OPINIÃO
31/05/2014 12:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Minha Copa inesquecível: Espanha, 1982 (ou Fragmentos de uma tragédia)

Quando busco na memória minhas lembranças mais antigas, o que enxergo são flashs. Mas da tarde de 5 de julho de 1982 lembro de cada minuto, de cada palavra, das roupas que meus pais usavam e das cambalhotas que dei no corredor após cada gol do Brasil.

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Quando busco na memória minhas lembranças mais antigas, o que enxergo são flashs: eu chegando na escola pela primeira vez no turno da manhã; o dia em que minha irmã nasceu; a Globo exibindo Star Wars na madrugada do reveillón de 1981; e não muito mais que isso. Mas da tarde de 5 de julho de 1982 lembro de cada minuto, de cada palavra, das roupas que meus pais usavam e das cambalhotas que dei no corredor após cada gol do Brasil. Lembro-me claramente de odiar um tal de Paolo Rossi, que teimava em fazer gol atrás de gol e estragar a minha vida. Lembro-me de chorar desconsolado - e daí já não sei se meu pai também chorava ou se minha mãe me explicava algo sobre a vida. Simplesmente o mundo acabou quando o Brasil perdeu para a Itália por 3 a 2 em Barcelona.

Fora isso, posso afirmar que minha infância e minha adolescência foram perfeitamente saudáveis e felizes. Basicamente, a vida era boa e tudo dava certo naqueles anos de formação - exceto pela constatação precoce de que o mundo era um lugar horrível e injusto, onde Zico e Sócrates não ganhavam a Copa do Mundo. Se tenho algum trauma de infância, é esse que carrego comigo há 32 anos e que remonto, agora, para os leitores entenderem o que foi a Tragédia do Sarriá.

O oba-oba

Às vésperas da Copa de 1982, na Espanha, as bolsas de apostas britânicas apontavam a Seleção Brasileira como grande favorita, com uma cotação de dois pra um. A Argentina e a Alemanha apareciam depois, a três pra um. Cá no Brasil, o jornalista João Saldanha, um dos olhares mais críticos sobre a preparação do time, evitava o clima de "já ganhou": "A presepada brasileira, a palhaçada que vem sendo feita em torno da Seleção, tudo isso serve para desarmar o espírito de competição da equipe", escreveu em sua coluna no Jornal do Brasil. Mas essa não era a voz dominante; quem realmente encarnou o espírito do brasileiro naqueles meses que antecediam a Copa era o Pacheco, um personagem criado por publicitários para os anúncios da Gillette. Pacheco, nas histórias em quadrinhos que fechavam as últimas páginas das revistas, era um torcedor a toda prova, dono de um ufanismo constrangedor, nutrindo a certeza de que a Copa do Mundo já tinha dono - sua comunhão com a Seleção era absoluta.

E assim se comportava o país inteiro; poucas vezes se viram tantas camisas amarelas, ruas pintadas, tanta confiança e euforia. Tal clima combinava com o ambiente de abertura política: dentro de poucos meses, aconteceriam as primeiras grandes eleições diretas desde o início do regime militar, que elegeriam governadores, senadores, deputados federais e estaduais e prefeitos em algumas cidades. A canção mais executada nas rádios, nas palavras de Gonzaguinha, reverberava a euforia: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz / Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz / Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será / Mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita e é bonita."

O futebol-arte

Em campo, o time comandado por Telê correspondeu às expectativas: nos três jogos da primeira fase, uma geração genial de craques liderados por Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates (o "quadrado mágico" original) impôs vitórias inesquecíveis sobre União Soviética, Escócia e Nova Zelândia. Mais importantes do que as vitórias foram os gols, os passes, as jogadas individuais e coletivas que fizeram daquele time o representante definitivo do chamado "futebol-arte". Ao contrário da Seleção campeã de 1994, que tinha em Romário seu grande goleador, o time de 82 dava espaço para todos brilharem: ao final da participação brasileira, marcaram gols Zico (4), Falcão (3), Sócrates (2), Éder (2), Serginho (2), Junior (1) e Oscar (1) -- um total de 15 gols em 5 jogos, enquanto o time campeão de Romário ficou em 11 gols em 7 jogos.

A grande exibição da Seleção canarinho foi, certamente, o 3 a 1 em cima da Argentina. Apesar da grande expectativa em torno de Diego Maradona, então um jovem craque recém-contratado pelo Barcelona e festejado como melhor do mundo, o que se viu foi um baile do Brasil, em uma tarde inspirada de Falcão e Zico (este, autor do primeiro gol e dos passes que originaram os outros dois). Os argentinos perderam a compostura e Maradona, após agredir um jogador brasileiro, foi expulso e vaiado pelo público da mesma Barcelona que o acolhia. Durante a transmissão exclusiva da Rede Globo, o narrador Luciano do Valle e o comentarista Reginaldo Leme ufanavam-se e saudavam o "futebol lindo, lindo do Brasil". Ao final da partida, os torcedores gritavam "Olé!" a cada troca de passes e tinham a certeza de que testemunhavam a história.

Falcão, Junior, Zico, Sócrates e torcida comemoram o primeiro gol contra a Itália. Crédito: J.B. Scalco.

A tragédia

Três dias depois, até a coluna de João Saldanha se rendia ao encanto: "De qualquer maneira estou satisfeito e feliz. O futebol-arte se impôs e creio que definitivamente (...). Agora, tudo é lucro. Já fizemos a festa mais bonita." Mal sabia Saldanha o quanto suas palavras eram apropriadas. Porque naquele dia, 5 de julho de 1982, a Seleção Brasileira sofreria uma das maiores frustrações de sua história vencedora, ao perder para a Itália por 3 a 2.

A história do jogo é conhecida: após uma primeira fase desastrosa, quando chegou a empatar com Camarões, a Itália venceu o melhor time da Copa, com três gols de Paolo Rossi, um atacante nada especial e que acabava de retornar ao futebol após ter sido suspenso por ter se metido num escândalo que envolvia loteria esportiva e jogos arranjados. Depois disso, a Azzurra cresceu na competição e foi campeã.

Mas, para o Brasil, a Copa terminara naquela tarde que ficou conhecida como a Tragédia de Sarriá. Ainda sob o impacto da derrota, o então editor da revista Placar, Carlos Maranhão, escreveu em sua matéria para a revista: "Escrevi com lágrimas nos olhos." Seu chefe na ocasião, Juca Kfouri, manteve a serenidade enquanto dava orientações à sua equipe. Mas logo depois, ainda no estádio, chorou ao microfone da Rádio Globo.

No dia seguinte, o Jornal da Tarde não trazia manchetes ou chamadas em sua capa -- apenas uma única e enorme foto, mostrando um garoto de onze anos chorando. A imagem sintetizou o estado de choque geral. E inaugurou uma era de pragmatismo que deu por enterrado o futebol-arte, rotulando o time de Telê Santana como "perdedor" e condenando o episódio a uma simples e acachapante derrota.

A mais lúcida e feliz análise da Tragédia de Sarriá, no entanto, ficou registrada pela pena de Carlos Drummond de Andrade, no belo artigo "Perder, ganhar, viver", publicado no Jornal do Brasil do dia seguinte ao do jogo:

"Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; (...) vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...

Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar do mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo."

A justiça

O fato é que a história tem feito justiça ao Brasil de 82, conferindo ao seu técnico a condição de grande ideólogo do futebol-arte e, aos seus craques, um honroso lugar de destaque na memória de quem gosta de futebol. O cineasta sérvio Emir Kusturica, vencedor de duas Palmas de Ouro em Cannes, afirmou: "uma das maiores experiências estéticas que eu já vivi foi a seleção brasileira de 1982". Em 2007, o time de Telê foi eleito pela revista inglesa World Soccer um dos dez maiores times de todos os tempos. E, ainda hoje, inspira e provoca tantos suspiros -- de admiração, de tristeza, de saudades -- quanto naquela tarde em Barcelona, quando Carlos Maranhão e Marcelo Rezende fechavam sua matéria de capa para a Placar:

"Que nunca mais, então, jogue-se tão somente em função de um zero a zero; que se abandonem as retrancas, que se abomine a covardia e que se pense em futebol como uma manifestação da arte brasileira -- mesmo que o preço de se acreditar seja dilacerante como o de 5 de julho."

Para aqueles que ainda tremem ao ouvir o nome de Paolo Rossi, ou que ainda sonham com o gol de cabeça de Oscar que não aconteceu, no último minuto da partida, resta o conforto a que Juca Kfouri se apega: "Fico feliz em saber que o palco daquela partida, o Estádio de Sarriá, não existe mais, implodido que foi em 1997." Da tragédia, só restaram os fragmentos que compõem sua lembrança.

E é por isso tudo que a minha Copa do Mundo inesquecível é a de 1982. True story.

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