OPINIÃO
12/02/2014 09:49 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Tijolo por tijolo num desenho ilógico

Conhece a clássica história do casal que se separou durante a construção de uma casa? Eu sei que é um chavão terrível, mas foi o que aconteceu comigo. Era a isso que me referia em meu último post, sobre a tentativa de criar um paraíso acabar nos levando para o inferno. Não me bastava estar bem no trabalho, ter uma família linda e desfrutar do privilégio de viver em Ilhabela. Ainda me faltava realizar mais um sonho: ser o dono da minha própria casa.

Depois de muita procura, encontrei o terreno perfeito em um bairro tranquilo. Grande, plano e com vista para o mar, mais da metade da área era dominada por uma floresta interligada ao maciço do Parque Estadual de Ilhabela. Nos fundos, um rio de águas cristalinas alimenta uma pequena cachoeira, com um poço só para nós.

A bolha de internet havia estourado e minha situação financeira já não era confortável como antes. Nosso terceiro filho, o Tom, ainda mamava. Para economizar dinheiro para a obra, nossa família se mudou para uma casa bem menor. Apertamos o cinto e encaramos a construção. E aí começaram os problemas.

Cada decisão a ser tomada no projeto era uma fonte de desentendimentos para o casal. Cada grande despesa -- o que é bastante comum em uma obra --, um motivo a mais para aumentar meu nervosismo. Some a isso viver em uma casa apertada com três crianças pequenas e está montado o cenário para uma tempestade perfeita.

Paralelamente, meu processo de psicanálise continuava. Mas o divã não tinha espaço suficiente para dar conta de minha insatisfação, voltada especialmente contra a Gisela, por tudo que um casamento perde em intimidade e cumplicidade em um cenário como esse. Uma dor nas costas acabou me levando para uma série de sessões de Rolfing. Essa terapia corporal, bastante profunda, terminou por destruir o frágil equilíbrio que eu havia construído no meio de tanta neurose.

De repente, sair de casa me pareceu a melhor coisa a fazer. Achava que assim Gisela cederia às minhas vontades em assuntos de cama, mesa e obra. Ela, por outro lado, achou que era blefe, que eu precisaria sofrer um pouco para depois voltar. E, assim, aluguei outro espaço em Ilhabela, e comecei a viver a vida de pai separado. Nos finais de semana, ficava com os filhos na Ilha. O resto da semana passava em São Paulo, caindo literalmente na balada.

O aumento das despesas e o cenário de incertezas fez a obra da casa da família praticamente parar. E assim, tijolo por tijolo, num desenho ilógico, eu havia demolido quase tudo que construíra ao me mudar de São Paulo para a Ilha, apenas dois anos antes...