OPINIÃO
04/07/2014 10:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Cinco descobertas perturbadoras da Copa no Brasil

Mas, mesmo com tudo dando tão certo, a vida sempre nos traz umas surpresinhas desagradáveis. E esta Copa de 2014 não está sendo diferente. Aqui vão as cinco descobertas perturbadoras da Copa no Brasil.

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Faltando só meia dúzia de jogos para seu fim, a Copa já começa a deixar saudades. Como vai ser a vida depois da Copa?, perguntamos uns aos outros, dependentes que somos de dois jogos por dia, seguidos de intermináveis mesas-redondas.

Mas, mesmo com tudo dando tão certo - goleadas, prorrogações emocionantes, todos os líderes dos grupos classificados para as quartas -, a vida sempre nos traz umas surpresinhas desagradáveis. E esta Copa de 2014 não está sendo diferente. Aqui vão as cinco descobertas perturbadoras da Copa no Brasil:

1. O crítico de torcida

Depois do comentarista de arbitragem (uma insuportável inovação dos anos 90), chegou a vez do crítico de torcida. É um tal de avaliarem a performance da torcida, como se esta fosse paga pelos jogadores para fazer o espetáculo, e não o contrário. Daqui a pouco as emissoras terão, junto aos comentaristas de bola e de arbitragem, sociólogos pontificando sobre a adequação do perfil sócio-econômico da torcida, e depois terão carnavalescos, Carlinhos Brown e congêneres analisando o nível de engajamento da torcida, a qualidade dos gritos de guerra e coreografias, com infográfico animado esmiuçando a ôla no intervalo. Que a Terra lhes seja leve!

2. Torcedores argentinos são realmente insuportáveis

Na última terça-feira, fui com um bando de amigos à Arena Corinthians para assistir ao jogo entre Argentina e Suiça, pelas oitavas-de-final. Nos nossos corações, muita paz e um interesse genuíno em ver craques como Messi e Di Maria ao vivo - e a prova disso é que fomos para o jogo com camisas da Argentina!

Durante o jogo, a dura constatação: os torcedores argentinos são realmente insuportáveis. Gastam todo seu tempo xingando brasileiros em geral e Pelé em particular, ao invés de louvar Messi e seus parceiros. Quebram tudo, provocam e se mostram dispostos a arrumar briga por qualquer motivo. Após o gol salvador de Di Maria, o mala à minha frente simplesmente deu as costas para o campo e se dedicou a exibir suas partes íntimas e murchas para nós (as pessoas imediatamente atingidas pela visão eram a esposa de um amigo e meu pai, de 66 anos). Mantivemos a nobreza e aplaudimos o gol dos caras.

Mas, como dizem os americanos: enough is enough. Se esses caras chegarem à semi-final, estaremos lá devidamente trajados de verde e amarelo, e secaremos com toda nossa maldade o escrete argentino. E voltarei rouco de tanto cantar: "mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, mil gols: só Pelé, só Pelé - Maradona cheirador."

3. Ainda não aprendemos a não misturar política e futebol

Relembrando que essa pessoa existe - e deve estar com essa mesma carinha agora!

Nêgo torce contra porque acha que, se o time de Felipão ganhar a Copa, a Dilma se reelege. Outro finge não se interessar pelo torneio, porque tem outras prioridades (imagino que esteja construindo um hospital ou dando aulas de alfabetização para crianças carentes). Há ainda quem torça o nariz e afirme "não ser representado por essa gente" - e essa gente pode ser o Galvão, a "grande mídia" ou a chamada "elite branca" que ocupa a arquibancada. Ora, é só um jogo de bola, minha gente. E isso basta.

(Como diz um amigo meu que compartilha da condição de corinthiano doente, "eu sou é elite preta-e-branca!")

4. Não tem mais bobo no futebol (e os que sobraram estão no Brasil)

O lado B de curtirmos jogaços com Argélia e Irã engrossando contra Alemanha e Argentina, ou a Costa Rica deixando três campeões mundiais para trás, é percebermos como será duro o retorno aos estádios para ver o Brasileirão, a Copa do Brasil, os estaduais...

O futebol que se joga na Copa do Mundo é, de fato, outro esporte comparado ao praticado pelos perebas que infestam o futebol brasileiro. Foi-se o tempo em que a Copa era palco para nossos habilidosos jogadores entortarem europeus desavisados. Vejam aquele ponta Shaqiri, da Suiça, que pedala, dá elástico e tudo mais. Todo time, por mais limitado que seja, tem um desses.

Mas o Corinthians não tem. Vamos de Romarinho mesmo. E me solidarizo com você, torcedor dos outros times. A vida, para quem gosta de futebol, será dura depois de 13 de julho.

5. A FIFA, afinal, sabe fazer seu trabalho

Eleita vilã da vez, a FIFA simboliza tudo que há de imperialismo sanguessuga para a turma que adora uma manifestação. Ninguém mais liga para o FMI; agora a moda é mandar a FIFA pra casa.

Ingenuidade à parte, o fato é que a tal da FIFA sabe muito bem fazer seu trabalho: organizar campeonatos de futebol. A configuração padronizada dos estádios é uma benção que resolve a cronicamente muvucada entrada da torcida. A atribuição aleatória dos assentos impõe a mistura de torcidas e reduz as chances de brigas (em que pese o potencial explosivo de uma final entre Brasil e Argentina, algo que, como já disse, torço muito para não acontecer). O envelopamento com lonas azuis e a tipografia da Copa do Mundo deixa os estádios lindos, e diferentes dos cinzentos templos que frequentamos toda semana. Tudo acontece na hora, os jogos são bacanas, as Fan Fests são bacanas, os patrocinadores fazem a festa e têm uma exposição que faz justiça à grana preta que investiram no evento (ou não é incrível como pessoas vasculham os lixos e literalmente brigam por um copo da Brahma ou da Coca-Cola?). Enfim, uma máquina de fazer dinheiro, sim, mas de uma maneira cuidadosamente estudada para aumentar a sensação do espectador - seja o de corpo presente ou o que acompanha tudo pela televisão - de que está testemunhando algo especial, memorável.

Ao fim da Copa, a FIFA atenderá aos pedidos e puxará seu carro cheio de grana daqui. Espero que saibamos encontrar um vilão mais merecedor da marcação cerrada e dos xingamentos. Quem sabe aquele deputado ou senador ou governador ou presidente em quem você votou na última eleição?

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