OPINIÃO
29/05/2014 14:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Um café no <em>Ground Zero</em>

Getty Images
NEW YORK, NY - MAY 16: A woman pauses at the names engraved along the North reflecting pool at the ground zero memorial site after authorities opened the plaza to the public free of charge on May 16, 2014 in New York City. Prior to today, visitors had to wait in line to enter a barricaded area which includes the newly dedicated National September 11 Memorial Museum. Together with the museum, Ground Zero has become one of the top tourist attractions in the nation with tens of thousands of visitors expected yearly. (Photo by Spencer Platt/Getty Images)

A história não é exatamente econômica em guerras, selvageria, massacres, ataques terroristas. Mas, para nossa geração, o atentado de 11 de Setembro traz duas diferenças fundamentais. Primeiro, ele aconteceu em Nova York, cidade que milhares de filmes e séries incorporaram ao nosso imaginário afetivo. Conhecemos aqueles cartões postais mesmo que nunca tenhamos colocado os pés em Manhattan. Segundo, ele chegou até nós em tempo real, com todos os seus traumatizantes detalhes, dominando todas as telas, todas as bancas de jornais.

É o nosso momento "onde você estava quando...".

O 11/9 foi nossa introdução sem cortes a um novo mundo de terror - inesperado, sem sentido, sem fronteiras, gratuito, selvagem.

Não conheci o museu criado no Ground Zero, mas quando estive lá a polêmica loja de lembranças já funcionava. O item menos deprimente do catálogo é um cachorrinho de pelúcia homenageando a brigada K9 de socorristas. Há projetos para abrir um café e restaurante no local. Não critico, mas também não consigo imaginar clientela para o empreendimento. O local é um dos mais tristes que já conheci. Os dois monumentos que ocupam o lugar das torres e homenageiam os mortos são sóbrios, sombrios, solenes - e não abrem espaço para nenhuma distração.

Impossível estar lá, por exemplo, sem ver The Falling Man, a pessoa desconhecida que foi capturada pelas câmeras quando se atirava de uma das torres em chamas. Claro que o choque do avião e a queda dos edifícios são terríveis, mas nossa mente ainda pode tentar nos enganar negando a presença humana lá. Contra o homem em queda não há defesa. Sua sombra cobre o lugar com uma melancolia permanente, inescapável.

Entendo a revolta daqueles que perderam entes queridos no atentado com as iniciativas comerciais previstas para o local. Mas entendo também que o museu precisa de recursos para se seguir aberto. E que aquele memorial, além de homenagear as vítimas, tem outra função: nos mostrar o preço que se paga pelo fanatismo religioso, pela intolerância. Nova York não foi um alvo aleatório. É uma das cidades mais plurais do planeta e representa tudo que os terroristas odeiam (ou temem): a liberdade de expressão, a igualdade feminina, o respeito pela diversidade, a alegria boêmia e sensual da cidade que, diz o clichê, nunca dorme.

Qualquer recurso que mantenha este museu em funcionamento é bem vindo - ainda que eu mesmo não consiga me ver como cliente de nenhum destes negócios.

É como se o fantasma do The Falling Man nos vigiasse, eternamente suspenso no ar em seus últimos momentos de vida, nos dizendo que não há mais nada a fazer naquele lugar senão refletir sobre a presença sufocante de sua ausência.

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