OPINIÃO
30/06/2014 09:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

A verdadeira seleção da Copa - e o pequeno manifesto de um torcedor doente

Nas arquibancadas, o campeão somos nós. Brasileiros, gringos, torcedores de clube, curiosos egressos da "elite branca". Não há chato que arrefeça nosso tesão por um bom jogo de bola.

Na última sexta-feira (27/06) modorrenta, sem futebol pela primeira vez desde o início da Copa do Mundo, só nos restou curar a bebedeira e nos prepararmos para mais duas semanas de overdose de bola.

É claro que resta espaço para especulações e papo de boteco. Pitacos sobre como a Seleção deve mudar para a próxima fase, discussões sobre as verdadeiras chances de times cheios de hype, como Colômbia, Chile e Bélgica, mais a chance única de lamentar ou festejar as derrocadas de Cristiano Ronaldo, Suarez, Espanha, Itália. A Fifa também se entrega a esse delicioso exercício de futilidade e divulgou sua "seleção da primeira fase". Não a reproduzirei neste espaço por respeito ao leitor. Uma seleção da Copa sem Messi, Neymar e Müller só pode ser piada.

Mas aproveito para propor aqui a verdadeira seleção da primeira fase da Copa, escolhida por méritos esportivos, critérios um tanto subjetivos e muito pessoais. Conta, aqui, o cara que decidiu um jogo difícil, ou que se destacou por roubar a cena de um craque - gente que fez a Copa do Mundo ser notícia.

Confira aqui a minha seleção da primeira fase da Copa, e dê sua opinião!

Ochoa (México)

O goleiro do México, além de ser o sósia do sósia do Ted, de How I Met Your Mother (confira aqui), parou um Neymar inspirado e letal, primeiro numa cabeçada perfeita, depois num chute a queima-roupa. Terminou sua jornada defendendo uma cabeçada de Thiago Silva de dentro da pequena área. No mais, é, ao lado do belga Thibaut Courtois - o celebrado "melhor goleiro do mundo" -, o goleiro menos vazado da Copa, tendo tomado apenas um gol.

David Luiz (Brasil)

Ok, aqui a Fifa acertou. A defesa brasileira foi muito bem na primeira fase da Copa, mas David Luiz tem sido quase perfeito. Combate em cima e embaixo, sai jogando com classe e seriedade. É um monstro nas antecipações. Já Thiago Silva vacilou na cobertura de Daniel Alves no jogo contra a Croácia e prejudica a saída de bola, rifando-a sem dó para o ataque.

Diego Godin (Uruguai)

O capitão uruguaio vem de ótima temporada no Atlético de Madrid, tendo feito o gol do título espanhol (contra o Barcelona) e outro gol na final da Champions League (contra o Real Madrid). No Brasil, manteve a fase e fez o gol da classificação heroica da Celeste contra a Itália. Também jogou bem contra a Inglaterra. Fica de capitão do time.

Daley Blind (Holanda)

Tive a oportunidade de vê-lo ao vivo contra o Chile, onde foi exigido na defesa - e fez um bom trabalho. Ganhou pontos adicionais, uma vez que já tinha promovido um festival de lançamentos e cruzamentos precisos na sua estreia - um massacre holandês pra cima da Espanha.

Luiz Gustavo (Brasil)

Abandonado que está no meio-de-campo, protege sozinho a defesa brasileira. Desafoga a saída de bola e deve ter errado um ou dois passes, no máximo, durante os três primeiros jogos. Jogou por ele e por Paulinho, que deve sair do time.

Pirlo (Itália)

Não há nem o que dizer. É só ver Pirlo tocando a bola, dando dinâmica ao time, lançando e chutando aquela falta surreal que explodiu na trave durante a estreia, levando o goleiro inglês à loucura e descontando no gandula (ver aqui). É uma pena que tenha se despedido das Copas do Mundo de maneira tão melancólica.

Benzema (França)

Cheio de atitude, levou ao conhecimento do mundo o fato de que A Marselhesa, canção tão bonita e tão arrepiante quando cantada no estádio, traz um verso infame, que conclama os cidadãos franceses a derramar "sangue impuro" no seu solo. De quebra, carrega o time nas costas e fez três gols, além de outros dois indevidamente tungados pelos juizões.

Thomas Müller (Alemanha)

Segue jogando seu futebolzinho de snooker: de vez em quando vai lá e dá uma estocada certeira no cantinho. Três gols até aqui e a sensação de que o recorde de gols de Ronaldo será superado não por um, mas muito em breve por dois alemães.

Neymar (Brasil)

É muita responsa para a estrela solitária da Seleção, mas o moleque está correspondendo. Entrou na Copa do Mundo arrebentando, chamando todas as jogadas para si e fazendo dois gols por jogo (infelizmente, os dois contra o México não se concretizaram por conta do sacana do Ochoa). Sério candidato a craque da Copa.

Messi (Argentina)

Sem jogar bem, é o artilheiro da Copa, empatado com Neymar. E cada gol veio carregado de importância: os dois primeiros foram golzinhos salvadores que deram vitórias à Argentina em jogos difíceis. Os dois últimos garantiram a liderança do grupo e já apagaram de vez o mito segundo o qual Messi joga mal em Copas do Mundo.

Robben (Holanda)

É o craque da Copa até agora. Suas arrancadas são nada menos do que incontroláveis. Corre feito um velocista de 100 metros rasos (só que com a bola colada aos pés), corta para dentro e chuta: gol. Não há nada que eu ou você, pobres mortais, possamos fazer para contê-lo.

Como notaram, falta lateral-direito nesse time. É proposital. Fica como protesto à falta de atuações destacadas de jogadores dessa posição, em geral, e em particular pela horrorosa campanha de Daniel Alves na Seleção. Pra quem cresceu vendo Leandro e Jorginho (e ouviu lendas de Djalma Santos e Carlos Alberto), é duro aguentar os não-cruzamentos de Daniel Alves, seus "botes" fora de hora e o avenidão que ele deixa para o deleite dos atacantes adversários.

Além desses escolhidos, merecem menção honrosa nesta primeira fase: Rafa Marquez (capitão do México que ainda bate uma bola redondíssima), Van Persie (com dois golaços contra a Espanha), Suarez (que acabou com a Inglaterra, mas depois se suicidou na Copa, ao morder o zagueiro italiano), o meio-de-campo alemão inteirinho (que cozinha qualquer jogo como se estivesse num coletivo preguiçoso), Rodriguez e Cuadrado da Colômbia (meias infernais). E aquele técnico boa praça da Costa Rica, a grande surpresa da Copa até aqui. E é corinthiano ainda, o camarada.

Pequeno manifesto de um torcedor doente

Nas arquibancadas, o campeão somos nós. Brasileiros, gringos, torcedores de clube, curiosos egressos da "elite branca". Convidados de empresas ou sortudos contemplados pelo site doido da Fifa. Gente que se virou para descolar ingressos e curtir a Copa do Mundo ao vivo. Quem deixou para última hora está fazendo a festa dos cambistas, mas vai aproveitar do mesmo jeito. Quem sabe que o nome do jogo é pla-ne-ja-men-to, esses se deram bem, e estão degustando a Copa em sua plenitude.

Confraternizando com os Cavaleiros Cruzados ingleses

É o caso da minha turma, com quem dividi as aventuras e emoções em quatro partidas da primeira fase (e mais quatro vêm pela frente). A esta altura, podemos afirmar que somos os "Fantasmas da Ópera do Itaquerão", conhecedores que somos de cada canto do novo estádio do Corinthians. Já conhecemos as entradas pelos lado leste e oeste, tendo chegado por duas estações de metrô e uma de trem; frequentamos as arquibancadas provisórias e os assentos mais bacanudos; entramos em camarotes chiques para os quais fomos convidados - e também em dois outros onde definitivamente não éramos esperados. Subimos cada degrau de mármore, testamos o elevador que vai até o nono andar, subimos e descemos repetidamente rampas internas porque só o jogo não nos bastava. Houve até uns camaradas que, imaginem só, aproveitaram as luzes apagadas e a saída dos inúmeros voluntários para invadir o campo e bater um escanteio imaginário (aviso que essa traquinagem já não foi possível nos jogos seguintes, quando tentaram o repeteco).

Pode parecer idiota - e certamente não é nobre bater no peito para contar como um bando de marmanjos se dedica a entrar de penetra em recintos de acesso restrito -, mas o ponto é que a festa é boa demais para acabar. Logo, nossa missão é chutar o balde e fazer o que faríamos se tivéssemos quinze anos e as oportunidades que nos eram negadas naquela época. Deve ser por isso que a Vila Madalena, aqui em São Paulo, saiu de controle e virou um grande carnaval à Salvador. Assim como é compreensível que Manaus já esteja chorando de saudades da sua brilhante participação na Copa do Mundo. A euforia de uma Copa do Mundo é imensa, irrefreável; não há black bloc que impeça nosso bonde, não há chato que arrefeça nosso tesão por um bom jogo de bola. Se você está nessa mesma vibração, não importa sua nacionalidade ou condição social: somos o povo, e o povo não é bobo; sabe que tem hora de pensar na vida e tem hora de aproveitá-la como se não houvesse amanhã.

Os chatos surgem e morrem, e os seguidores deles não prestam e desaparecem. mas nós continuamos sempre. Não conseguem acabar conosco. Não podem nos esmagar. Vamos continuar sempre, porque somos o povo.

(Citar Steinbeck talvez já seja demais, mas não importa. Temos mais duas semanas de futebol. A Copa de 2014 já é histórica. Estamos no caminho para torná-la lendária.)

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