OPINIÃO
27/05/2015 18:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Os robôs estão chegando! Os robôs estão chegando!

Observe com atenção e você vai perceber que muitos dos que alertam para essa nova onda de desaparecimento de empregos ou são economistas ortodoxos ou aqueles que se baseiam nas crenças da economia padrão de que a sociedade não consegue melhorar os veredictos das forças do mercado. E essa é a grande bobagem.

jmorgan/Flickr
These are sweet robots.

Os robôs vão acabar com a maioria dos empregos humanos? Esse ciclo de automação será diferente de todos os outros?

Recentemente, muitos comentários têm sido feitos nesse sentido, incluindo vários livros.

Não há nada que possamos fazer?

Os robôs de fato eliminaram muito trabalho nas fábricas e estão entrando rapidamente nas áreas de design de produtos, diagnósticos médicos, pesquisas, ensino, contabilidade, tradução, edição de textos e muito mais. Profissões que eram consideradas seguras já não estão livres dessa ameaça. Muitos economistas concluem que talvez tenhamos de nos ajustar a um novo patamar de desemprego.

No passado, diz a história, a tecnologia eliminava alguns empregos, mas criava outros, em geral melhores: menos gente fazendo carroças, mais gente trabalhando em linhas de montagem de carros; menos telefonistas, mais gente trabalhando no design de iPhones e prestando consultoria nas lojas da Apple. A tecnologia tornou a sociedade mais rica na média, e a questão do emprego se resolveu sozinha.

Mas não é mais esse o caso, segundo vários comentaristas. Por quê? Porque o ritmo da eliminação de empregos aumentou e está chegando às ocupações consideradas seguras. E a automação só vai levar a mais automação.

Isso é bobagem. Não o que diz respeito à automação; de fato, os empregos humanos estão sendo cada vez mais substituídos pela automação.

A bobagem é acreditar que o resultado disso serão necessariamente índices mais altos de desemprego. Isso vai acontecer de fato - se confiarmos a transição à "mão invisível".

Meio século atrás, o vencedor do Nobel de Economia Wassily Leontief sugeriu um experimento mental segundo o qual a economia era tão produtiva que era necessário somente um único trabalhador humano. Sua função era ligar um botão. E aí? As perguntas, disse Leontief, eram: 1. como alocar os frutos de tamanha produtividade?; 2. o que o resto do mundo faria para ganhar a vida?

No final dos anos 1930, houve um pânico da automação, e muitos economistas culparam as máquinas pelo alto desemprego daquela época. John Maynard Keynes disse que as máquinas não eram o problema, mas sim a queda no poder de compra.

O boom pós Segunda Guerra Mundial provou que Keynes estava correto. Investimentos massivos durante o conflito criaram e subsidiaram novas tecnologias de automação, que acabou por gerar ainda mais empregos para os humanos.

A necessidade de políticas de investimentos sociais para manter a economia com pleno emprego -- para lidar com o desaparecimento de vagas provocado pela tecnologia - também foi tema de trabalhos de Hyman Minsky, um economista que observou que o problema era o capitalismo laissez-faire e sua tendência de gerar crises financeiras periódicas; um governo ativista seria necessário para que a economia se mantivesse sempre no seu potencial máximo.

Existem duas conclusões.

A primeira é que sempre haverá trabalho a fazer. Olhe à sua volta. É preciso cuidar das crianças e educá-las, cuidar dos mais velhos, reformar e substituir infra-estruturas públicas deterioradas, expandir as pesquisas, fazer a transição para uma economia verde. Imagine todo o trabalho construtivo que os humanos poderiam estar livres para fazer se seus empregos atuais fossem tomados por máquinas.

Alguns desses trabalhos não têm glamour e pagam baixos salários. Mas cuidar dos mais velhos, por exemplo, pode ser um emprego de salários razoáveis. Outros já são parte de uma economia de classe média. Se estivermos levando a sério a transição para uma economia pós-carbono, isso inclui desde empregos de pesquisa e desenvolvimento a manufatura e a trabalhos especializados de construção e instalação.

Toda essa produtividade extra também poderia se traduzir em mais tempo de lazer, um sonho antigo dos defensores das leis trabalhistas. Mas, estranhamente, o aumento da automação tem levado os americanos a trabalhar cada vez mais horas - porque os salários diminuíram.

Críticos do salário mínimo de 15 dólares por hora alertam que funcionários de redes de fast food podem ser substituídos por máquinas. Que venham as máquinas - vamos oferecer a essas pessoas vidas mais ricas, fazendo algo mais recompensador do que fritar hambúrguers.

A questão remonta à pergunta distributiva de Leontief: como alocar os frutos de tamanha produtividade. Por enquanto, os frutos estão indo majoritariamente para o 1% mais rico.

Mas não precisa ser assim, e daí vem a segunda conclusão: se dependermos das forças de mercado para remediar a crescente automação, realmente teremos mais desemprego, o que por sua vez vai reduzir ainda mais os salários - porque mercados não têm competência para redistribuir os ganhos da automação e transformá-los em novos e melhores empregos.

Observe com atenção e você vai perceber que muitos dos que alertam para essa nova onda de desaparecimento de empregos ou são economistas ortodoxos ou aqueles que se baseiam nas crenças da economia padrão de que a sociedade não consegue melhorar os veredictos das forças do mercado.

E essa é a grande bobagem. O problema não é a tecnologia, que, na média, é um enorme benefício. (Na média, Bill Gates e seu jardineiro são muito ricos.) O problema é que as forças de mercado não têm competência para traduzir os ganhos de produtividade em novos empregos, sem falar de bons empregos, pois a demanda está no lugar errado.

Com a taxação adequada da riqueza e investimentos públicos suficientes, a sociedade poderia prontamente criar novos empregos humanos para substituir aqueles destruídos pela automação. E, quanto maior o ritmo de substituição tecnológica, mais urgentes são os investimentos sociais.

Em sua maioria, os economistas que estudam tecnologia não leram Lontief, Keynes ou Minsky. Se aceitarmos a conclusão de que máquinas mais inteligentes significam humanos ociosos, enquanto as pessoas precisam de trabalho e há trabalho a ser feito, é nossa culpa se não insistirmos em algo melhor.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.