OPINIÃO
13/04/2015 11:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

Impeachment ou outra coisa?

Sabendo-se de que não há relação de causa e efeito (impeachment= melhoria do quadro), e que a melhoria do cenário político-econômico não depende de um salvador da pátria, e mais, que o sucessor direto do PT é o PMDB, ágil na supressão de direitos sociais, quem ainda assim optaria pelo impeachment?

Dorival Moreira/Flickr
PASSEATA PEDINDO IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF

Segundo pesquisa recente do Datafolha, 11, veiculada nos principais meios de comunicação, a maioria dos brasileiros quer o impeachment de Dilma Rousseff. A pergunta que faço é: as pessoas querem realmente o impeachment ou querem que a situação político-econômica melhore?

Vamos supor, e provavelmente estaremos certo, que a pesquisa não problematize o 'depois', ou seja, faz-se uma pergunta seca, direta e incondicional. De saída, o impeachment parece ser a solução. Todavia, o mais condizente seria dizer que a maioria quer que a situação melhore. Na sequência, vejamos os porquês.

Acredito que as pessoas que querem o impeachment, pelo menos boa parte, querem porque o associam diretamente à melhora da situação. E associam a melhoria à simples troca de pessoas. Além disso, talvez menos relevante, estas refletem o discurso das lideranças políticas que estão na esteira do planalto, batendo na porta do gabinete da presidenta Dilma Rousseff e 'pedindo a sua cabeça'.

Há uma cultura no Brasil (ou talvez na América Latina, estou assim usando uma narrativa típica dos jornais britânicos, cujas análises isolam as diferenças sociais, políticas e econômicas que há entre as nações do continente-maior, a fim de defender alguma hipótese qualquer) de personificação das mazelas ou das soluções. Não é à toa que a nossa história política está repleta de líderes carismáticos, patriarcas e matriarca: pai dos pobres; caçador de marajá; mãe do PAC; e patrão dos aposentados vagabundos.

Enfim, procuramos quase sempre por uma figura salvadora da pátria, alguém que interceda por nós: um Ayrton Senna na política para aliviar nosso domingo; um craque do futebol no Senado - vejamos o caso Romário: a expectativa é que ele faça na política a mesma quantidade de gols que fez nos gramados. E ele não deixa por menos, reproduz fielmente o jeitão despojado e marrento que tinha quando jogava futebol. E tanto lá como cá, continua a fazer gols e, vez ou outra, a arrumar uma confusão 'extracampo'. E se a política está uma bagunça completa, pior não vai ficar: tiririca. Humorizar a política é de certa forma escapar das responsabilidades que nos cabe. Na falta de solução, rimos.

Falta, portanto, dizer aos que querem o impeachment que não há garantias de que as coisas vão melhorar no curto prazo, ao contrário, podem piorar. Se olharmos do ponto de vista institucional, um ato dessa envergadura abala todos os setores da sociedade, mesmo que o 'mercado' seja um típico 'namorado chateado' - qualquer agradinho já é motivo para abrir aquele sorriso e esquecer as mágoas do passado. Sem rancores. A democracia, ao contrário, é muito mais 'sentimentalista', demora a curar as ferida e a tornar ao que era antes.

Sabendo-se de que não há relação de causa e efeito (impeachment = melhoria do quadro), e que a melhoria do cenário político-econômico não depende de um salvador da pátria, e mais, que o sucessor direto do PT é o PMDB, ágil na supressão de direitos sociais, quem ainda assim optaria pelo impeachment? Por isso, a pergunta: as pessoas querem o impeachment ou querem que as coisas melhorem? Porque ter as duas coisas, sem chance.

A ausência de problematização acerca do impeachment não invalida as pesquisas, mas enfraquece a sua relevância, posto que diante das incertezas ainda maiores (a maioria não sabe quem é o vice-presidente da república; boa parte acredita que Aécio Neves é quem ocuparia a vaga), tende-se a conservar o status quo.

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