalhadores. Elas também substituem o conhecimento.

A combinação de sensores avançados, reconhecimento de voz, inteligência artificial, big data, leitura automatizada de textos e algoritmos de reconhecimento de padrões está dando origem a robôs inteligentes capazes de aprender ações humanas rapidamente - e até mesmo de aprender uns com os outros.

Se você acha que ser um "profissional" garante a segurança do seu emprego, pense de novo.

Os dois setores da economia que abrigam mais profissionais - saúde e educação - estão sob pressão crescente para cortar custos. E as máquinas estão prontas para entrar em cena.

Estamos às vésperas de uma onda de aplicativos móveis de saúde. Eles medirão tudo, do seu colesterol à sua pressão arterial, darão diagnósticos sobre esses indicadores e recomendarão o que fazer.

Nos próximos anos, aplicativos desempenharão muitas tarefas que cabiam a médicos, enfermeiros e técnicos (pense em exames de ressonância magnética, ultrassons e eletrocardiogramas).

Enquanto isso, os empregos de muitos professores vão sumir, substituídos por cursos online e livros interativos

Onde vamos parar?

Imagine uma pequena caixa - vamos chamá-la de "iTudo" - capaz de produzir tudo o que você possa desejar, uma versão moderna da lâmpada de Aladin.

Você simplesmente diz o que quer e - presto! --, o objeto está a seus pés.

O iTudo também faz o que você quiser. Faz massagem, busca seus chinelos, lava passa e dobra suas roupas.

O iTudo vai ser a melhor máquina jamais inventada.

O único problema é que ninguém poderá comprá-la. Porque ninguém vai ter como ganhar dinheiro, afinal de contas essa máquina vai fazer tudo.

Isso é obviamente um exagero, mas quando mais e mais coisas podem ser feitas com menos e menos pessoas, os lucros ficam com um círculo cada vez menos de executivos e donos/investidores.

Um dos jovens fundadores do WhatsApp, Jan Koum, tinha uma participação de 45% na empresa quando ela foi adquirida pelo Facebook, o que lhe rendeu 6,8 bilhões de dólares

O co-fundador Brian Acton ficou com 3 bilhões por seus 20%.

Cada um dos primeiros funcionários supostamente teria 1% do capital, o que teria rendido a cada um deles 160 milhões de dólares.

Enquanto isso, o resto de nós vamos continuar fazendo aquilo que a tecnologia não faz - atenção pessoal, toque humano, cuidado. Mas esse tipo de emprego paga muito pouco.

Isso significa que a maioria de nós terá cada vez menos dinheiro para comprar os modernos produtos e serviços tecnológicos - porque essas mesmas tecnologias vão suplantar nossos empregos e arrochar nossos salários.

Precisamos de um novo modelo econômico.

O modelo econômico que dominou a maior parte do século 20 foi produção em massa por muitos, para consumo em massa por muitos.

Trabalhadores eram consumidores, consumidores eram trabalhadores. Com o aumento dos salários, as pessoas tinham mais dinheiro para comprar as coisas que elas mesmas e os outros produziam - como câmeras Kodak. Isso se traduzia em mais empregos e salários mais altos.

Esse ciclo virtuoso está desmoronando. Um futuro de produção quase ilimitada por um punhado de gente, consumida por quem puder comprá-la, é a receita do colapso econômico e social.

Nosso problema fundamental não será o número de empregos. Será - e já é - a alocação da renda e da riqueza.

O que fazer?

"Redistribuição" virou um xingamento .

Mas a economia para a qual nos dirigimos - na qual mais e mais é gerado por menos e menos pessoas, que ficam com a maioria dos benefícios, deixando o resto de nós sem poder de compra - não tem como funcionar.

Pode ser que a redistribuição de renda e riquezas dos ricos donos das novas tecnologias para o resto de nós seja a única maneira de fazer funcionar a economia do futuro.

O filme de Robert B. Reich "Inequality for All" (desigualdade para todos, em tradução livre) está disponível em DVD, Blu-Ray e no Netflix. Assista o trailer abaixo:

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.