OPINIÃO
20/07/2014 09:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O que nos faz humanos?

Patrick J. Lynch/Flickr
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O que separa os humanos dos outros animais, incluindo nossos parentes mais próximos?

É uma daquelas grandes perguntas perenamente postas pelo público evo-curioso. Mas até pouco tempo atrás eu raramente dava atenção a ela, basicamente porque as respostas tendem a se prender a um ou outro traço que nos faz diferente dos nossos parentes símios: a postura ereta, o formato de nossos dedões, o tamanho dos nossos cérebros.

Milhões de anos de evolução separada resultaram, é claro, em uma divergência considerável em todo tipo de traço. Não faz sentido elevar um único em particular ao status especial de coisa que faz dos humanos humanos.

Perguntas sobre o que nos separa dos outros animais também carregam uma certa bagagem infeliz. A crença de que existe algo inerentemente especial nos humanos e a maneira como ascendemos é mais adequada para mitos de criação e doutrinas religiosas do que para uma visão científica e comprovável do mundo. A noção de uma criação especial e as perversões do pensamento evolucionário que defendem que os humanos são uma exceção tendem a vir pré-equipadas com chauvinismos taxonômicos do seguinte tipo:

"Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra."

Um embate vitoriano de mentes

O estilhaço do pensamento evolucionário que mais incomoda a religião é a noção de que os humanos não foram criados especiais e não são modelados em uma imagem divina. O grande anatomista Richard Owen, contemporâneo de Darwin, defendeu ferozmente a humanidade como modelo de perfeição e o status quo da Inglaterra Vitoriana contra o transmutacionalismo (como o pensamento evolucionista era então conhecido) e a "bestialização" do homem.

Quando as primeiras peles e crânios de um recém-descoberto, grande e "indescritivelmente feroz" símio africano (o gorila) causaram frisson na Londres dos anos 1850, eles atiçaram a curiosidade de uma classe trabalhadora que desafiava as idéias da singularidade humana e de uma ordem social divina. Owen falou à Associação Britânica em 1854 que o cérebro humano tinha estruturas especiais - tais como o hipocampo menor - que não se encontravam nos símios. Ali, Owen afirmava, estaria a prova da singularidade humana.

Um jovem Thomas Henry Huxley localizou o hipocampo menor dos gorilas (lembre-se de que eles trabalhavam com crânios) em março de 1858 (meses antes do paper de Darwin-Wallace sobre a seleção natural), provando ser ele, Huxley, o melhor anatomista. Mais importante ainda, a interpretação de Huxley de que chimpanzés, gorilas e humanos são pelo menos tão parecidos uns com os outros como o são com babuínos - hoje conhecimento corrente - devastou a tese de Owen da singularidade dos humanos.

Uma por uma, todas as asserções relativas à singularidade humana caíram por terra. Por exemplo, em 1960 Jane Goodall refutou (http://www.janegoodall.org/chimp-central-toolmakers) a ideia de que o uso de ferramentas pelos humanos nos separaria dos nossos parentes mais próximos. Talvez toda a empreitada de procurar traços que nos distingam de outros símios seja um engano - as diferenças seriam mais quantitativas que qualitativas?

Cuidado com o vão

No mês passado tive o prazer de discutir este tema com o professor da UQ Thomas Suddendorf no Sydney Writers Festival. Suddendorf estava no festival para falar de seu livro The Gap: The Science of What Separates Us From Other Animals (http://thegap.psy.uq.edu.au/) (O vão: a ciência do que nos separa dos outros animais, em tradução livre), recentemente publicado e recebido com resenhas entusiasmadas.

The Gap ataca a difícil questão do que separa os humanos dos demais animais, mas parte de sua genialidade é a maneira pela qual ele começa colocando os humanos em seu contexto biológico. Só entendendo os humanos como organismos podemos começar a testar a ideia de que nós somos diferentes dos outros organismos, e quais podem ser essas diferenças.

Suddendorf é psicólogo e trabalha tanto com crianças quanto com primatas para tentar entender a evolução da mente e o desenvolvimento das capacidades mentais na infância. The Gap considera em detalhes os traços mentais que provavelmente mais afetaram o sucesso ecológico dos humanos em relação aos nossos parentes símios. Enquanto orangotangos, gorilas e chimpanzés definham em pedaços cada vez menores de florestas tropicais, aponta ele, os humanos são responsáveis por mais de sete vezes a biomassa de todos os outros mamíferos selvagens juntos. Algo nos diferencia - ecologicamente, pelo menos - dos nossos parentes mais próximos.

Depois de rever as evidências científicas das capacidades do homem e do símio nas áreas da linguagem, da viagem mental no tempo (a capacidade de imaginar o passado e o futuro), da teoria da mente, da inteligência, da cultura e da moralidade, Suddendorf chega à conclusão de que, nesses domínios, duas principais características separam os humanos:

"Nossa capacidade infinita de imaginar e refletir sobre situações diferentes, e nosso enraizado desejo de unir nossas mentes."

Essa é a melhor resposta para a singularidade humana que já encontrei. Mais que isso: a resposta, e o caminho fascinante de Suddendorf para chegar a ela, tornou a singularidade humana uma questão interessante novamente.

Rob Brooks não trabalha, presta consultoria, tem ações ou recebe financiamento de nenhuma empresa ou organização que poderia se beneficiar deste post e não tem afiliações relevantes.