OPINIÃO
10/03/2014 09:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Vitória dos garis do Rio: mais uma derrota do poder tradicional

Prestem atenção no que estou dizendo: o que os burocratas da prefeitura do Rio, chefiados pelo burocrata-mor Eduardo Paes, fizeram com esta greve dos profissionais de limpeza na cidade foi reforçar um processo de mobilização que desafia a própria estrutura de poder. Faz tempo que os garis não se mobilizavam de forma tão contundente e esta mobilização só aconteceu porque furou o aparente peleguismo do sindicato da categoria.

Daí os "gênios" da prefeitura, absolutamente desatentos/insensíveis à conjuntura, acharam que podiam tratar este movimento como estão tratando as mobilizações de rua, na base da polícia e da intimidação, com o beneplácito da "grande mídia" carioca. Mas bateram de frente com um grupo muito bem organizado de garis, que soube usar o descontentamento generalizado com a administração pública na cidade para angariar apoios de todos os lados, inclusive de outras cidades país afora.

Foi perceptível como um grupo crescente de garis foi se engajando e participando ativamente da discussão sobre o presente e o futuro de sua categoria e usando as mídias sociais para compartilhar suas histórias pessoais. Ponho neste círculo o meu cunhado, que é gari com orgulho e que esteve ativo no movimento, e a sua mulher, minha irmã, dando-lhe todo o apoio possível nas mídias sociais. Pelas páginas deles é possível chegar às páginas de outros profissionais de limpeza urbana e seus familiares, politizados e conscientes dos seus direitos e deveres e, principalmente, dispostos a lutar por eles.

É como disse à imprensa Bruno Lima, gari há oito anos no bairro carioca do Encantado e estudante de serviço social: "A vitória dos garis vai levantar outras lutas importantes para o Brasil em 2014".

E esta luta passa necessariamente por desafiar as esferas tradicionais de poder, incluindo o sindicato da categoria. O presidente da Comlurb dizia o tempo todo que não podia negociar com um grupo "desorganizado", atuando fora da estrutura sindical, e que por isso não podia sequer recebê-los. Uma prova de como as estruturas hierarquizadas de poder - partidos políticos, sindicatos, empresas, governos, ONGs tradicionais - todos estão despreparados para a emergência destes novos atores e movimentos horizontalizados.

Quando muita gente diz que os novos movimentos nascem do nada e se perdem pela ausência de pautas e demandas concretas, vêm os garis cariocas mobilizando-se de maneira horizontal e não-hierarquizada para mostrar a eficácia desta nova forma de organização, que veio para ficar. Sua emergência é um saudável sinal de maturidade da ainda jovem democracia brasileira.

Obviamente haverá choques de crescimento, como mostram as disputas de rua entre polícia e grupos de ativistas, mas o viés de longo prazo é positivo. O poder, qualquer tipo de poder, mas especialmente o político, está aí para ser desafiado mesmo, no mínimo para que não se acomode. Que fique, portanto, mais atento aos desejos e interesses da sociedade que os elege e sustenta.

No curto prazo os garis que se mobilizaram pelos seus direitos conseguiram uma vitória para toda a categoria e devem ser saudados e respeitados por isto. Acho bom o sindicato ir botando as barbas de molho.