OPINIÃO
29/01/2015 19:15 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

O volume morto na política paulista

O resultado nefasto da má gestão já aponta para um 5 a 2 nas periferias da capital paulista. O descaso só faz piorar a situação. Em decorrência disso, os 0,50 centavos de aumento nas passagens de ônibus e o "junho de 2013" serão rapidamente esquecidos por conta da calamidade pública. As ruas serão inundadas, não pelas enchentes, mas por pessoas sedentas.

J. DURAN MACHFEE/ESTADÃO CONTEÚDO

Se a água acabar o Brasil vai parar! Eu sei, essa frase mais parece com os bordões que empurram às pessoas em manifestações no Brasil afora. No entanto, a máxima se encaixa bem no atual momento por que passa a nossa sociedade.

É quase impossível você sair de casa e não ouvir burburinhos sobre a crise hídrica que, embora tenha iniciado em São Paulo, toma conta agora de todo o sudeste brasileiro. Em mesas de bares; nos restaurantes; nas conversas que o jornaleiro tem com meu pai; na TV; nas rádios; nos jornais; no Facebook e Twitter; enfim, quase todo mundo só fala em água ou da falta dela.

Ao mesmo tempo, não para de pipocar uma centena de soluções caseiras para enfrentar a crise: desligar o chuveiro enquanto passa o sabonete; escovar os dentes somente com um copinho americano d'água; não dar descarga depois de um simples xixi; acumular o máximo de louça possível ao longo do dia; estocar litros e mais litros d'água e etc. A situação é quase como quando um país está à beira de uma guerra. Nunca passamos por uma antes, mas consigo imaginá-la assim.

Na seara política não faltam culpados. Sobram teorias absurdas para explicar a atual crise: desde os que se apegam à Constituição, até os que passaram a atribuir a crise da água à questão energética. Outros vão ainda mais longe: pedem ajuda aos céus, mas não para qualquer um, vão à fonte: 'oh, são Pedro, por que tu nos abandonaste'?

Na TV, nem os especialistas escapam: boa parte dos analistas se conforma em descrever o nosso sistema hídrico, usando termos que nem os mais 'técnicos' reconhecem. A população, sentada à frente do telejornal, recebe atônita uma enorme quantidade de (des) informação; nosso imaginário vai da Cantareira ao Rio Tietê em poucos segundos. Ou seria Alto do Tietê? Ninguém é obrigado a entender o funcionamento do sistema hídrico de São Paulo, tampouco posso me sentir desconfortável por confundir a quantidade de volume morto que já morreu.

Afinal, mais morto do que o volume 1, 2 e 3 estão os nossos governantes. Não, calma! Não sou mais um daqueles que se esforça ao máximo para não pronunciar o nome do governador de São Paulo. Há alguns dias, assisti perplexo a um debate sobre a crise da água em São Paulo (agora no sudeste), cujos especialistas convidados eram da área energética. Sim, dois especialistas em 'luz'! Sendo justo: um dos convidados representava os interesses das empresas de saneamento básico.

Aliás, com um pouco de esforço e imaginação me perguntei: para quem estamos fornecendo a concessão de um serviço público tão essencial? Quem é o maior acionista destas empresas de saneamento básico? No caso de São Paulo, é o próprio Estado o maior acionista da Sabesp. Apesar disso, temos que digerir uma suposta falta de caixa destas empresas e a relação direta entre a falta de dinheiro e o desperdício do bem escasso. Ao passo que, em Nova York, os acionistas de Manhattan comemoraram, em 2012, dez anos de valorização das ações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo.

Porém, quero voltar ao volume morto, na política. Quero sim dar nomes aos bois. É de Geraldo a maior fatia de responsabilidade pela crise. Não por ter sido avisado antecipadamente da calamidade - que foi ululantemente abafada durante toda a corrida eleitoral - mas, sobretudo, por ter sido avisado e ter 'agido' exatamente igual aos volumes de água perdidos da Cantareira, esgotando, assim e enfim, o último resquício de 'volume morto' que lhe restava na política.

O volume morto na política, ao contrário das nossas represas, está subindo e batendo na bunda de todos os políticos, em todas as esferas. O volume perdido se foi, este não volta mais; e não quero aqui rogar por nós e fazer vãos pedidos a são Pedro. A incapacidade de gestão já extrapolou a simples fronteira do direito constitucional. O povo não esta preocupado com a hierarquia das leis. A próxima vitima do volume morte pode ser a presidenta Dilma Rousseff, caso ela não tome para si a incumbência. Com ela, todo o congresso nacional está fadado a desaparecer feito água desperdiçada na tubulação da Sabesp, seja a situação ou a oposição. Oposição que, alias, vive uma seca de ideias há anos. Não sei até que ponto isso pega.

O resultado nefasto da má gestão já aponta para um 5 a 2 nas periferias da capital paulista. O descaso só faz piorar a situação. Em decorrência disso, os 0,50 centavos de aumento nas passagens de ônibus e o "junho de 2013" serão rapidamente esquecidos por conta da calamidade pública. As ruas serão inundadas, não pelas enchentes, mas por pessoas sedentas.

Ainda há tempo dos políticos brasileiros recuperarem as réstias de bom senso. Está é, quiçá, a chance derradeira de a nossa sociedade sair desta crise fortalecida e, principalmente, mais madura. Não há mais espaço para fazer do campo político uma partida de futebol; não tem prece que [sozinha] dê jeito; é na terra e em terras brasileiras que se deve agir. Não é mais possível chorar o volume derramado.

Uma coisa é fato: se a água acabar o Brasil vai parar.

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