OPINIÃO
18/12/2014 14:04 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

O embargo humano

Não são poucas as vezes que nos deparamos com mensagens de ódio a Cuba ou de menosprezo aos viventes daquela ilha. A gota d'água no Brasil veio após a implementação do programa "Mais Médicos" (do governo federal). É importante ir às causas dessa visão torta sobre a ilha caribenha.

Merten Snijders via Getty Images

Cuba não sofreu somente um embargo político-econômico. Cuba sofreu, sobretudo, um embargo humano.

O fim do embargo a Cuba ou, melhor dizendo, o retorno das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos é, entre outras coisas, um importante passo para o aprofundamento das relações do primeiro com o resto do continente e, por conseguinte, com o resto do mundo. Para além da relevância político-comercial implicada na retomada desta negociação, há uma questão humana extremamente importante. Não falo aqui especificamente sobre milhares de famílias que foram ao longo dos tempos separadas e, devido ao bloqueio, não tiveram a oportunidade de se encontrarem ou, quiçá, de se conhecerem. Falo a respeito de uma questão mais profunda que reverberou em quase todos os cantos do mundo, mas que no Brasil produziu e tem produzido até os dias atuais um resultado nefasto. Falo, então, sobre o preconceito social que há em relação ao povo cubano como resultado do isolamento. Um preconceito que está muito além de mera opinião sobre o desconhecido.

Tal preconceito é, pois, o que Voltaire chamou de distanciamento da razão. Isto é, um preconceito que não tem nenhuma relação com as nossas escolhas racionais, em outras palavras, um sentimento que não diz respeito à nossa dificuldade em lidarmos com o desconhecido.

Não são poucas as vezes que nos deparamos com mensagens de ódio a Cuba ou de menosprezo aos viventes daquela ilha. A gota d'água no Brasil veio após a implementação do programa "Mais Médicos" (do governo federal), cujo mote está centrado na alocação de profissionais da área da saúde dos países associados à Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), entre eles, Cuba.

É importante, portanto, ir às causas dessa visão torta sobre a ilha caribenha. É preciso agora, com a retomada do diálogo entre as duas nações antagônicas, desvelar o que está por detrás dessa visão tão distante sobre o povo cubano e, assim, superar os mais de 50 anos de embargo político, econômico e, sobretudo, humano.

O bloqueio a Cuba, em 1962, está inserido no contexto da Guerra Fria, conflito antagonizado pelos dois polos de poder - Estados Unidos e União Soviética -, que se estendeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a queda da União Soviética e caracterizou as relações político-econômicas do século XX: capitalismo versus comunismo. Como já é sabido, o bloco capitalista 'venceu' e vivemos hoje o projeto norte-americano de poder, isto é, a maioria dos países do globo adotou ao longo do século passado o regime político intitulado Democracia Liberal.

Nesse contexto conflitivo, isolar Cuba era o mesmo que isolar o avanço comunista. Isolar o avanço comunista era igualmente acalmar as mentes e os corações do povo norte-americano, cujo imaginário sobre os soviéticos era bastante explorado pelas autoridades governamentais.

Durante toda a Guerra Fria a construção do inimigo (soviéticos e aliados) desenhou não só as relações interpessoais no seio da sociedade norte-americana, mas, sobretudo, as suas relações exteriores. As consequências da bipolaridade foram devassas para os países latino-americanos - área de total controle político e militar dos Estados Unidos. Os países da nossa região foram impedidos, durante muitas décadas, de negociar e manter qualquer relação política com Cuba. Em contrapartida, recebiam gordas remessas de empréstimos estrangeiros e outros 'benefícios' que, cedo ou tarde, resultariam em diversas crises e 'décadas perdidas'.

A ideia de inimigo se propagou por todo o continente Americano. Se durante a Guerra Fria Cuba era vista como ameaça estatal e aliada dos comunistas soviéticos, com a queda do muro de Berlin, Cuba ganharia o status de inimiga das democracias liberais. O "fim da história" - de Fukuyama - havia chegado: o que fazer com Cuba?

Os Estados Unidos deram continuidade à sangria seletiva. Por um lado, continuaram a propagar a narrativa de ódio ao regime ditatorial de Fidel Castro (nenhum regime ditatorial é passível de defesa, poucos conseguem tal feito, por isso, trato aqui sobre pessoas e não regimes), de outro, apoiaram sem nenhum critério (além do realismo político) vários regimes cruéis do Oriente Médio.

A seletividade não fora observada por grande parte das pessoas, tampouco fora possível separar cidadãos de governos. Por isso, os Cubanos foram por décadas e décadas vistos como inimigos da liberdade. As notícias vindas da ilha se limitavam a noticiar os fugitivos do regime - vistos por muitos como verdadeiros heróis.

O resultado do 'embargo humano' dificultou conhecermos os cubanos como conhecemos, por exemplo, nossos vizinhos argentinos ou até mesmo os europeus. Impediu, também, de conhecermos a salsa, o mambo e toda a cultura daquele povo, para além do charuto cubano peça 'chique' do outro lado do oceano. O 'embargo humano' dificultou, ademais, enxergamos que naquela pequena ilha há um povo que ama o seu país, que é suficientemente capaz de decidir pelo seu futuro (autodeterminado), pela sua forma de governo, pelo que é bom ou ruim.

O retorno das conversas é o primeiro passo de uma longa caminhada que resultará na emancipação plena daquele povo, não porque irão receber as multinacionais norte-americanas em seu território, mas porque serão capazes de serem conhecidos, percebidos e, portanto, estarão daqui em diante cada vez mais vivos para nós e para todo o mundo.

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