OPINIÃO
03/06/2015 19:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Precisamos de um Programa Apolo Global para lidar com a mudança climática

A prioridade será reduzir o custo de armazenagem da eletricidade, de modo que a energia do sol e do vento possam estar disponíveis 24 horas por dia. (Uma melhor armazenagem da energia também é crucial se quisermos substituir a gasolina dos carros por eletricidade). Outras prioridades incluem baratear a geração das energias eólica e solar, além de sistemas elétricos "inteligentes".

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No passado, governos que se viam diante de ameaças existenciais chamavam engenheiros e cientistas para encontrar soluções. O mesmo deveria estar acontecendo agora com a mudança climática. Mas, incrivelmente, só 1% dos orçamentos governamentais de pesquisa e desenvolvimento vão para o maior desafio científico do mundo. Em vez disso, precisamos urgentemente de um esforço concertado e internacional de pesquisa e desenvolvimento - um Programa Apollo Global (PAG) - para lidar com o problema.

Uma lógica extremamente simples dita o objetivo desse programa. Quando a energia sem carbono custar menos para ser produzida que a energia de combustíveis fósseis, os combustíveis fósseis continuarão no solo. Portanto, o objetivo do PAG é reduzir o custo da energia limpa, e rápido. Em dez anos, a eletricidade gerada pelo vento ou pelo sol deve ser mais barata que a proveniente do carvão, no mundo inteiro.

Isso é factível? Existe um precedente quase idêntico na história dos semicondutores, cujo preço vem caindo regularmente há 40 anos. É a chamada Lei de Moore, mas ela não aconteceu por mágica. Foi em grande medida por causa de um grande programa pré-competitivo de pesquisa e desenvolvimento, financiado principalmente por governos. O esforço foi coordenado pelo International Technology Roadmap Committee, que reunia países e empresas líderes. Esse comitê identificou ano a ano os gargalos para mais reduções de preços e encomendou pesquisas para superar esses obstáculos.

O PAG vai funcionar da mesma maneira. Os países-membros vão concordar em investir no programa pelo menos 0,02% de seu PIB anual, durante dez anos - um investimento semelhante ao da conquista da Lua. O dinheiro será gasto em cada país-membro, mas dentro de uma estrutura desenvolvida pelo Roadmap Committee, que será co-locado com a Agência Internacional de Energia, em Paris.

A prioridade será reduzir o custo de armazenagem da eletricidade, de modo que a energia do sol e do vento possam estar disponíveis 24 horas por dia. (Uma melhor armazenagem da energia também é crucial se quisermos substituir a gasolina dos carros por eletricidade). Outras prioridades incluem baratear a geração das energias eólica e solar, além de sistemas elétricos "inteligentes".

Em 1931, Thomas Edison disse: "Apostaria no sol e na energia solar. Que fonte de energia! Espero que não tenhamos de esperar que acabem o petróleo e o carvão para explorá-la!" Ele estava certo - esperar demais seria desastroso. Mas felizmente a energia solar tem potencial extraordinário de redução de preço, o que em parte já se alcançou, e a maior demanda por energia em 2025 será em países ensolarados, ou próximos de desertos de céu limpo. O vento também tem enorme potencial inexplorado, enquanto o melhor armazenamento de eletricidade vai melhorar a economia da geração nuclear. Se todos os países do mundo participassem do PAG, o esforço de pesquisa e desenvolvimento mundial mais que dobraria.

A proposta do PAG foi desenvolvida um ano atrás pelos sete especialistas listados abaixo. Desde então, ela foi explorada em todos os países do G7, além de Índia e China. A ideia recebeu apoio entusiasmado no mundo todo, e esperamos que os países líderes decidam participar do projeto até o fim do ano.

Ao mesmo tempo, é essencial que metas obrigatórias de emissões de CO2 sejam acordadas na conferência sobre a mudança climática que ocorrerá em Paris, em dezembro. O PAG não é uma alternativa a essas metas - é uma maneira de ajudar os países a atingi-las. As duas abordagens são complementares e inseparáveis.

Ralph Waldo Emerson disse certa vez: "Nada assombra tanto o homem quanto o bom senso". Certamente é bom senso imaginar que os governos devam se aproveitar do poder da comunidade científica para resolver o maior problema científico do mundo. Esperamos que eles concordem em fazê-lo de maneira inovadora até o fim do ano.

Nota: A Global Apollo Programme to Tackle Climate Change (um Programa Apolo global para atacar a mudança climática, em tradução livre) está disponível aqui. Os autores são David King, John Browne, Richard Layard, Gus O'Donnell, Martin Rees, Nicholas Stern e Adair Turner.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.