OPINIÃO
27/01/2014 21:31 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Uma jornada pessoal em busca de outra medida

O que é o sucesso? A resposta pode variar bastante em cada fase de nossas vidas. Pouco antes da virada do século, no auge da bolha da internet, minha carreira ia de vento em popa. Eu dirigia a area de novas mídias de um importante instituto cultural, minha produtora digital estava cheia de clientes e recebi convite para trabalhar em uma reluzente empresa pontocom sediada em Nova York.

O ano era 1998. Como também atuava como jornalista especializado em tecnologia e era early adopter de tudo quanto é cacareco eletrônico, eu já sofria naquela época as mazelas de um estilo da vida que, anos depois, tomaria conta do mundo. Tinha um celular com acesso à internet, vivia hiperconectado, trabalhava 18 horas por dia, tinha pouca atividade física e uma dieta repleta de salgadinhos, doces e fast food.

No meio de toda minha ansiedade eu estava convicto de que a mudança para NY seria a minha corrida do ouro, um mergulho no olho do furacão da internet. Mas a vida tem suas ironias: minha mulher Gisela, que estava grávida pela segunda vez, fechou questão contra a ideia de nos mudarmos para os EUA.

Minha frustração foi enorme. Para enfrentá-la resolvi chacoalhar as coisas. Não seria possível aproveitar o lado bom do estilo de vida hiperconectado? Como já praticava o home working regularmente, fiz uma proposta maluca para Gisela: e se nos mudássemos de São Paulo para viver no litoral?

O sim dela foi instantâneo. E no ano seguinte, quando nossa pequena Lorena completou seis meses de vida, nos mudamos de mala e cuia para Ilhabela, no litoral norte paulista. A ideia de colocar a qualidade de vida da família acima e à frente dos meus compromissos profissionais e da possibilidade de ganhar mais dinheiro pareceu, para muitos dos meus amigos, uma loucura.

Viver perto da natureza e conseguir trabalhar à distância? Uma experiência teoricamente interessante, mas provavelmente fadada ao fracasso. Fazer o que em Ilhabela? Ganhar a vida como? Foi o que boa parte dos amigos pensou, mas somente alguns arriscaram me dizer.

E os anos foram se passando. Recebi novos convites de trabalho, voltei a habitar redações e a trabalhar para grandes empresas de comunicação. Mas sempre mantendo, minimamente, um dia de sagrado home working. Assim, na pior das hipóteses, conseguia ir para a Ilha na quinta-feira à noite, e voltar para São Paulo na segunda-feira de manhã. Três dias e quatro noites no litoral, três noites e quarto dias na cidade grande. Metade da semana em cada lugar.

ilhabela ricardo anderáos
Na mesa, com minha família, na Ilha. Dá pra notar que estamos felizes?

Em julho próximo completo 15 anos dessa vida híbrida. Tenho certeza de que, se tivesse dedicado 100% de meu tempo e energia nos dias úteis para o trabalho, reservando apenas os finais de semana para escapar da vida urbana, como fazem meus amigos que continuam morando em São Paulo, eu teria ganho muito mais dinheiro e acumulado mais poder do que tenho hoje. Mas para que mesmo?

As coisas que eu e minha família ganhamos graças à nossa aposta de 1999 não têm preço. Para mim, esse é o significado profundo do que Arianna Huffington define como Third Metric -- e que nós decidimos chamar de Outra Medida, em Português. Minha versão pessoal da Third Metric é a descoberta cotidiana de como o contato íntimo com a natureza e a vida numa pequena comunidade são profundamente transformadores. E meu plano é usar este espaço para dividir algumas dessas descobertas com você...