OPINIÃO
19/02/2014 17:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Mente Zen, mente de principiante

Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito. Se você discrimina demais, você se limita. A mente do principiante é a mente de compaixão.

"Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito"

Shunryu Suzuki

Desde pequeno, sempre fui fascinado pelo conhecimento. Colecionava informações e explicações sobre os mais variados assuntos com a mesma alegria que meus coleguinhas do primário colecionavam figurinhas. Física, astronomia e história eram meus temas preferidos. Talvez por ter nascido quando meus pais já beiravam os 50, talvez por ter irmãos muito mais velhos, fui uma criança precoce e um tanto solitária.

A racionalidade e minha língua afiada levaram o padre da igreja da Cruz Torta, no bairro onde cresci em São Paulo, a me expulsar das aulas de catecismo aos sete anos de idade, para tristeza da minha mãe. Ele alegou que meus repetidos questionamentos perturbavam os outros alunos. Ainda lembro, com orgulho, de me sentir uma miniatura de Galileu Galilei. E na esteira daquela pequena excomunhão, decidi que não apenas Deus era uma ficção, mas que tudo que fosse relacionado com religião e espiritualidade constituía uma rematada besteira.

E assim atravessei quatro décadas de vida cultivando minha racionalidade e um tique de especialista nos mais variados assuntos. Primeiro a faculdade de história, e depois a profissão de jornalista, só reforçaram minha tendência de tudo questionar, classificar e explicar.

Pano rápido para meu post anterior: ali estava eu, desconstruindo meu paraíso em Ilhabela. Uma casa inacabada, a família separada e vários projetos pessoais desmanchando no ar. Qual o sentido para tudo isso? O fato é que, dentro do pequeno enredo de minha vida, eu havia me convertido num clássico herói trágico. Daqueles que, em sua arrogância e orgulho, violam as leis dos deuses, da pólis, da família ou da natureza, e assim constroem a própria desgraça.

Foi quando uma amiga, muito próxima na época, me arrastou para o centro budista tibetano que ela frequentava semanalmente. Ela já havia me presenteado com um livro sobre Zen há algumas semanas, como parte de um plano de salvação amorosamente elaborado. Acabei cedendo a contragosto, sob a garantia de que, se ficasse muito incomodado, a esperaria num boteco ali ao lado.

Minha primeira impressão foi de um lugar estranho, com pessoas esquisitas, exageradamente simpáticas. Sentei numa almofada no chão, esperando a lama chegar. Segundo as instruções da minha amiga, eu deveria me levantar na entrada da mestra. Mas poderia evitar as prostrações que todos os outros alunos fariam assim que ela sentasse no seu pequeno trono. Ridículo, pensei.

Com algum atraso, a lama Tsering Everest finalmente chegou. Passadas as reverências, começou a falar em um inglês pausado e cristalino. Mas ao contrário do que eu esperava, ela não tinha um estilo suave. Sua fala era firme, bem-humorada e, às vezes, irada. O olhar agudo cutucava aleatoriamente membros da plateia. Quando finalmente chegou minha vez de ser escaneado por aqueles olhos azuis, suas palavras reviravam o avesso do meu sentimento, falando sobre os venenos da arrogância, da soberba e do orgulho... Estava pronto o cenário para minha epifania.

Saí profundamente impressionado, com os olhos mareados. Nos dias seguintes mergulhei fundo no livro "Mente Zen, Mente de Principiante", que havia ganhado da amiga bem-intencionada. Descobri que poderia olhar a mim e ao mundo com olhos novos, desaprender umas tantas certezas. E uma semana depois lá estava eu de novo, ouvindo os ensinamentos.

Com o tempo converti o divã da minha terapeuta em uma academia de ginástica verbal, onde me dediquei a acomodar o impacto da lama Tsering na persona racional à qual havia me agarrado por toda minha vida. Acabei sacando sei-lá-de-onde o conceito de Coleridge sobre "suspension of disbelief". E assim fui me permitindo sorver o lado positivo dos ensinamentos, evitando encarar questões espinhosas como a reencarnação ou a existência de canais sutis de energia dentro de nossos corpos.

A cada semana, ao entrar no centro budista Odsal Ling, tirava os sapatos, pendurava minhas velhas certezas no cabide e me sentava numa almofada para respirar, ouvir as palavras da lama e olhar o mundo com olhos de principiante. Foi assim que, lentamente, as coisas começaram a mudar.