OPINIÃO
24/05/2014 15:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Gol contra? Ronaldo revela "vergonha" por atrasos na Copa

Escolhido para ser o garoto-propaganda do comitê da Copa, Ronaldo valida as críticas da Fifa ao governo e engrossa o coro dos descontentes com o mundial. Mas o problema, Ronaldo, não é "passar essa imagem para fora" e sim o Brasil ser do jeito que é. Já ganhamos muito com essa Copa. Sabemos que o rei está nu, que suas palavras foram vãs, que não somos uma potência e que nos últimos anos temos dado passos maiores do que nossas pernas.

REUTERS/Paulo Whitaker

Ele foi escolhido para ser o garoto-propaganda do comitê organizador da Copa: um jogador famoso, bom moço, avesso a polêmicas. Mas, ao declarar à agência de notícias Reuters sua "vergonha" pelos atrasos no Brasil, Ronaldo valida as críticas da Fifa ao governo e engrossa o coro dos descontentes com a Copa. Entretanto o problema, Ronaldo, não é "passar essa imagem para fora" como você disse, e sim o Brasil ser do jeito que é. Aqui, não é apenas o rei que está nu: estamos todos. É uma vergonha...

Depois de ler as declarações de Ronaldo, comecei a escrever este texto para dizer a ele que o problema não são as aparências, e sim a substância das coisas. Mas agora, pensando bem, creio que talvez o problema esteja mesmo nas aparências. Na nossa obsessão pelas aparências - e note bem que me incluo em tudo o que falo aqui, não porque concordo, mas porque estou condenado a isso, como você que está me lendo, desde que tenha nascido neste país.

As estatísticas mostram que somos campeões mundiais em muitas coisas além do futebol. Disputamos a liderança no ranking de cirurgias plásticas, o que dá uma boa medida dessa nossa obsessão pelas aparências. Mas também brigamos pelo campeonato mundial de acidentes de trânsito com mortes, o que revela como somos agressivos e mal educados uns com os outros. Sem contar a luta pela pole position na corrida de improdutividade no trabalho. Como poderíamos passar para o mundo uma imagem diferente da que estamos passando com a Copa?

Até os protestos contra a Copa se baseiam mais em aparências do que na substância das coisas. Como provou artigo recente da Folha, o total dos investimentos públicos e privados na competição não corresponde a 9% do que o governo gasta anualmente só nas escolas públicas. Portanto, não fazer a Copa mudaria nada, ou muito pouco, nas nossas carências históricas de transporte público, segurança, saúde e educação.

Houve desvios dos R$ 25,8 bilhões investidos na Copa? Muito provável! Mas há corrupção e desvios em muito do que o poder público faz no Brasil. Isso não é privilégio de nenhuma prefeitura, governo estadual ou federal. É provável também que o percentual desviado nas obras da Copa seja análogo ao que corrói os R$ 280 bilhões por ano que vão para as escolas públicas ou os R$ 390 bilhões da Previdência. Por que não estamos protestando com o mesmo vigor contra os escândalos do cartel dos trens (que envolve o PSDB em São Paulo) ou da Petrobras (que complica o PT na escala federal)?

Escolhemos protestar contra a Copa, mais uma vez, pela nossa obsessão com as aparências. E não apenas porque esses protestos vem sendo amplificados para todo o planeta. Acredito que, inconscientemente talvez, protestemos contra a Copa porque cansamos desse auto-engano. Queremos que alguém venha nos dizer a verdade. Obrigado Ronaldo!

O caráter simbólico da Copa do Mundo é muito forte. A primeira imagem que vem à cabeça de um estrangeiro, quando se fala do Brasil, tem a ver com futebol. Mas nós sabemos que a aparência de vencedores que ganhamos com os cinco títulos da Seleção Brasileira está muito distante da realidade do nosso povo.

Por tudo isso, acredito que já lucramos muito com essa Copa. Sabemos que o rei está nu, que suas palavras foram vãs, que não somos uma potência e que nos últimos anos temos dado passos maiores do que nossas pernas. Espero que os brasileiros percebam que estamos nus também, e que a despeito de nossas grandes qualidades (que achei dispensável elencar aqui, mas por favor, é claro que gosto de ser brasileiro e de viver neste país!) temos grandes defeitos - e que devemos reconhecê-los para poder superá-los. O país que temos é o país que nós fazemos. Portanto, é o país que merecemos.