OPINIÃO
30/12/2014 12:29 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Réveillon político só em dezembro de 2017

A nossa hierarquia política só deve tomar novos rumos em 2018, quando velhos agentes darão lugar a novas experiências. Os casos de corrupção e de má gestão dos recursos serão bons ingredientes, mas o prato principal continuará sendo a 'velha' disputa política.

roberto stuckert filho/pr

O ano político brasileiro se iniciou em 2013 - nos protestos de junho - e só deve se encerrar no dia 31 de dezembro de 2017. Portanto, a meu ver, não teremos réveillon na política brasileira em 31 de dezembro de 2014 como muitos esperavam. Algumas questões ainda estão pendentes na nossa sociedade e a posse de Dilma Rousseff não deve mudar muito o cenário atual. Em 2018, com o aparecimento de novas forças e arranjos políticos, quem sabe seja possível comemorarmos uma nova 'virada'.

O longo ano político brasileiro (2013-2018) que impede, entre outras coisas, comemorarmos o ano vindouro, é a soma de vários elementos, entre eles, os casos de corrupção da Petrobras e do cartel no metrô, a crise hídrica e o aumento no preço das passagens em São Paulo, as dificuldades da economia global e, sobretudo, as implicações da luta política, iniciadas em junho de 2013 e com reflexos nas eleições de 2014, para os próximos quatro anos. É diante deste emaranhado de questões que adiaremos o réveillon político para quem sabe 2018.

Do ponto de vista da política produzida na capital federal, a acirrada disputa presidencial resultou, pelo menos na teoria, num governo mais distante dos temas que envolvem direta ou indiretamente a população e mais próximo do que pede a governabilidade ou a falta dela, conforme a própria presidenta afirmou. A pouca diferença de votos, que não surpreende e não faz mal a ninguém, 'obrigou' Dilma Rousseff a fazer uma composição política ainda mais 'fisiológica' - uma mistura de vários 'corpos' que sempre causa estranheza, mas que não é novidade na política-, contrariando assim os que esperavam que a reforma política fosse precedida por uma reforma moral - similar aos discursos de Marina Silva durante a caminhada eleitoral. No entanto, enquanto tal reforma não sai do plano do intelecto, a governabilidade continuará a estruturar as escolhas políticas e os políticos seguirão o jogo que é jogado.

Cabe, entremeio, outra interpretação para-além do ressentimento que acometeu parte dos eleitores de Dilma Rousseff, até mesmo os que nela votaram por 'força da obrigação'. A composição dos novos ministérios indica, grosso modo, certo 'poder' de assimilação da presidenta Dilma Rousseff. Isso demonstra, entre outras coisas, a diferença entre ela e o seu opositor, Aécio Neves, que se caracterizou mais pela dificuldade de aceitar a derrota do que pelo seu 'capital político' advindo dos 48,36% de eleitores.

Muitos hão de perguntar: como assim? 'Dilma traiu a esquerda!'. Não tenho a intenção aqui de dar significação aos afetos, quero apenas apontar que Dilma e o PT derrotaram o PSDB no pleito, mas retiraram dali, da disputa eleitoral, o que a partir de 2015 chamaremos de segundo governo Dilma. Em outras palavras, o PT não eliminou o PSDB da cena política, ao contrário, assimilou e absorveu as demandas dos agentes simpáticos às causas PSDBISTAS, exclui-se apenas os 'pato-radicais'. É bem verdade que tal atitude contraria ambos (direita e esquerda). De um lado, os apoiadores se sentem traídos e deveras preocupados com o "endireitamento" do único partido de massa do Brasil, o PT. Do outro, os opositores estão descontentes com a perda de espaço e com a aglutinação das suas demandas nas mãos dos oponentes.

Não é bem verdade que o PSDB esteja preocupado com a falta de coerência de Dilma Rousseff. Estão 'de fato' apreensivos com o possível resultado positivo da sua falta de coerência. Já parte da esquerda brasileira, se mostra inquieta com o possível resultado positivo de uma política econômica 'endireitada'. Assim, a esquerda está mais preocupada com 'os meios' do que com os fins, ou seja: com os anúncios de Dilma, o resultado 'fim' já está, digamos, dado. Em oposição, parte da direita, já prevendo bons 'fins', ignora os 'meios' que ela mesma usaria como expediente político.

A disputa político-ideológica fará com que prolonguemos 2013 ainda mais. Sem réveillon! A nossa hierarquia política só deve tomar novos rumos em 2018, quando velhos agentes darão lugar a novas experiências. Os casos de corrupção e de má gestão dos recursos (tanto materiais quanto humanos) serão bons ingredientes, mas o prato principal continuará sendo a 'velha' disputa política, esta será a responsável por produzir 'novas vontades'. A questão é: nem sempre uma dúzia de laranjas juntas dá um bom suco. Mistura amarga! Mesmo sem um 'réveillon político', o desejo é que em 2018 a próxima 'mistura' produza algo muito mais doce.

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