OPINIÃO
21/06/2014 13:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

A volta da Torcida da Curvinha

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O que significa esta Copa do Mundo para você? Se você superar a óbvia expectativa quanto ao resultado (esteja você na torcida pelo triunfo ou pelo fracasso do Brasil) e as especulações sobre a Copa como símbolo do momento brasileiro - o "Brasil que dá certo" para uns, o país do "quanto pior, melhor" para outros -, acabará encontrando seus próprios motivos, o seu sonho de Copa, aquela graça que só você encontra num jogo de bola. Porque esta é a verdadeira natureza do futebol: o jogo é um só, mas o seu significado é pessoal e intransferível - que o digam milhões de torcedores fanáticos que tatuam o nome do seu primeiro amor (um time de futebol, claro) como a Débora Secco faz a cada novo namorado. Pelo menos os fanáticos não precisam apagar a tattoo, pois, como se sabe, vira-casaca não existe.

Para mim, a Copa de 2014 representa muita coisa: a realização de um sonho de infância (assistir a um jogo do Brasil numa Copa do Mundo), o eventual acerto de contas com meu primeiro e único trauma (a derrota da Seleção em 1982, a primeira de inúmeras obsessões que fico remoendo em moto-contínuo). Acima de tudo, a Copa no Brasil me oferece a chance de retribuir o presente mais delicioso que meu pai me deu: o amor pelo futebol.

A Torcida da Curvinha

A história começa há mais ou menos trinta anos atrás. Não sei se foi a sucessão de camisas do Corinthians e bolas que começavam a ser chutadas com alguma consciência, ou se foi o simpático time de super-heróis em preto-e-branco como Sócrates e Casagrande, ou se foi durante a memorável Copa do Mundo de 1982. Mas sei que a coisa pegou mesmo numa tarde de sábado em 1984, na primeira vez em que fui levado a um estádio de futebol. Foi um empate de 2 a 2 entre Corinthians e Botafogo de Ribeirão Preto. Mas é claro que isso pouco importa. O que ficou foi a grandiosidade do Pacaembu, a quantidade de gente diferente e engraçada, a liberdade de gritar e xingar e rir e chorar, a amostra grátis do amendoim torrado, a eventual barra de chocolate que era muito mais gostosa de ser comida enquanto seu time joga ali na sua frente. A partir daquele dia, inúmeras noites de quarta-feira foram passadas no Pacaembu, geralmente sob frio e garoa, invariavelmente gerando assunto e inveja no dia seguinte, na escola.

Éramos, eu e meu pai e um bando de gente que sempre ocupava as cadeiras de ripas corridas - algo que ficava num meio termo entre o duro cimentão das arquibancadas e o luxo inalcançável das numeradas -, a Torcida da Curvinha.

Aos poucos, percebi que aquele setor das arquibancadas do Pacaembu era habitado por pais (entediados) e filhos (excitadíssimos), colegas de trabalho, idosos que lembravam os tempos de Luizinho e Baltazar. Gente normal, que parecia se divertir com as limitações do elenco corinthiano. Que não se cansava de negociar porções mais generosas de amendoim com os ambulantes. Moleques que vibravam a cada novo palavrão aprendido. Uma turma que achava mais graça na celebração daquele evento do que no jogo em si. Aos poucos, uma certa unidade foi encontrada e adotamos o epíteto. Marcávamos encontros. As crianças podiam ir ao banheiro ou à lanchonete sozinhas. Aplaudíamos as poucas garotas que se aventuravam nos estádios durante a década de 80. Não sacudíamos bandeiras, nunca brigamos, pouco conversamos. Se nos encontrássemos na rua, não haveria abraços ou cumprimentos. Talvez nem nos reconhecêssemos. Mas, juntos, encontramos nosso canto no estádio e, quem sabe, na vida.

E tudo isso graças a Sérgio Garrido, meu pai, ideólogo da Torcida da Curvinha, algo infelizmente desconhecido pela gente boa que frequentou aquele setor até o Corinthians finalmente levantar acampamento da sua casa histórica.

Casa nova

Pois quis o destino que o novo estádio do Corinthians abrigasse, logo em sua abertura, seis jogos da Copa do Mundo de 2014. Em mais uma coincidência feliz, isso aconteceu num momento em que tive condições financeiras de comprar ingressos e vi a oportunidade de levar meu pai nos jogos comigo. Ingressos na mão, aquela sensação boa de dar a notícia, tirar fotos, planejar a aventura.

No caminho do jogo, um misto de nervosismo juvenil e euforia. Trocávamos reminiscências: ele me contou como, em 1962, um jornaleiro munido de rádio a pilha ia anotando numa lousa os gols que iam saindo durante os jogos do Brasil na Copa do Chile. Era por esse quadro que ele e seus amigos se informavam dos resultados dos jogos.

Chegando ao estádio, a sensação era de visita à Fantástica Fábrica de Chocolates: para quem cresceu sofrendo poucas e boas para comprar um ingresso ou conseguir simplesmente entrar e se sentar no concreto molhado do Pacaembu ou do Morumbi, é de um luxo quase obsceno subir as escadarias de mármore da Arena Corinthians, e passear pelas escadas rolantes e elevadores que conduzem a um lounge (um lounge!) onde cerveja e caipirinha são servidas a rodo, e há garçons servindo quitutes enquanto víamos o campo, lá embaixo, recebendo uma última regada antes do jogo. (Podem ironizar e dizer que é coisa de "elite branca paulista" - algo de que definitivamente nunca fizemos parte -, de gente deslumbrada, mas para mim é só a justa recompensa por uma vida de devoção ao futebol, o amador e o profissional, jogado na rua e nos campos de society com os amigos de trabalho, de clube ou de seleções.)

Cerca de uma hora antes da partida, descemos os dez andares do incrível estádio até o portão de entrada para nossos assentos. Foi fácil encontrar as cadeiras numeradas - por mais que nossa cultura futebolístico-anárquica seja avessa a lugares marcados - e, poucos minutos depois, encontramos nosso lugar: bem próximo ao vértice de onde se cobram os escanteios. Um amigo de velhas batalhas no Pacaembu me liga, me diz onde está e pergunta onde estou, e eu respondo: "do outro lado, bem na curvinha". E ele: "é claro."

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Os dois fundadores da Torcida da Curvinha conhecem seu novo espaço

E o primeiro jogo da nossa saga foi uma beleza: uruguaios fazendo a festa contra ingleses desenganados. Um festival de craques, com grandes exibições de Suarez, Cavani e Rooney. Tudo muito bonito e chique como manda a FIFA e como esperamos todos nós. Mas percebi, ao fim da partida, que a minha sensação era a mesma de sempre: a curtição de ver um jogo de futebol ao lado do meu pai. Não sei o que ele pensa - afinal, macho que é macho não discute essas coisas -, mas não vejo consumada a tal retribuição que planejei. Porque, se o campo do Itaquerão fosse um espelho, eu veria dois homens com décadas de estrada e bola e joelhos baleados, e uma Copa é uma Copa é uma Copa, sim, mas no fundo não é aquela Copa que você viveu na sua infância. Da mesma maneira que ela não me mudará o resultado daquele jogo contra a Itália em 1982, não restituirá em meu pai o encanto do jornaleiro anotando o gol do Amarildo contra a Espanha no quadro negro. Não somos mais pré-adolescentes, enfim.

Não que a missão tenha perdido o seu sentido: não consigo pensar em dinheiro mais bem gasto do que passando tempo com meu pai e meus amigos vendo o melhor futebol do mundo. Pra ficar numa expressão cara ao meu pai naquelas noites de quarta-feira no estádio, é do cacete.

Mas a verdadeira retribuição não está em Itaquera, 2014. A verdadeira retribuição acontecerá quando eu apresentar a nova Curvinha da Arena Corinthians para novos moleques. É como quando alguém lhe recomenda um ótimo livro: o melhor a fazer não é devolver o livro para a pessoa, ou tentar indicar outro livro para ela, mas sim passar a preciosa dica para a frente. Que outros descubram o mesmo prazer. Pretendo fazer isso muitas vezes, com muitos livros, mas também oferecendo meus préstimos fanático-futebolísticos a meninos e meninas, filhos meus, da minha irmã e cunhados e amigos. Tomara que alguns encontrem suas versões alternativas de comunidade e lar como eu encontrei.

A aventura continua. Holanda, Chile, Bélgica e Coreia do Sul nos aguardam durante os próximos cinco dias.

PS: Ou talvez não seja nada disso; talvez o episódio da Copa de 1962 tenha saltado da memória de meu pai justamente porque ele ainda seja o moleque de doze anos. Talvez eu também seja. Quem sabe? Temos mais cinco jogos e a vida toda para descobrir.

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