OPINIÃO
12/08/2014 09:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

A primeira Grande Guerra e o cinema

De uma rica filmografia sobre o tema, escolho alguns filmes também considerando, obviamente, seu valor artístico e histórico para o cinema.

Reprodução

O centenário da 1ª Grande Guerra (celebrado em 28 de julho) recebeu uma grande leva de cadernos e matérias especiais da grande imprensa, suscitando análises comparativas daquela época com o presente atual, que se mostra cada vez mais instável nos seus fundamentos econômicos e geopolíticos, derretendo certa visão utópica e primariamente capitalista, visionada nos anos seguintes ao colapso do muro de Berlin, de um mundo democrático (na concepção anglo-saxão do termo), liberal e financista nos seus preceitos econômicos.

O teatro geopolítico atual aponta para um cenário de aceleração de tensões oeste-leste e norte-sul. De resgate de um certo nacionalismo radical inserido estranhamente em blocos político-econômicos que disputam, tal qual o início do século XX, a expansão de mercados até pouco tempo ignorados pelo universo financeiro, em especial a África, a América Latina e o sudeste Asiático. A guerra civil na Ucrânia é o exemplo mais acabado e superlativo das tensões mencionadas acima. E pela relativa semelhança das dinâmicas político-econômicas entre as duas épocas, é natural e oportuno discutir e relembrar a 1ª Grande Guerra.

Por isso, chama-me a atenção o silêncio do cinema atual sobre o conflito, mesmo entendendo esse comportamento. O último filme produzido pela indústria do cinema sobre o tema foi o errático Cavalo de Guerra (2010) de Steven Spielberg.

Ao menos para o cinema industrial, cada vez mais pressionado por custos de produção maiores e pelo "boom" de qualidade das produções para a TV, a 1ª Grande Guerra é de fato um tema espinhoso (para os roteiristas em especial), porque pressupõe cobrir um processo histórico onde não há heróis. Não existe um lado dotado de motivações morais e humanas, e outro, representante do mal absoluto. Por isso (mas não só por isso) tantos filmes sobre a 2º Grande Guerra, onde os nazistas representam os "vilões perfeitos", na definição do diretor Steven Spielberg.

Essa reflexão simples e bastante funcional foi-me oferecida, na verdade, pela Beatriz (amiga e professora de cultura fílmica na Operahaus). Na 1ª Grande Guerra todos os grandes impérios europeus disputavam, na verdade, seu quinhão de influência colonial no mundo recém-conectado pela revolução industrial e pela explosão dos mercados consumidores nos países centrais. Foi uma guerra pela disputa de um butin global. E essa urgência estratégica, num mundo ainda desprovido de fóruns e câmaras setoriais específicas para mediações dessa ordem (não que as existentes hoje sejam de alguma eficácia), foi resolvida pela escolha militar, eclodindo na guerra que vitimaria, ao seu final, quase 20 milhões de pessoas, expandindo-se para outros continentes e influenciando, determinantemente, toda a trajetória política, econômica e cultural do século XX até os nossos dias.

A Grande Guerra significou, também, um atentado das elites aristocráticas europeias contra o seu próprio povo, fazendo-os marchar movidos por um patriotismo frenético no início do conflito, até a desolação e martírio das trincheiras. De fato, nunca tantos homens foram desperdiçados em táticas de combate tão obtusas e perversas, ao passo que o armamento utilizado sofisticava-se aceleradamente. A mais mortífera das combinações: exércitos estáticos e doentes nas trincheiras e armas mais eficazes como nunca no ofício de matar.

A grande diferença dos temas e estilos narrativos escolhidos pelo cinema para retratar as duas grandes guerras foi, portanto, a fácil identificação de um "mal absoluto" na 2ª guerra, ao passo da indigesta névoa que confundia heróis e vilões na primeira, demandando, necessariamente, maior compreensão e sensibilidade artística dos realizadores, assim como uma certa maturidade das plateias.

Vários cineastas narraram a 2ª grande guerra como a trajetória mítica do herói em meio à tragédia, ao passo que para a 1ª guerra, o tom escolhido é quase sempre crítico e cético, voltado para a perversão de um mundo decadente (aristocracias imperais centro-europeias) e o exercício das regras, interesses e códigos palacianos na vida (e na morte) da soldadesca nas trincheiras. Muitos filmes se voltam para o absurdo da guerra, mas em especial para o tipo de guerra travada entre 1914-1918, onde milhões de homens encaravam seus inimigos entrincheirados a poucos metros de distância.

De uma rica filmografia sobre o tema, escolho alguns filmes que exploram todos os aspectos que citei. Também considero, obviamente, seu valor artístico e histórico para o cinema. São eles:

Sem novidade no Front (All Quiet on the Western Front), 1930 - Diretor: Lewis Milestone

Filme Americano baseado no livro de Erich Maria Remarque, sobre a desilusão de jovens soldados alemães com a guerra após o seu início "glorioso". Filme melancólico e realista que faz um corajoso relato do lado derrotado do conflito, sem a estigmatização comum aos vencidos.

O filme (e o livro de Remarque) vai na direção oposta à linha de autores que retrataram a vida na trincheira, do qual destaco especialmente "Tempestade de Aço", de Ernst Junger. No livro de Junger, a guerra é vista como uma experiência fundamental para o carácter dos homens e das nações.

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory), 1957 - Diretor: Stanley Kubrick

Obra prima de Kubrick, o filme explora vários dos temas preferidos pelo autor: a estupidez da cultura militar, os limites da racionalidade, a incapacidade do homem comum escapar ao seu fardo...

No filme, um ataque francês mal planejado para a conquista de um certo "monte formiga", durante a batalha do Somme, acaba em retumbante fracasso. Para esconder sua falha, o general responsável acusa soldados alhures de suposta "covardia" e "espírito derrotista" em meio às tropas, propondo, como mensagem do exército de não tolerar tamanho crime, que soldados sejam escolhidos a esmo para serem fuzilados. O plot absurdo revela a plena desconexão entre o universo burlesco dos oficiais e o inferno das trincheiras. Kirk Douglas interpreta um coronel que decide oferecer-se como advogado de defesa dos soldados, sem, no entanto, ter qualquer esperança de salvá-los. Muitas, muitas cenas memoráveis: o famoso travelling dentro da trincheira enquanto soldados amedrontados olham para ela (a câmera funciona como ponto de vista do Coronel Dax - Kirk Douglas), a cena da discussão entre o Coronel Dax e o General Broulard numa imponente sala palaciana, cujo o detalhe do piso em xadrez serve como analogia do "jogo" que está sendo travado ali, além de tantas outras...

Filme máximo sobre a futilidade da Guerra.

Johnny vai à Guerra (Johnny Got His Gun), 1971 - Diretor: Dalton Trumbo

Dalton Trumbo leva para as telas seu romance homônimo, escrito na década de 40, sobre um soldado que chega dilacerado física e espiritualmente da guerra para um hospital de campanha. Lançado em 1971, em plena Guerra do Vietnam, o filme foi automaticamente adotado pelos manifestantes como um libelo contra a guerra. O filme é um belo e tocante manifesto contra qualquer guerra, tomando partido dos soldados e do povo que normalmente sente o flagelo do conflito.

Gallipoli (Gallipoli), 1981 - Diretor: Peter Weir

Produção Australiana que projetou a carreira do diretor Peter Weir internacionalmente (diretor de filmes como Sociedade dos Poetas Mortos, A vida de Trumann, Mestres dos Mares, dentre outros).

O filme narra a trajetória dos soldados australianos e neozelandeses, então sob comando do exército imperial britânico, na disputa pela península de Gallipoli contra o Império Otomano, aliado dos Impérios Alemães e Austro-Húngaro na Grande Guerra.

Esperava-se uma rápida vitória contra o irregular exército turco. No entanto, dado a vantagem no terreno e a tenacidade dos defensores, o exército britânico amargou uma das mais sofridas derrotas na 1ª Guerra.

O diretor faz um filme claramente emocional, resgatando a memória histórica de uma tropa, composta basicamente de australianos e neozelandeses, chamada de Anzac (Australian and New Zealand Army Corps), que sangrou muito longe de casa numa batalha que, naquela altura e geografia, não fazia muito sentido para o Império. Novamente o tema do desperdício de vidas, da inflexibilidade insensível dos oficiais, do esgotamento dos manuais táticos militares e da certeza de condenação à morte pelos jovens que lutaram e morreram naquele lugar.

Ao final, Weir usa o Adágio de Albinoni na composição sonora da cena clímax do filme, num dos empregos mais sensíveis e emotivos de uma peça de conserto para o cinema.

Coronel Redl (Oberst Redl), 1985 - Diretor: István Szábo

Coprodução Alemã e Húngara, Szábo dirigi um ambicioso painel pré-primeira guerra, narrando a trajetória de um jovem e ambicioso oficial do exército austro-húngaro, Alfred Redl (numa extraordinária interpretação de Klaus Maria Brandauer), escolhido para espionar uma autoridade Russa que pode impulsionar, definitivamente, sua carreira junto ao estado maior do exército. Porém, Redl atrai muitos inimigos, em função da sua origem simples. Além disso, por ser homossexual, sempre navega com cuidado e temor pelos corredores sisudos e conservadores do império. Em algum momento da história os seus segredos acabam sendo revelados e usado contra ele, reforçando uma acusação de contra-espionagem e precipitando a danação do personagem.

Szábo pinta um quadro sofisticado e dramático sobre as escaramuças políticas que culminaram numa guerra sangrenta, apontando sua lente para o drama de um homem que acaba sendo devorado por uma época.

O filme termina com o exato início da 1º guerra, onde cenas reais da mobilização e da guerra são acompanhadas pela "Marcha Radetzky" de Tchaikovsky, fechando simbolicamente o grande vaudeville macabro que aqueles senhores engendraram durante os anos anteriores. Um dos grandes filmes dos anos 80.

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