OPINIÃO
24/03/2014 09:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

O Brasil das classes CDE está no G20 do consumo mundial

Em uma geração, assistimos a uma prodigiosa alteração nos paradigmas de compra e venda no Brasil. Esse processo teve início ainda na década de 1990, quando da implantação do plano Real com o efetivo controle da inflação. Radicalizou-se com os programas estatais de transferência de renda, como o Bolsa Família, e, sobretudo, pela geração massiva de empregos formais e do aumento real do salário mínimo.

Uma constatação óbvia mas que muitas vezes não é levada em conta é que a nova classe média brasileira (ou classe C) só existe porque milhões de brasileiros saíram da pobreza. Hoje, a Classe C incorpora 53,9% dos brasileiros. Somado este grupo majoritário ao das classes D e E, compõe-se um exército consumidor que em 2013 movimentou R$ 1,27 trilhões. O "BRASIL CDE" seria o 8º maior país do mundo em população e o 16º em consumo. Estaria portando no G20 do consumo mundial. Em outras palavras. As empresas que conseguirem hoje, ser parceiras da melhora de qualidade de vida da Base da Pirâmide tem muito mais chance de ser líder de mercado amanhã.

Consequência natural do aumento do emprego formal, a expansão do crédito tem sido fundamental para a democratização do consumo no Brasil. No entanto, a criatividade se manifesta mais na diversificação do crédito do que na inovação de produtos e serviços. Parcela significativa das empresas mostram-se satisfeitas com o incremento natural das vendas. Ao mesmo tempo, qualificam como altamente custosa a reengenharia de métodos operativos e sistemas industriais. Tendem, portanto, a aguardar que o novo consumidor se acostume aos velhos produtos. Parte considerável das empresas, ainda não souberam transformar em vantagem competitiva a negociação em larga escala. Preferem vender menos, por um preço maior. Se insistem em manter altas margens de lucro, perdem parcelas importantes da clientela situada no meio e na base da pirâmide.

Do ponto de vista da atividade empreendedora, porém, descobre-se um movimento subterrâneo de notável reinvenção, nem sempre detectado pelos analistas ortodoxos.

É o caso da agência de viagens Vai Voando, que atua principalmente nas periferias e favelas, credenciando pequenos varejistas locais como parceiros operadores. Sua vantagem é possibilitar a compra pré-paga, sem os custos financeiros e as exigências burocráticas de uma transação convencional. Ali, o interessado não precisa comprovar renda, apresentar fiador ou exibir ficha limpa nos serviços de proteção ao crédito.

Outro caso é o da Sorridents, empresa fundada em 1995, que hoje tem mais 140 clínicas, espalhadas por 16 Estados. Criada na Zona Leste paulistana, reduto de emergentes, especializou-se em oferecer serviços para a Classe C, sempre levando em conta suas demandas singulares.

Registre-se mérito também na experiência do Carteiro Amigo, empreendimento nascido na Rocinha, no Rio de Janeiro, que gera soluções para a entrega de correspondências em áreas de difícil acesso nas favelas.

Em breve, o pacificado Morro do Alemão, também no Rio, vai ganhar um shopping center, iniciativa pioneira dos empresários Elias Tergilene (ex-camelô edono da rede de Shopping UAÍ) e Celso Athayde (Fundador da C.U.F.A.) As lojas serão administradas por membros da comunidade, conforme modelo destinado a gerar renda e multiplicar oportunidades em áreas antes miseráveis, dominadas pelo tráfico de drogas.

Este é um mundo fascinante de metamorfoses, que acena para os empreendedores estreantes e também para aqueles consolidados. Nesta lida, no entanto, exige-se que estejam atentos às exigências particulares de consumo das massas emergentes. É imperativo que inovem em produtos, constituam novas formas de negociação e estabeleçam acordos capazes de garantir um futuro de compartilhada prosperidade.