OPINIÃO
05/12/2014 17:17 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Rosane Collor no olho do furacão

Se o leitor não for muito exigente em termos de elaboração estilística, vai se divertir muito com o inesperado trabalho de estreia no mundo das letras de Rosane Malta.

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O livro tem um toque de Nelson Rodrigues (o do Palhares, o cunhado canalha). Outro de Dan Brown, com o culto a entidades diabólicas. Uma pitada de Stephen King, com fetos humanos usados em rituais. Uma dose de true crime, como a obra-prima de Truman Capote. Tem tramas de tribunal, como os livros de John Grisham. Tem uso de drogas (insinuado, é verdade) como o melhor de Bret Easton Ellis. Tem até um assassinato misterioso em família, como no thriller de Stieg Larsson.

Se o leitor não for muito exigente em termos de elaboração estilística, vai se divertir muito com o inesperado trabalho de estreia no mundo das letras de Rosane Malta (née Collor), Tudo o que vi e vivi.

Os anos de Collor na presidência não costumam ser lembrados com muito carinho pela população, mas inspiraram grandes livros.

Notícias do Planalto, de Mario Sérgio Conti, contando os bastidores da imprensa e sua relação com o mercurial presidente. "Morcegos Negros", de Lucas Figueiredo, com a tenebrosa teia de ligações criminosas tecida por PC Farias. "Cayman - o dossiê do medo", do jornalista Leandro Fortes (com os documentos falsos que, segunda a ex-primeira dama, arruinaram Leopoldo, outro irmão de Collor). Joaquim de Carvalho escreveu Basta!: Sensacionalismo e Farsa na Cobertura Jornalística do Assassinato de PC Farias, desmontando a tese de conspiração no crime envolvendo o tesoureiro da campanha de Collor.

Sem falar do veneno altamente concentrado de Passando a limpo - A trajetória de um farsante, escrito por ninguém menos que Pedro Collor, irmão do presidente.

Competindo em ressentimento, surge agora o trabalho autobiográfico de nossa mais jovem primeira-dama.

"Heaven has no rage like love to hatred turned/ Nor hell a fury like a woman scorned", dizia o poeta inglês William Congreve. O Inferno não conhece fúria como o de uma mulher desprezada.

Quando o acerto da pensão não é satisfatório, então, nem vale a pena falar.

O livro, mesmo consideradas suas precariedades, tem o ponto de vista único de quem esteve dentro do olho do furacão de uma das maiores crises da história brasileira.

Ou, para os menos interessados em política, uma assombrosa narrativa de como a união da palavra de Jesus com uma rotina de visitas a shopping centers pode resgatar um paciente até da depressão mais profunda.

Qualquer que seja o ponto, o livro é um pouco como a passagem de Collor pela presidência.

Tem incontáveis defeitos.

Mas ao menos não peca pela monotonia.

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