OPINIÃO
21/05/2014 08:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Como a yoga da morte me ajudou a renascer

Depois de horas de intensos exercícios de respiração, entrecortados pela repetição de mantras e a visualização de minha energia vital subindo pelos canais que unem os chacras, coisas inusitadas começaram a acontecer. Confesso que toda essa metafísica me soava meio esquisita. Apesar disso, me joguei de cabeça na coisa.

Ricardo Anderáos

A yoga da morte é uma das tradições mais importantes do Tibete. Um ritual que ajuda quem está morrendo, além de seus familiares e amigos, a lidar melhor com esse momento-chave de nossas vidas. Pouco depois do meu primeiro contato com o Budismo, soube que o lama tibetano Chagdud Ripoche daria um retiro de quatro dias com ensinamentos sobre essa prática em Três Coroas, no Rio Grande do Sul. Sem entender muito bem por que, fui tomado pela ideia fixa de participar. Eu nunca havia feito um retiro ou nada parecido. E jamais fui o mesmo depois daquela experiência.

O cenário era digno da refilmagem de Horizonte Perdido. Maior templo budista tibetano da América Latina, debruçado no alto da serra gaúcha, o Khadro Ling pairava sobre um mar de nuvens que cobriam o vale a seus pés. Com as proporções de uma catedral, o templo, com paredes internas cobertas por afrescos de artistas nepaleses, é cercado por outras construções típicas da arquitetura sacra do topo do mundo - como estupas, grandes estátuas e rodas de oração.

Durante três dias e três noites, Chagdud Rinpoche transmitiu ali ensinamentos para cerca de 250 participantes. Combinando exercícios de respiração, meditação, mantras e orações, "P'Howa" é uma prática que deve ser realizada pelo moribundo durante o processo de agonia e morte - e também por aqueles que o assistem e que podem fazer, em voz alta, a leitura do Livro Tibetano dos Mortos. Segundo a tradição do Budismo tântrico, esse exercício objetiva a transferência de consciência do moribundo para a esfera do Buda Amitaba, permitindo que mesmo os menos virtuosos possam alcançar a iluminação no fim da vida.

Confesso que toda essa metafísica me soava meio esquisita. Comecei o retiro dividido: continuava adotando a tática de suspensão da descrença, mantendo meu foco no conteúdo psicológico dos ensinamentos, que me traziam paz e acolhimento. Mas o lado místico de tudo aquilo me incomodava bastante. Apesar disso, me joguei de cabeça na coisa.

Depois de horas de intensos exercícios de respiração, entrecortados pela repetição de mantras e a visualização de minha energia vital subindo pelos canais que unem os chacras, coisas inusitadas começaram a acontecer. O ruído mental, que normalmente atrapalha a meditação, simplesmente desapareceu. Fui tomado por uma calma e um auto-acolhimento profundos. Ao mesmo tempo, parecia estar descolando do chão. E o mais estranho: no topo da cabeça, onde os bebês têm aquela "moleira" que se fecha com o crescimento, surgiu um espaço levemente dolorido, que parecia se abrir quanto mais eu praticava.

"O Rinpoche morreu!"

"Amanhã quero todos aqui às 5h da manhã, para encerrar os ensinamentos", disse o Rinpoche, em seu inglês com forte sotaque tibetano, às 23h30 daquele sábado, 16 de novembro de 2002. Quatro horas depois, fomos acordados com os sinos do templo repicando. "O Rinpoche morreu! O Rinpoche morreu!". Me dirigi rapidamente para a porta do templo. Lá dentro, cada praticante procurava seu lugar, sentando em posição de meditação. Apesar da comoção generalizada, muitos tentavam evitar o choro, segundo a tradição de que isso atrapalha o espírito do falecido, que deve deixar o corpo, mas pode hesitar em seguir adiante face ao sofrimento dos que ficam para trás. Aos poucos, os lamentos foram sendo substituídos por mantras. Começava uma rotina de orações e práticas de meditação ininterruptas, que duraria 49 dias, ali e em outros centros budistas da linhagem Vajrayana Nymgma, no Brasil e em outras partes do mundo.

Mais tarde soubemos que, pouco antes de morrer, o Rinpoche sentou em posição de meditação, voltado para a janela ao lado de sua cama. Chamou sua assistente, mas quando ela faz menção de levá-lo para o hospital mais próximo, ele disse que seu tempo havia se esgotado. Fechou os olhos, o coração parou e o corpo permaneceu imóvel, em posição de meditação. Seguindo a tradição tibetana, um falecido não deve ser tocado nesse momento. Assim, acreditam, a consciência não é atraída para a dimensão terrena do corpo e pode ser ejetada pelo chacra coronário, rumo ao coração do Buda Amithaba.

Esse era o treinamento através do qual Chagdud Rinpoche nos conduzira nos dias anteriores. É provável que ele tenha planejado tudo, dando a todos a própria morte como último ensinamento. O ar condicionado de seu quarto foi ligado no máximo e Rinpoche foi deixado ali, sentado. O corpo não decaiu por sete dias depois, quando finalmente foi eviscerado e coberto com sal, nessa mesma posição. Depois, foi despachado para o Nepal, onde ele seria cremado 13 luas depois, num ritual elaboradíssimo - do qual tive a honra de participar.

Ter feito parte de tudo isso criou em mim um vínculo muito profundo com o Rinpoche e a tradição Nyngma. A soma dos três dias de ensinamentos com a comoção que vivenciei por sua morte me ensinou, de uma vez e para sempre, o significado e a força da meditação. Desde então venho lutando diariamente com a barulheira no interior da minha mente e com o "lado escuro da força", que reside no coração de cada um de nós.

Continuo tendo de enfrentar as mesmas limitações e neuroses que me acompanham por toda minha vida. Mas, ao mesmo tempo, tenho a convicção de ter passado por um verdadeiro renascimento. Na medida em que passei a me acolher e me aceitar um pouco mais, comecei a fazer o mesmo com aqueles que estão ao meu redor.

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A última geração

Chagdud Tulku Rinpoche nasceu no Tibet, em 1930. Fez parte da última geração que herdou no próprio país os ensinamentos e métodos do budismo tântrico tibetano, ou Vajrayana. Dentro dessa linhagem há quatro escolas: Nyingma, Kagyü, Sakya e Gelug. A primeira, Nyingma, conhecida como Escola Antiga, remonta ao místico Padmasambhava, ou Guru Rinpoche (Mestre Precioso), que levou o budismo da Índia para o Tibete no século 8.

Essa é a escola de Chagdud Tulku Rinpoche, que, ao contrário de tradições monásticas, defende a integração das atividades mundanas com o desenvolvimento espiritual. Por esse motivo seus lamas não são obrigados a fazer votos de castidade. Podem casar e ter filhos. A escola mais recente, Gelug, conhecida como "Escola dos Virtuosos", tem no Dalai Lama seu líder máximo. Ela monopolizou o poder político no Tibete desde o século 12 até a invasão chinesa de 1959. Do ponto de vista de um ocidental, as diferenças entre as quatro escolas são mínimas.

Aos três anos de idade, Chagdud Tulku Rinpoche foi identificado por um grupo de monges como a 14ª reencarnação do abade do monastério de Chagdud Gonpa, criado no século 13, no leste do Tibet. Dessa identificação precoce deriva o título "Tulku". Segundo a tradição esses espíritos escolhem intencionalmente reencarnar em determinada família, de forma que as circunstâncias de seu nascimento e educação possam favorecer seu desenvolvimento espiritual posterior. Na identificação teria reconhecido objetos da última encarnação do abade, e chamado pelo nome o melhor amigo de seu "antecessor", presente à cerimônia.

Depois disso foi treinado pelos maiores lamas tibetanos, e mais tarde se formou em medicina. Em 1959, com a invasão chinesa do Tibete, fugiu da morte em uma longa jornada através do Himalaia, junto de quase 100 mil compatriotas. Exilou-se na Índia, e depois no Nepal. Durante 18 anos trabalhou nos campos de refugiados tibetanos nesses países. Em 1978 conheceu Jane Tromge, uma de suas primeiras alunas ocidentais, com quem se casou. Mais tarde, ela foi ordenada Lama, sob o nome Chagdud Khadro. A ela cabe substituir Rinpoche à frente do centro budista em Três Coroas, no Rio Grande do Sul.

Em 1979 Rinpoche mudou para os EUA, onde começou a montar centros de prática e grupos de meditação. Em 1983 criou a Fundação Chagdud Gonpa. Seu objetivo é preservar a tradição Nyingma e dar ensinamentos do Budismo Vajrayana, especialmente nas artes, filosofia e práticas de meditação tibetanas. Sua sede fica em Junction City, norte da Califórnia, e possui centros em duas dezenas de cidades do país.

Rinpoche fez sua primeira visita ao Brasil em 1990. Atraído pelo que chamou de clima de espiritualidade do país, começou a fazer visitas cada vez mais frequentes. Em 1993 criou o Centro Chagdud Gonpa Odsal-Ling em São Paulo, que hoje funciona à Al. Barão de Limeira, 1193, Campos Elíseos, e é dirigido pela norte-americana Lama Tsering Everest. Um grande templo, no mesmo estilo do Khadro Ling, foi mais tarde construído em Cotia, localizado na rua dos Agrimensores, 1461. Outros 12 centros foram criados em várias cidades brasileiras.

Em 1995 Rinpoche estabeleceu-se definitivamente por aqui. No ano seguinte adquiriu uma área de 48 hectares em Três Coroas, RS, próximo a Gramado. O terreno, localizado na beira de um imenso vale, tinha apenas duas cabanas toscas de madeira. Depois que o Lama se transferiu para lá, construções foram sendo erguidas em ritmo acelerado. Em 1999 foi concluído o templo principal, ou La Khang.

Ao longo deses anos, Chagdud Tulku Rinpoche adaptou práticas e orações milenares para facilitar o acesso do público brasileiro. Além de traduzi-las para o português, chegou a resumir rituais inteiros, como a prática de Tara Vermelha, uma forma feminina do Buda. Para ele, entretanto, o mais importante não eram os elaborados rituais, mas os conceitos centrais de compaixão e desapego ao egocentrismo. "Os métodos que vêm dos ensinamentos do Buda nos permitem realizar uma prática espiritual verdadeiramente transformadora, sem nenhuma manifestação externa, sem nos sentarmos numa almofada, sem anunciarmos o nosso sistema de crença para os outros. Podemos nos tornar praticantes secretos no caminho para a iluminação", afirmou certa vez. Seus ensinamentos estão resumidos no livro Portões da Prática Budista, lançado no Brasil pela Rigdzin Editora.

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