OPINIÃO
29/01/2015 10:20 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Como o papa Francisco está fazendo uma revolução

Que eu saiba, o papa Francisco não falou da teologia da libertação. Mas a teologia da libertação não é algo em que se acredita - é algo que se pratica. Acredito que o nome "teologia da libertação" não é tão forte quanto poderia. Seria mais bem entendido como "teologia revolucionária".

Franco Origlia via Getty Images
VATICAN CITY, VATICAN - DECEMBER 10: Pope Francis speaks during his weekly audience in St. Peter's Square on December 10, 2014 in Vatican City, Vatican. The Holy Fathertold the thousands of faithful present that he wanted to share with them what took place and what the last Synod on the Families has produced. (Photo by Franco Origlia/Getty Images)

MANÁGUA - Em março de 2013, me perguntaram numa entrevista: o que eu achava de um papa argentino?

Foi uma surpresa para mim que não tivessem escolhido um papa Europeu e que o escolhido fosse um cardeal sobre quem eu não soubesse nada. Os cardeais existentes foram nomeados bispos por João Paulo 2º e Benedito 16, e eles eram conservadores e reacionários. Não esperava nada novo naquela eleição papal. Na verdade, não tinha nenhum interesse nela.

Mas, desde o momento em que o novo papa apareceu em sua sacada, percebi mudanças. Ele apareceu vestindo apenas uma simples túnica branca, rejeitando outras vestimentas papais com adornos dourados e tecidos sofisticados. Na sacada, antes da tradicional bênção papal, ele se curvou perante a multidão, pedido sua bênção.

Em vez de um dos nomes tradicionais, ele escolheu Francisco. Leonardo Boff estava muito certo quando disse que não se tratava simplesmente de um nome, mas de um projeto de vida. E, neste caso, não era somente um novo papa, mas um novo projeto para a igreja.

Estamos assistindo a uma revolução no Vaticano. O papa Francisco não quer viver como um papa. Ele se recusou a ocupar o palácio do pontífice, com seus 14 quartos. Ele rejeitou o papamóvel. Ele conversa diretamente com as pessoas pelo telefone. Ele usa linguagem clara e simples. Ele não quer ser chamado de papa, mas simplesmente de bispo (o bispo de Roma).

Que eu saiba, o papa Francisco não falou da teologia da libertação. Mas a teologia da libertação não é algo em que se acredita - é algo que se pratica. Acredito que o nome "teologia da libertação" não é tão forte quanto poderia. Seria mais bem entendido como "teologia revolucionária".

Essa teologia é a verdadeira teologia do Evangelho, que vem de uma palavra grega que significa "boa notícia" e "anunciar a boa notícia". O sentido que Jesus deu a ela foi boa notícia para os pobres, por sua libertação. O que é o mesmo que revolução. Ou mudar o mundo. Virá-lo de cabeça para baixo. Ou, melhor dizendo, endireitar o mundo, porque hoje ele está de cabeça para baixo.

Sob os pontífices João Paulo 2º e Benedito 16, os bispos e padres da teologia da libertação foram substituídos por elementos conservadores da extrema direita. Tudo o que tinha a ver com essa teologia foi suprimido. Ao mesmo tempo, o governo dos Estados Unidos combateu essa teologia apelando aos fundamentalistas que pregavam um evangelho individualista e conservador. Eles combateram grupos guerrilheiros de libertação com forças de contra-inteligência e uma repressão cruel, que criou um sem-número de mártires.

No chamado Documento de Santa Fé, sob o título "Uma Nova Política para a América Latina nos anos 1980", o presidente Reagan foi aconselhado a combater os movimentos de libertação, promovendo igrejas fundamentalistas americanas na América Latina. Em 1999, a School of the Americas, que treinava soldados e os ensinava a reprimir e a torturar, declarou que a teologia da libertação havia sido derrotada com a ajuda do exército americano.

Durante a segunda visita de João Paulo 2º à Nicarágua, jornalistas em um voo da Alitalia o questionaram sobre a teologia da libertação. O papa disse que ela não era mais um perigo, pois o comunismo havia sido derrotado. Mas, das profundezas da Amazônia, o bispo Casaldaliga disse: "Onde houver pobres, haverá teologia da libertação".

Para mim, a eleição deste novo papa é como um milagre. O papa Francisco está fazendo uma revolução no Vaticano. Será também uma revolução no mundo, endireitando-o. A revolução de Jesus de Nazaré:

Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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