OPINIÃO
16/07/2014 16:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

Três coisas que aprendi com a Copa do Mundo

Independente do resultado desta Copa do Mundo no Brasil, três coisas me ficam como revelações, e elas são a suma das sumas, que agora - depois desta descarada abertura pseudomachadiana - divido com o leitor.

Reprodução

Você leu por aí: sobre o planejamento impecável, o toque de bola tranquilo e a simpatia estudada dos alemães; sobre o massacre do Mineirão e suas possíveis razões, que incluem safra ruim de jogadores, técnico ultrapassado e uma organização doente do futebol brasileiro; sobre a injusta eleição de Messi como melhor jogador do torneio, além de outras escolhas bizarras de um tal comitê técnico da FIFA; e a retomada da lenga-lenga sobre os problemas da Copa, de uma maneira um tanto oportunista em cima do fracasso do time brasileiro.

Mas não é isso o que resta da Copa. O que resta da Copa é saber se fomos mudados por ela, ou se a coisa foi só um lapso de euforia supercarnavalesca. Em outras palavras, a questão é descobrir se haverá legado - não o da infra-estrutura e do turismo e do dinheiro, mas o íntimo e pessoal de cada um - ou se a vida, a partir de agora, será uma grande quarta-feira de cinzas, como bem definiu um amigo. Mas eu creio que não, e o leitor deve concordar comigo; se se lembra bem das conversas antes da Copa, deve se recordar de posts irados, mau humor, pessimismo. E agora parece que redescobrimos o prazer de sermos brasileiros - descompromissados, hospitaleiros, bem humorados, escrachados, informais em níveis francamente excessivos. Como se só faltasse um sinal - o apito de um juiz, uma bola rolando - para mandarmos a sisudez às favas e sairmos da casca, resplandecentes como naquela piada que diz que o baiano que não nasce, estreia.

Pessoalmente, atingi meu fastígio boleiro e voltei de lá com o entendimento de que, independente do resultado desta Copa do Mundo no Brasil, três coisas me ficam como revelações, e elas são a suma das sumas, ou o resto dos restos, que agora - depois desta descarada abertura pseudomachadiana - divido com o leitor.

A humanidade precisa da Copa do Mundo para se manter viável

De tempos em tempos, acontecem eventos que parecem despertar o pior do ser humano: guerras, fome, crises econômicas extremas. Jovens espanhóis se tornam xenófobos irados quando não conseguem arrumar emprego, americanos amantes da liberdade se tornam torturadores inconsequentes, favelados famintos se tornam assassinos. Sou uma pessoa que não cede a generalizações idiotas, e sei que espanhóis, americanos, brasileiros, iraquianos - gente, enfim - existem por aí entre boas e más, e muitas vezes ambas dentro de uma mesma pessoa.

Por isso, é importante que haja momentos que puxem o bonde na direção contrária. A Copa do Mundo é isso: um dos raros eventos que despertam o que há de mais nobre em nós, e que portanto têm a vocação de nos renovar a fé no ser humano.

É lógico que há os idiotas em tempo integral, valentões de arquibancada e espíritos de porco que gostam de estragar a festa dos outros, mas o que vi foi a predominância de chilenos, colombianos e mexicanos festeiros; ingleses engraçados com seu senso de humor à la Monty Python; belgas, holandeses, alemães, americanos, franceses se divertindo com as oportunidades únicas que a vida boa no Brasil oferece (bebida na calçada! Praias! Rapaziada afeita a beijos e abraços sem compromisso!); brasileiros se esforçando ao máximo para fazer um bom papel de anfitrião - arriscando-se no inglês, ou levando o gringo pela mão até o destino pelo qual este perguntara, ou se esgoelando no hino nacional para mostrar que brasileiro sabe, sim, ser patriota. Vi até uns argentinos vencidos, sendo covardemente zoados e xingados no Metrô do Rio, logo após a Final, e reprimindo seus instintos para manter a compostura (um deles, de aparência ameçadora, aguentou os gritos de "chuuuuupa" que um rapaz repetia de dez em dez segundos, durante todo o longo trajeto de treze estações entre o Maracanã e Ipanema. Quando finalmente o brasileiro chato desceu na estação Cardeal Arcoverde - e aproveitou para, covardia das covardias, xingar o argentino de coisas bem feias -, o argentino, vermelho de ódio, limitou-se a xingar de volta e olhou tranquilamente para uma moça sentada mais perto e falou: "e eu vou perder a cabeça com uma mulher bonita dessa me olhando?"

Não se engane: tenho certeza de que aquele argentino, como todos nós, não deve ser flor que se cheire. Mas ele parece ter se imbuído de uma nobreza que só a Final da Copa do Mundo poderia lhe emprestar. (A moça sorriu de volta.)

Se a Copa não resolve os problemas do mundo, pelo menos ajuda o espírito a se preparar para os momentos difíceis.

Fazer um golaço é a coisa mais sublime da existência humana (e nem precisa ser numa Copa do Mundo)

Sentado na arquibancada do Maracanã, no meio da prorrogação da Final entre Alemanha e Argentina, houve um momento, um segundo, em que tive a sensação de que trocaria tudo na vida por fazer um gol como aquele do Götze - matando no peito, emendando um voleio perfeito no cantinho, caindo no chão, a poucos minutos do fim do jogo. Nem precisava ser em Copa do Mundo: poderia ser até na pelada de quinta-feira, que eu e meus amigos apelidamos cinicamente de Premier League. Uma vez a cada dois ou três anos, faço um grande jogo na Premier League, coroado com um gol de cabeça ou um chutaço de longe que vai parar na gaveta. A sensação é de ser invencível, irresistível à própria morte. Sonha-se com o golaço salvador por dias e tem-se a impressão de que ganhei algumas semanas a mais de vida. Sinceramente, acho que sei como o Götze se sentiu. Fazer um gol assim é a coisa mais sublime da existência humana.

Por um segundo, isso foi a verdade absoluta. Daí o que era sublime sublimou e simplesmente fiquei feliz e emocionado por estar ali.

A Copa do Mundo ajuda a entender a própria vida

Há algo de mágico em ciclos de quatro anos. Deve ser por isso que os Governos se renovam com eleições a cada quatro anos. Ou no esporte: quatro anos é um bom prazo para avaliar, em campeonatos mundiais e nos Jogos Olímpicos, quem é o melhor entre os melhores ou se a nova geração traz um novo patamar de performance.

Na nossa vida, não é diferente: a Copa do Mundo é um ótimo pretexto para checarmos onde estamos e onde estávamos há quatro ou oito ou doze anos - e suas circunstâncias estranhamente acabam refletindo ou sublinhando o momento que vivemos.

De fato, observo que cada Copa foi única para mim, porque eu era muito diferente em cada uma delas: o moleque que mal entendia o que acontecia no campo em 1982; um ginasial obcecado por futebol em 1986; aborrescente cínico e distante em 1990; eufórico e vencedor e se achando um gênio (como todo espertalhão de 18 anos) em 1994; universitário confuso em 1998; recém-formado, com namorada firme e salário no bolso, em 2002; casado e entronado no sofá novo em 2006; numa encruzilhada profissional em 2010.

E assim chego a 2014, finalmente me recompensando por uma vida de devoção ao futebol: vendo a Copa do Mundo ao vivo. Foram oito jogos no estádio, desde a abertura em São Paulo, passando por Fortaleza e terminando na final, no Rio de Janeiro. Vi Brasil, Uruguai, Inglaterra, Holanda, Argentina, Alemanha. Neymar, Suárez, Rooney, Gerrard, Robben, Van Persie, Messi, Di Maria, Schweinsteiger e aquele time incrível que saiu campeão. Pude compartilhar isso com minha esposa e sócia 50/50 na vida, com meu pai - a quem continuo a dever muitas coisas - e com grandes amigos. Uma diversão sem fim. Aquilo que os americanos chamam de quality time. Passada a euforia, não me vejo mais sábio ou conhecedor de qualquer coisa. Pelo contrário: considerando o jeito com que o Brasil perdeu, e o jeito com que a Alemanha venceu, vi que nada sei de futebol ou da vida. Vi que acidentes terríveis acontecem, mas acontecem mais onde há negligência - e menos onde há planejamento. Vi que ter muita vontade e estar cheio de boas intenções não garante nada. E entendi que o pior jeito de evitar uma mudança é fincar teimosamente os pés no passado (por exemplo, combinando os currículos vencedores de Felipão e Parreira para ganhar a Copa na marra).

Se levo algo da Copa do Mundo de 2014, é a certeza de que a vida pede por mudanças, e tão inútil quanto evitá-las é é respirar fundo e pular no precipício (algo parecido com o David Luiz partindo tresloucado para o ataque, deixando buracos indesculpáveis lá atrás). É preciso coragem para se livrar das velhas amarras e dar o primeiro passo, depois o segundo. Valeu para o futebol alemão há doze anos, vale para o futebol brasileiro agora, pode valer para uma escolha profissional ou para decidir se se casa ou se compra um guarda-chuva.

É cedo para avaliar onde estou hoje. Mas suspeito que daqui a quatro anos, lá da Rússia, conseguirei olhar para trás e dizer uma coisa ou duas sobre a vida em 2014 e como a Copa no Brasil sublinhou um momento especial dela.

São Paulo, julho de 2014. Que baita Copa do Mundo!

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS COPA NO BRASIL POST:

Galeria de Fotos Memes Argentina vice Veja Fotos