OPINIÃO
10/02/2014 16:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Finanças, energia e riscos sistêmicos

Roger Milley via Getty Images

O pico do petróleo saiu de moda, deslocado pelo sucesso das formas não convencionais de obtenção de energia fóssil. Não são poucos os que alardeiam a proximidade da autossuficiência americana em combustíveis fósseis. Os baixos preços do gás de xisto são tratados como revolução, de duplo e fundamental alcance: permitiram diminuir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa dos EUA durante a atual década, substituindo parte expressiva do carvão mineral na geração de energia; e contribuíram para reverter o processo de desindustrialização, atraindo de volta ao país negócios intensivos em energia. Junte-se a isso o efeito geopolítico de se emancipar da oferta de energia vinda do Oriente Médio e está traçada a trajetória de pouso suave na transição para a economia de baixo carbono.

Não é apenas sua condição de importante e bem-sucedido empresário no setor de energias renováveis da Grã-Bretanha que dá a Jeremy Leggett autoridade para denunciar a inconsistência e a inconsequência dessa narrativa. É também sua militância de ativista e pesquisador, autor de três livros sobre o tema e articulista assíduo do Financial Times e do Guardian. Mais que isso: Leggett ensinou geologia e engenharia de petróleo na Royal School of Mines do Imperial College e fez várias consultorias para gigantes globais do setor.

Seu último livro é uma história do que de mais importante aconteceu no cenário global de energia durante o século 21. Longe, entretanto de um tom impessoal ou neutro, o livro relata inúmeros eventos de que Leggett participou e nos quais debateu com algumas das mais importantes autoridades na área de energia e de finanças. A ligação entre finanças e energia envolve quatro riscos sistêmicos que ameaçam o mercado de capitais e, portanto, a economia global.

O primeiro é, nos dias de hoje, o mais polêmico. Por mais que se insista na comparação entre a Idade da Pedra (que não acabou por falta de pedra) e a do petróleo, o fato é que as formas convencionais de obtenção do produto já se esgotaram. A produção de petróleo cru atingiu seu pico de 74 milhões de barris em 2005 e aí permanece. Nada menos que 60% da oferta mundial vêm de países cuja produção já não cresce. Na Arábia Saudita, 90% do petróleo vem de apenas sete poços que já têm, todos, quase 50 anos.

Mas, dizem os críticos do pico do petróleo, as formas não convencionais de exploração não apenas conseguem satisfazer a demanda, mas têm horizonte altamente promissor. Leggett mostra que os números estonteantes das reservas contidas nas novas modalidades de exploração fóssil são, em grande parte, ilusórios: de fato, o petróleo está lá, mas o que pode ser extraído a um custo minimamente realista, com as técnicas atuais, corresponde a um ou no máximo dois por cento do total. Raymond Pierrehumbert, professor titular de ciências geofísicas da Universidade de Chicago, citado por Leggett, diz que a busca por petróleo nos Estados Unidos assemelha-se à corrida da Rainha Vermelha de Lewis Carrol: os 25 mil poços existentes atualmente nos EUA resultam numa produção equivalente à dos 5 mil que havia no ano 2000. Isso é agravado não só pela crescente preocupação em torno dos impactos ambientais do fraturamento hidráulico, como também por seus custos energéticos. A energia necessária para cada unidade de energia fóssil obtida de maneira não convencional é crescente.

Daí decorre o segundo risco. Se, de fato, a redenção promovida pelas formas não convencionais de petróleo e gás for efêmera, os impactos no mercado financeiro podem ser desastrosos, já que se trata de um setor que só em 2011 atraiu quase US$ 50 bilhões em fusões e aquisições. Longe de exprimir uma nova era de vigor dos fósseis, o gás de xisto representa, na visão de Leggett, uma bolha cuja explosão trará efeitos devastadores. E, tratando-se de energia fóssil, os mecanismos pelos quais altos preços se traduzem em posterior aumento da oferta são necessariamente imperfeitos, e lentos.

O terceiro risco é ligado às mudanças climáticas. Segundo Leggett, a multiplicação de eventos como Katrina ou Sandy não será suficiente para gerar, em curto prazo, reversão na corrida da Rainha Vermelha. Mas os impactos socioambientais das emissões de gases de efeito estufa ameaçam a própria licença para operar das grandes petrolíferas.

Mais importante é o quarto risco: se as negociações internacionais fortalecerem mecanismos para que o aumento da temperatura global não vá além de 2o (como estabelecido na Conferência Global de Cancun, em 2010), menos da metade do patrimônio das empresas de energia fóssil no mundo poderá converter-se em riqueza, sob pena de destruição do sistema climático. É o que os especialistas chamam hoje de bolha de carbono ou "unburnable carbon" (carvão não passível de ser queimado). A maior dificuldade aí está em definir quem terá o direito de extrair e consumir essa parcela de fósseis compatível com um orçamento carbono que não destrua o sistema climático. Enquanto isso não se define, as grandes petrolíferas apressam-se em novos investimentos: US$ 6 trilhões é o que deve ser aplicado nos próximos dez anos na exploração não convencional de petróleo.

É impossível não se sensibilizar para o paradoxo apontado por Nicholas Stern em uma das recentes conferências de que Leggett participou: "Não dá para apostar em uma chance razoável de manter a temperatura do planeta no limite de dois graus de elevação e, ao mesmo tempo, acreditar que as empresas de energia fóssil estejam hoje avaliadas a um preço correto". E até aqui, apesar dos grandes e promissores avanços das energias renováveis, os fósseis continuam absorvendo a esmagadora maioria do dinheiro, do talento, da inovação e dos subsídios voltados a resolver os grandes problemas energéticos das sociedades contemporâneas.

(Texto publicado originalmente no jornal Valor Econômico)