OPINIÃO
07/05/2014 15:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

A culpa é do trabalhador

Recentemente a provocativa revista britânica The Economist alfinetou os trabalhadores brasileiros, chamando-os de "ineficientes" e vaticinando que eles saiam da sua "letargia". Conclusão precipitada e preconceituosa, mas, em hipótese nenhuma, impensada.

Reprodução/The Economist

Recentemente a provocativa revista britânica The Economist alfinetou os trabalhadores brasileiros, chamando-os de "ineficientes" e vaticinando que eles saiam da sua "letargia". Além da arrogância eurocêntrica da centenária revista, notei também um mau humor para com os crescentes rendimentos da classe trabalhadora brasileira, principalmente quando comparados aos níveis de produção registrados no passado recente. De fato, essa diferença explica o aumento do custo real da mão de obra na composição de despesas das empresas, mas também a sustentação dos níveis de consumo e de receita dos negócios na outra ponta.

Essa equação obviamente não se sustenta, o que explica a corrida do governo contra o tempo para aplacar alguns gargalos na infraestrutura. Mas, voltando ao ponto da revista, que responsabiliza o trabalhador brasileiro pelo crescimento pífio dos últimos anos, penso que uma parte deste raciocínio se explica pela ideologia (ou teologia, como diria o economista Paulo Nogueira Batista Jr.) de mercado, seguida tão apaixonadamente pela revista, que logo olha o incremento dos salários como vilão, sem a contrapartida da produção. Essa mesma lógica é seguida pelos economistas monetaristas (alguns deles, inclusive, assessorando presidenciáveis) e pela maioria esmagadora do empresariado brasileiro.

No entanto, sem ignorar as fraquezas estratégicas do país, como a infraestrutura infartada e os baixos níveis qualitativos do nosso sistema educacional, chamo a atenção para os baixos índices de investimento em Pesquisa & Desenvolvimento praticado pelas empresas brasileiras. Com algumas exceções, nosso tecido produtivo tem baixa intensidade de inovação tecnológica. Produzimos pouco e de forma ineficiente também por isso. As decisões estratégicas do capital, nas últimas décadas, foram todas elas direcionadas para explorar o "boom" das commodities, sem esquecer a sempre presente Renda Fixa. Investimos pouco ou quase nada em Inovação.

No gráfico abaixo podemos comparar os investimentos em P&D feitos pelo Brasil com aqueles praticados por alguns países, entre desenvolvidos e emergentes. Do gráfico entendemos que as economias que apresentam alto grau de produtividade investem quantidades relevantes em relação ao seu PIB. Além disso, existe um comprometimento muito maior do Capital privado no investimento absoluto. Países como o Brasil são altamente dependentes do investimento público para P&D, focando a produção científica nas Universidades e institutos espalhados pelo país. É muito pouco.

As explicações para a baixa produtividade brasileira são bem conhecidas. E até compreendo as queixas do empresariado, clamando por políticas industriais e tributárias mais inteligentes. E a própria matéria da The Economist não esconde isso. Mas fica claro pela visão ideológica dos Ingleses, e dos seus fiéis seguidores por aqui, que grande parte da nossa ineficiência é causada pela "leniência tropical" do nosso trabalhador. Conclusão precipitada e preconceituosa, mas, em hipótese nenhuma, impensada.

Ainda nos farão celebrar o aumento do desemprego...