OPINIÃO
13/10/2014 16:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Prefeitura de São Paulo: o próximo campo de batalha

Fernando Haddad, mayor of Sao Paulo, stands for a photograph following an interview at City Hall in Sao Paulo, Brazil, on Thursday, July 10, 2014. Haddad hopes the World Cup helped transform his citys image among the 500,000 tourists who visited during the event, saying Most of those who came in for the first time will come back. Photographer: Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images
Bloomberg via Getty Images
Fernando Haddad, mayor of Sao Paulo, stands for a photograph following an interview at City Hall in Sao Paulo, Brazil, on Thursday, July 10, 2014. Haddad hopes the World Cup helped transform his citys image among the 500,000 tourists who visited during the event, saying Most of those who came in for the first time will come back. Photographer: Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images

As eleições de 2014 representam, na minha opinião, um ponto de virada, ou de inflexão, na política nacional, especialmente para o projeto político do PT. O contraste do arco de votos majoritários para Dilma Rousseff, indo fundamentalmente de Minas Gerais ao Nordeste e Norte e parte do Centro-Oeste, em contraposição à vitória inquestionável de Aécio Neves no Sudeste-Sul é a parte visível desta mudança. O fenômeno não é exatamente novo e já era observável em 2010. Mas este ano ficou mais forte e consolidado. Ao ponto, inclusive, de a vitória de Dilma no segundo turno estar longe, neste momento, de ser líquida e certa.

Análises não faltam para tentar explicar esta mudança, que se configura até mesmo na eleição do Congresso mais conservador desde 1964. De minha parte, acho que uma das razões para a derrota do PT especialmente nos grandes centros urbanos é que o partido simplesmente perdeu sua capacidade de dialogar com a sociedade no seu nível mais básico.

Curiosamente a transformação inquestionável do Brasil nesses últimos 12 anos fez emergir uma classe C urbana conservadora, ou seja, com foco no crescimento econômico individual e ao mesmo tempo muito crítica do mau uso do dinheiro público. Ela se junta à classe média tradicional, conservadora por definição, para criar um processo novo, muito dinâmico, para o qual o partido aparentemente não está preparado.

Independente do resultado do segundo turno, estou convicto de que o próximo campo de batalha será a prefeitura de São Paulo, em 2016. Apesar dos esforços do prefeito Fernando Haddad em se conectar melhor com a população e investir massivamente em áreas de apelo público, como mobilidade e habitação, ainda sinto que existe uma resistência e incompreensão difusa com relação ao seu projeto. Na verdade, dito de outra forma, a prefeitura ainda não está sendo capaz de uniformizar suas ações e a comunicação decorrente em uma narrativa que apele para a cidade como um todo.

Andando pela cidade e falando com muita gente, percebo que existe uma percepção de que Fernando Haddad está tentando fazer algo diferente, mas de forma atabalhoada. Sinto uma resistência não explícita das pessoas, o que as coloca muito facilmente do lado das críticas difusas à suposta "falta de planejamento", "autoritarismo", "antipatia" do prefeito.

Nos processos de comunicação, em geral, é menos importante o que se é, mas sim o que se percebe. E a guerra de percepções ainda está longe de ser ganha pelo prefeito. E vai ficar ainda mais difícil nos próximos dois anos, com esta inflexão na vida política nacional.

Mapa eleitoral de SP: Aécio Neves (azul) ganhou em 43 das 58 zonas eleitorais, incluindo na periferia da cidade.

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Acredito que as forças reativas à administração Haddad vão se fortalecer e se aglutinar fortemente ao redor de algum candidato que represente a "mudança reacionária" de que muitos paulistanos tanto gostam. Celso Russomano, por exemplo, já disse que vai se candidatar à prefeitura em 2016 e acredito que ele poderá ser um forte aglutinador. Basta lembrar que ele recebeu nada menos do que 11,18% de todos os votos dados a candidatos a deputado federal na cidade de São Paulo. A derrota do PT na maioria das zonas eleitorais da cidade, inclusive em algumas da periferia, é outra mostra deste momento delicado.

Neste contexto de crescente fragilidade do PT, Fernando Haddad terá de seguir fortalecendo muito sua capacidade de diálogo com os movimentos e coletivos que vão conformando uma nova forma de fazer política na cidade. Principalmente, terá de contar ainda muito melhor a história da "nova São Paulo" que ele quer criar e seguir convencendo os cidadãos a embarcar neste sonho.

Do contrário, em 2016 os paulistanos que, nas palavras do prefeito, "cobram revolução sem tirar nada do lugar", podem resolver justamente tirá-lo para por no lugar um projeto reacionário. E isto seria um desastre que não podemos permitir que aconteça.

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