OPINIÃO
27/05/2015 16:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

O Estado Islâmico e a disputa pela hegemonia regional

O que está em jogo é a busca por alternativas aos regimes autoritários, parte destas reivindicações o mundo pode observar na Tunísia, no Egito e em outros países da região.

AHMAD AL-RUBAYE via Getty Images
Iraqi Shiite fighters from the Popular Mobilization units hold a position on April 14, 2015 in the Garma district, west of the Iraqi capital Baghdad, where pro-government forces say they have recently advanced on areas held by the Islamic State (IS) jijadist group. Iraq's premier said last week that the country's 'next battle' is to retake from the jihadist group the Anbar province, a massive desert region stretching from the borders with Syria, Jordan and Saudi Arabia to the western approach to Baghdad, that includes the town of Garma. AFP PHOTO / AHMAD AL-RUBAYE (Photo credit should read AHMAD AL-RUBAYE/AFP/Getty Images)

A organização política armada Estado Islâmico (EI), com origens no Iraque pós-Saddam Hussein, encontrou na fragilidade da Síria, corroída por uma guerra civil que dura mais de quatro anos, o mais propício ambiente para colocar em prática o que se entende por "califado islâmico".

No campo estratégico-militar, o EI cresce em terreno. Atualmente, ocupa quase 50% do território sírio e boa parte do Iraque. O mais recente episódio da expansão do grupo armado foi a tomada da cidade histórica de Palmira, na Síria. As ruínas de Palmira são patrimônio mundial da UNESCO. Próxima a um oásis no deserto daquele país, a cidade contém as monumentais ruínas de um local que foi um dos mais importantes berços culturais do mundo. Ainda mais brutalmente revelador foi o calamitoso número de pessoas mortas: aproximadamente 400, em sua maioria mulheres e crianças.

No terreno das ideias, o EI trava uma batalha sectária. A maior parte do seu exército é composta por estrangeiros, centenas deles recrutados na Europa e inseridos em uma luta que destoa da religião islâmica e de seus seguidores.

O avanço do EI na Síria pode ser mais bem entendido se incluirmos no rol de análises uma questão central, a saber, a luta pela hegemonia da região. A luta pelo poder na região do Médio Oriente coloca no centro do conflito sírio duas das principais potências regionais: a Arábia Saudita de maioria sunita e o Irã de maioria xiita.

A disputa pela hegemonia da região entre Teerã e Riad não se reduz à dimensão religiosa, tampouco a um enfrentamento entre xiitas e sunitas. Não obstante, desde que se deflagrou a guerra civil na Síria, Irã e Arábia Saudita competem em campos distintos pela influência na região. De um lado, o Irã apoiou a "Primavera Árabe" e os islamitas sunitas na Tunísia e no Egito e, com isso, aproximou-se da Irmandade Muçulmana no Egito. Enquanto isso, a Arábia Saudita condenou essa organização e apoiou o golpe de Estado (2013) contra o presidente egípcio Mohammed Morsi.

O alinhamento de Teerã ao poder de Damasco e a consolidação de seu aliado Hezbollah no Líbano é visto pelas monarquias sauditas com bastante atenção e apreensão. Nesse sentido, o conflito na Síria é peça-chave no cenário geopolítico da região. A queda de braço se dá, entre outras, em torno do apoio financeiro que o Irã fornece ao governo de Bashar al-Assad ou indiretamente ao Hezbollah, cuja atuação na Síria ajuda a manter, mais ou menos, o atual regime (apesar de o novo presidente do Irã, Hassan Rohani, ter cogitado uma futura Síria sem Assad). Envolve, também, o aumento dos gastos militares dos sauditas, hoje um dos mais elevados da região.

Ainda que a rivalidade marque as costuras políticas regionais, um tema pode unir Arábia Saudita e Irã: o interesse em combater o EI. O rápido avanço do EI na região pode deixar o ambiente político e social ainda mais instável. Após a abertura dos acordos com os Estados Unidos acerca do controle do seu programa nuclear e, por conseguinte, a retirada das sanções econômicas, o Irã procura a reaproximação com a comunidade internacional vis-à-vis a retomada do crescimento econômico e a sua consolidação como forte nação na região do Oriente Médio. Do outro lado do Golfo, a monarquia saudita teme que, a reboque do avanço da corrente reformista do Islã, uma guerra contra o EI desmantele um dos regimes mais repressivos da região.

No entanto, paradoxalmente, é o próprio regime da Arábia Saudita que dificulta o empoderamento da sociedade civil e a não radicalização política. O combate ao EI ultrapassa o campo estratégico-militar. Em outras palavras, o que está em jogo é a busca por alternativas aos regimes autoritários, parte destas reivindicações o mundo pode observar na Tunísia, no Egito e em outros países da região.

*Esse texto foi escrito originalmente para o Núcleo de Análise e Estudos Internacionais (NAEi - San Tiago Dantas).

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