OPINIÃO
12/09/2014 16:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Alto general russo revela planos de Putin para a Ucrânia

Em junho, deparei com um artigo relativamente obscuro do general Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa, e fiquei surpreso com o quanto o texto espelhava minhas observações sobre a crise que se desenrola na Ucrânia.

Sean Gallup via Getty Images
PEREVALNE, UKRAINE - MARCH 05: Troops under Russian command assemble before getting into trucks near the Ukrainian military base they are blockading on March 5, 2014 in Perevalne, Ukraine. Meanwhile armed paramilitary troops, including Cossacks armed with Klashnikov rifles and armoured personnel carriers, have begun digging in at the northern end of Crimea around Armyansk in what seems to be an effort to define the new border between Crimea and Ukraine. (Photo by Sean Gallup/Getty Images)

Quando a crise na Ucrânia esquentou dramaticamente em novembro do ano passado e nas semanas seguintes, fiquei impressionado com a capacidade do Estado russo de mobilizar tantas ferramentas diferentes em sua tentativa de desestabilizar seu vizinho. Logo ficou claro que os políticos, jornalistas, supostas organizações não-governamentais, empresas estatais, think tanks, militares, cortes, agências governamentais russos e a Duma estavam todos trabalhando com as mesmas instruções e com os mesmos objetivos. Na época, notei no Twitter que a crise mostrava a eficácia da tática do "estado unitário" que o presidente russo, Vladimir Putin, vem construindo desde 1999.

Em junho, deparei com um artigo relativamente obscuro do general Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Federação Russa, e fiquei surpreso com o quanto o texto espelhava minhas observações sobre a crise que se desenrola na Ucrânia.

Gerasimov escreve como "um estado perfeitamente próspero pode, em questão de meses ou mesmo dias, transformar-se numa arena de um feroz conflito armado, tornar-se vítima de intervenção externa e cair numa teia de caos, catástrofe humanitária e guerra civil".

Isso se consegue, escreve Gerasimov, com o "uso extensivo de medidas políticas, econômicas, informacionais, humanitárias e outras medidas não-militares aplicadas em coordenação com o potencial de protestos da população". O objetivo é "criar um front permanentemente operante por todo o território do estado inimigo".

O artigo de Gerasimov é de grande interesse para especialistas militares, mas também tem interesse geral. Ele revela muito da visão da Rússia sobre o Ocidente - particularmente os Estados Unidos. O Kremlin acredita que o Ocidente realize tais operações regularmente ao redor do mundo. A visão de temas globais apresentada nesse artigo, acredito, reflete precisamente uma linha de pensamento importante do Kremlin. Afinal de contas, ela é apresentada em uma publicação obscura, e sua exposição a audiências estrangeiras não poderia ter sido prevista.

O artigo também apresenta uma avaliação cândida e relativamente negativa da ciência militar russa. Gerasimov nota que o campo foi frustrado no passado por uma "atitude de desdém em relação a novas ideias", pela qual a União Soviética pagou "com grandes quantidades de sangue" durante a Segunda Guerra Mundial. Lendo as entrelinhas, pode-se aprender muito sobre as relações entre os militares e o governo e sobre as escolas concorrentes dentro da própria estrutura de segurança.

Finalmente, acredito que este artigo oferece uma lição para o Ocidente. O governo russo é intencionalmente cheio de segredos, mas está longe de ser tão inescrutável quanto o governo soviético. Há uma quantidade enorme de informações reveladoras e importantes no texto. Elas precisam ser investigadas, traduzidas e trazidas para a discussão maior das relações da Rússia com o Ocidente e de seu papel no mundo. Mas muito pouco dessa informação circula além de um pequeno grupo de especialistas. E isso tem-se provado um erro custoso.

Eis minha tradução de trechos chave do artigo do general Gerasimov, que apareceu no "Military-Industrial Kurier", em 27 de fevereiro de 2013.

No século 21 temos visto uma tendência de embaralhamento das fronteiras entre os estados de guerra e paz. As guerras não são mais declaradas e, uma vez iniciadas, procedem de acordo com um modelo não-familiar.

A experiência de conflitos militares - incluindo aqueles ligados às chamadas revoluções coloridas no Norte da África e no Oriente Médio - confirmam que um estado perfeitamente próspero pode, em questão de meses ou mesmo dias, se transformar numa arena de um feroz conflito armado, tornar-se vítima de intervenção externa e cair numa teia de caos, catástrofe humanitária e guerra civil.

As Lições da "Primavera Árabe"

Seria fácil, é claro, dizer que os eventos da "Primavera Árabe" não foram guerras e portanto não oferecem lições para nós - homens militares. Mas talvez o oposto seja verdade - que esses eventos são precisamente típicos da guerra no século 21.

Em termos da escala das baixas e da destruição - as consequências catastróficas políticas, econômicas e sociais --, tais novos tipos de conflitos são comparáveis com as consequências de qualquer guerra real.

As próprias "regras da guerra" mudaram. O papel dos meios não-militares para atingir objetivos políticos e estratégicos aumentou e, e muitos casos, excede o poder da força das armas em sua efetividade.

O foco dos métodos de conflitos aplicados se alterou em direção a um uso extensivo de medidas políticas, econômicas, informacionais, humanitárias e outras medidas não-militares -- aplicadas em coordenação com o potencial de protestos da população.

Tudo isso é suplementado por meios militares de caráter oculto, incluindo a realização de ações de conflito de informação e de ações de forças especiais. O uso aberto de forças - muitas vezes sob a aparência externa de forças de manutenção de paz e regulação de crises - só ocorre em certo estágio, primordialmente para que se atinja o sucesso final no conflito.

Disso advêm questões lógicas: O que é a guerra moderna? Para que o exército deve estar preparado? Como ele deveria ser armado? Só depois de responder a essas questões podemos determinar as direções da construção e do desenvolvimento das forças armadas no longo prazo. Para isso, é essencial ter um entendimento claro das formas e dos métodos do uso da aplicação da força.

Hoje em dia, planos não-tradicionais têm se desenvolvido juntamente com os tradicionais. Tem se fortalecido o papel de grupos de forças mistas e móveis que agem num espaço único de inteligência-informação por causa do uso das novas possibilidades dos sistemas de comando-e-controle. Ações militares estão se tornando mais dinâmicas, ativas e frutíferas. Pausas táticas e operacionais que poderia ser exploradas pelo inimigo estão desaparecendo. Novas tecnologias da informação diminuem os espaços temporais, informacionais e espaciais entre as forças e os órgãos de controle. Enfrentamentos diretos de grandes formações de forças nos níveis estratégico e operacional estão gradualmente se tornando coisa do passado. Ações à distância, sem contato com o inimigo, estão se tornando o principal meio de atingir objetivos de combate e de operações.

A derrota dos objetos dos inimigos se conduz em toda a profundidade de seu território. As diferenças entre os níveis estratégico, operacional e tático, assim como as diferenças entre operações ofensivas e defensivas, estão desaparecendo. A aplicação de armas de alta precisão está se massificando. Armas baseadas em novos princípios físicos e sistemas automatizados estão sendo ativamente incorporados à atividade militar.

Ações assimétricas têm sido usadas amplamente, permitindo a anulação de vantagens do inimigo em conflitos armados. Entre tais ações encontram-se o uso de forças especiais e oposição interna para criar um front permanentemente operante por todo o território do estado inimigo, assim como ações informacionais, planos e meios em constante aperfeiçoamento.

Essas mudanças em andamento são refletidas nas visões doutrinárias dos estados líderes e estão sendo usadas em conflitos militares.

Já em 1991, durante a operação Tempestade no Deserto, no Iraque, os militares americanos puseram em prática o conceito de "varrição global, poder global" e "operações terra-ar". Em 2003, na operação Liberdade Iraquiana, as operações militares foram conduzidas de acordo com a chamada Perspectiva Única 2020.

Agora, os conceitos de "ataque global" e "defesa antimísseis global" foram definidos, o que prevê a derrota de forças e objetos inimigos em questão de horas a partir de praticamente qualquer ponto do globo, ao mesmo tempo em que se garante a prevenção de danos inaceitáveis causados por um contra-ataque inimigo. Os Estados Unidos também estão adotando os princípios da doutrina da integração global de operações, visando criar grupos de forças altamente móveis e mistos em períodos muito curtos.

Em conflitos recentes, surgiram novas maneiras de conduzir operações militares que não podem ser consideradas puramente militares. Um exemplo disso é a operação na Líbia, onde foram criados uma zona de exclusão de voos, um bloqueio naval e onde prestadores de serviços militares foram amplamente utilizados, em interações próximas com as formações armadas da oposição.

Devemos reconhecer que, apesar de entendermos a essência das ações militares tradicionais conduzidas por forças armadas regulares, temos apenas um entendimento superficial das formas e meios assimétricos. Nessa conexão, a importância da ciência militar - que deve criar uma teoria abrangente de tais ações - está crescendo. O trabalho e as pesquisas da Academia de Ciência Militar pode nos ajudar.

As Tarefas da Ciência Militar

Em uma discussão sobre as formas e meios dos conflitos militares, não podemos nos esquecer da nossa própria experiência. Falo sobre o uso de partisans durante a Grande Guerra Patriótica e da luta contra formações irregulares no Afeganistão e no Cáucaso Norte.

Eu enfatizaria que durante a Guerra do Afeganistão foram desenvolvidos formas e meios específicos de condução de operações militares. Na essência, eles envolvem velocidade, movimentos rápidos, o uso inteligente de forças táticas e forças de cerco, que, juntos, permitem a ruptura dos planos do inimigo e causam perdas significativas.

Outro fator que influencia os meios modernos dos conflitos armados é o uso de complexos modernos e automatizados de equipamentos militares e as pesquisas na área de inteligência artificial. Hoje temos drones, amanhã os campos de batalha estarão repletos de robôs capazes de andar, rastejar, pular e voar. No futuro próximo, é possível que sejam criadas unidades inteiramente robotizadas, capazes de conduzir operações militares de forma independente.

Como devemos lutar sob tais condições? Que formas e meios devem ser usados contra um inimigo robotizado? De que tipos de robôs precisamos e como podemos desenvolvê-los? Nossas cabeças militares devem pensar sobre essas questões desde já.

O conjunto de problemas mais importante, que requer atenção intensa, está ligado ao aperfeiçoamento das formas e meios de aplicar grupos de forças. É necessário repensar o conteúdo das atividades estratégicas das Forças Armadas da Federação Russa. As questões já estão surgindo: É necessário esse número de operações estratégicas? De quais delas e de quantas vamos precisar no futuro? Por enquanto, não existem respostas.

Há outros problemas que encontramos em nossas atividade diárias.

Estamos na fase final da formação de um sistema de defesa do espaço aéreo (VKO). Por isso, a questão do desenvolvimento de formas e meios de ação usando forças e ferramentas do VKO se tornaram reais. O Estado-Maior já está trabalhando nisso. Proponho que a Academia de Ciência Militar também tome parte ativamente.

O espaço da informação abre enormes possibilidades assimétricas para a redução do potencial de combate do inimigo. No Norte da África, testemunhamos o uso de tecnologias para influenciar estruturas de estado e a população com a ajuda de redes de informação. É necessário aperfeiçoar as atividades no espaço da informação, incluindo a defesa de nossos próprios objetos.

A operação para forçar a Geórgia à paz expôs a falta de abordagens unificadas para o uso de formações das Forças Armadas fora da Federação Russa. O ataque de setembro de 2012 no consulado americano na cidade líbia de Benghazi, a ativização da pirataria e a recente tomada de reféns na Argélia - tudo isso confirma a importância de criar um sistema de defesa armada dos interesses do estado fora das fronteiras de seu território.

Apesar de as adições à lei federal "Sobre a Defesa" adotadas em 2009 permitirem o uso operacional das Forças Armadas da Rússia fora de suas fronteiras, as formas e meios de sua atividade não estão definidos. Além disso, questões de facilitamento do seu uso operacional não foram decididos no nível interministerial. Isso inclui simplificar o procedimento para o cruzamento de fronteiras estatais, o uso de espaço aéreo e de águas territoriais de estados estrangeiros, os procedimentos para interagir com as autoridades do estado-destino e assim por diante.

Em tais questões, é necessário convocar um trabalho conjunto de organizações de pesquisa dos ministérios pertinentes e das agências.

Uma das formas de usar a força militar fora do país são as missões de manutenção da paz. Além de tarefas tradicionais, a atividade de tais missões pode incluir tarefas mais específicas, como resgate, evacuações, saneamento e outras tarefas. No presente, a classificação, a essência e o conteúdo dessas missões não foram definidos.

Além disso, as tarefas complexas e multifacetadas das missões de paz que, possivelmente, tropas regulares terão de realizar presumem a criação de um sistema fundamentalmente novo para a sua preparação. A tarefa das missões de paz, afinal de contas, é desengajar lados conflitantes, proteger e salvaguardar a população civil, cooperar para a redução de violência em potencial e restabelecer uma vida pacífica. Tudo isso exige preparação acadêmica.

Controlando Território

Está se tornando cada vez mais importante em conflitos modernos a capacidade de defender a população, os objetos e as comunicações da atividade das forças especiais, à luz de sua crescente utilização. Resolver esse problema exige organização e a introdução da defesa territorial.

Antes de 2008, quando o exército tem tempos de guerra contava com mais de 4,5 milhões de homens, essas tarefas cabiam exclusivamente às forças armadas. Mas as condições mudaram. Agora, só é possível opor-se a forças diversionárias, de reconhecimento e terroristas com o envolvimento complexo de todas as forças policiais e de segurança do país.

O Estado-Maior começou este trabalho. Ele se baseia em definir abordagens para a organização da defesa territorial que foram refletidas nas mudanças na lei federal "Sobre a Defesa". Desde a adoção dessa lei, é necessário definir o sistema de gerenciamento da defesa territorial e impor legalmente o papel e a locação das outras forças, formações militares e órgãos de outras estruturas estatais nesse sistema.

Precisamos de recomendações sólidas sobre o uso de meios e de forças interagências para a execução da defesa territorial, métodos para combater as forças terroristas e diversionistas do inimigo sob condições modernas.

A experiência das operações militares no Afeganistão e no Iraque mostraram a necessidade de definir - junto com órgãos de pesquisa de outros ministérios e agências da Federação Russa - o papel e o nível de participação na regulação pós-conflito, decidindo a prioridade das tarefas, os métodos de ativação das forças e estabelecendo os limites para o uso da força armada.

[...]

Você Não Pode Gerar Ideias No Campo

O estado da ciência militar russa hoje não pode ser comparado com o florescimento do pensamento militar-teórico em nosso país às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

Há motivos objetivos e subjetivos para isso, é claro, e não é possível culpar ninguém em particular por isso. Não sou eu a pessoa que disse que não é possível gerar ideias a partir quando se está no campo.

Concordo com isso, mas também devo reconhecer algo mais: na época, não havia pessoas com formação superior e não havia escolas acadêmicas ou departamentos. Havia personalidades extraordinárias, com ideias brilhantes. Os chamaria de fanáticos, no melhor sentido da palavra. Hoje talvez simplesmente não tenhamos gente suficiente desse tipo.

Gente, por exemplo, como Georgy Isserson, que, apesar das visões que formou nos anos anteriores à guerra, publicou o livro "Novas Formas de Combate". Nele, o teórico militar soviético previu:

"A guerra, em geral, não se declara. Ela simplesmente começa com forças militares já desenvolvidas. Mobilização e concentração não são parte do período após o início do estado de guerra, como foi o caso em 1914, mas sim despercebidas, iniciadas muito antes."

O destino desse "profeta da Pátria" se desenrolou tragicamente. Nosso país pagou com grandes quantidades de sangue por não dar ouvidos às conclusões desse professor da Academia do Estado-Maior.

O que podemos concluir? Uma atitude de desdém para com novas ideias, abordagens não-tradicionais e outros pontos de vista é inaceitável na ciência militar. Ela é ainda mais inaceitável se praticantes tiverem essa mesma atitude com relação à ciência.

Concluindo, gostaria de dizer que não importa que forças tenha o inimigo, não importa o quão desenvolvidos sejam seus meios de conflito armado e suas forças, formas e métodos para superá-lo podem ser encontradas. Ele sempre terá vulnerabilidades, e isso significa que existem meios adequados de opor-se a ele.

Não devemos copiar a experiência estrangeira e correr atrás de países líderes. Devemos ultrapassá-los e ocupar as posições de liderança nós mesmos. É aí que a ciência militar tem um papel crucial.

O formidável estudioso militar soviético Aleksandr Svechin escreveu:

"É extraordinariamente difícil prever as condições da guerra. Para cada guerra é necessário decidir uma linha particular para sua condução estratégica. Cada guerra é um caso único, exigindo o estabelecimento de uma lógica particular e não a aplicação de um modelo."

Essa abordagem segue correta. Cada guerra se apresenta como um caso único, exigindo a compreensão de sua lógica particular, de sua peculiaridade. É por isso que é difícil prever o caráter de uma guerra em que a Rússia ou seus aliados possam se envolver. De qualquer modo, é nosso dever. Quaisquer pronunciamentos acadêmicos da ciência militar não têm valor se a teoria militar não for apoiada pela função da predição.

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