OPINIÃO
10/06/2014 19:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Entrei em campo para cobrir minha terceira Copa do Mundo e fiquei deprimido

Quando fui cobrir a Copa da África, esperava encontrar o caos. Lembro das matérias da TV brasileira mostrando grama sendo colocada apressadamente do lado de fora dos estádios, duas semanas da abertura da competição. Mas, no final, as coisas na África acabaram funcionando perfeitamente. Já o que vi hoje no Itaquerão e arredores me deu tristeza.

Ricardo Anderáos

Acabo de chegar do Itaquerão, onde fui pegar minha credencial para fazer a cobertura do mundial, e saí de lá deprimido. Depois de cobrir as Copas de 2006 na Alemanha e 2010 na África do Sul, meu primeiro contato profissional com a Copa do Brasil reforçou minha sensação de indignação. Primeiro, pela magalomania do projeto do estádio e da urbanização ao seu redor. E depois, pelo atraso nas obras e a desorganização que encontrei.

Quando fui cobrir a Copa da África, esperava encontrar o caos. Lembro das matérias da TV brasileira mostrando grama sendo colocada apressadamente do lado de fora dos estádios, a menos de duas semanas da abertura da competição. Mas no final, as coisas na África acabaram funcionando bem. Já o que vi hoje no Itaquerão e arredores me deprimiu.

Juro que estava querendo virar a página dessa história de #naovaitercopa. Primeiro, porque é claro que a Copa vai acontecer, e quando a bola rolar a imensa maioria dos brasileiros vai torcer como louca. Depois, porque amo a Seleção desde 1970, quando tinha 8 anos de idade e fiquei com cada lance daquela campanha brasileira gravado na minha mente e no meu coração. Por último, mas não menos importante, gostaria que a cobertura do Brasil Post fosse menos mal-humorada que a do resto da mídia - sem ser alienada em relação ao mau uso do dinheiro público e outros problemas que já conhecemos sobre o evento. Mas, infelizmente, não deu.

O primeiro impacto aconteceu quando cheguei na frente do estádio. O local onde ele foi construído, com um imenso desnível, acentua o gigantismo da obra. É o oposto do Pacaembu, que aproveitou elegantemente a geografia do terreno onde se encontra. O Itaquerão detonou o topo de um morro, e quem sai da estação do Metrô tem de escalar o que dele resta para chegar até o estádio.

Se o Pacaembu lembra um elegante anfiteatro grego, o Itaquerão parece um Vesúvio de concreto. Reforça essa sensação o murundum de viadutos ao seu redor, alguns obviamente inúteis. Os governos federal, estadual e municipal dividem ali a responsabilidade por encher os cofres das empreiteiras desnecessariamente.

Outro desgaste veio na hora de pegar minha credencial. O processo foi bastante longo e confuso, com os voluntários e pessoal da segurança dando orientações contraditórias. Depois de quase meia hora em uma fila, fui retirado dela e colocado em outra, indevidamente. Quando descobri o erro, tive que reiniciar todo o processo. O que aqui demorou mais de uma hora, na Alemanha e na África do Sul não levou nem 10 minutos.

Para arrematar, dentro do estádio fica claro que a obra ainda precisa de semanas para ficar realmente pronta. O campo está perfeito, idem as cadeiras para o público. Mas o clima me lembrou daquelas construções que os moradores invadem para tentar expulsar os pedreiros: tem operário trabalhando em todo canto, grama sendo colocada, sacos de cimento espalhados, lustres pendurados, pisos inacabados cobertos com compensado e tapumes estrategicamente colocados em extensas áreas do interior para esconder partes ainda não finalizadas. Isso convive com áreas de acabamento suntuoso, como pisos e pias de mármore que definitivamente não combinam com um estádio de futebol.

Na Copa de 1970, a casa da minha família em São Paulo, estava sendo reformada. Meu pai ficou doente porque tudo atrasou, o piso da sala estava sendo trocado, e tivemos de ver os jogos com eu e meus três irmãos espremidos com meus pais na cama do casal. No jogo do Brasil contra a Romênia dia 10 de junho, exatos 44 anos atrás, quando pulamos todos juntos para comemorar o primeiro gol de Pelé, acabamos quebrando o pé da cama. O Itaquerão de hoje me lembrou a nossa velha casa ainda em obras. Só espero que o Brasil dentro de campo consiga virar o jogo e reverter todos os erros que cometemos até aqui com a Copa 2014.

Galeria de Fotos Imagens do Itaquerão dois dias antes da abertura da Copa Veja Fotos