OPINIÃO
09/03/2015 10:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

'Pelo menos o PT leva o que merece'

O que se procura não é uma "transição política", já que se a presidenta cair, o poder irá diretamente para o PMDB, com todas as implicações disto. Para muita gente o único objetivo é "punir" o PT. Aliás, em uma troca de mensagens que acompanhei no Facebook, um fulano disse exatamente isso, ao ser lembrado de que no caso de impeachment quem assumiria o poder seria o PMDB: "E daí? Pelo menos o PT leva o que merece."

reprodução

Sobre o panelaço de domingo em São Paulo e mais algumas capitais durante o discurso da Dilma, uma coisa deve ficar claro: as pessoas que ficaram berrando o "Fora Dilma" de suas sacadas e varandas enquanto batiam suas panelas tem todo o direito de fazê-lo. Faz parte do jogo democrático e pouco importa se eram classe média coxinha ou não ou se a manifestação foi alimentada por partidos de oposição. O fato é que demonstraram seu descontentamento de forma muito eficiente e, com isso, conseguiram criar um contraponto forte ao discurso vazio e cheio de platitutes que a presidenta fez naquela noite.

Do ponto de vista puramente técnico, este tipo de manifestação, quando feita de forma coordenada como foi a de domingo, é bem eficiente para a geração de imagens e sons que depois são reverberadas pela imprensa. Vai servir, portanto, como combustível para alimentar a presença nas marchas pelo impeachment convocadas para o dia 15/03. Prevejo que estas marchas estarão bem engordadas e vão levar muita gente para as ruas. Mas, como disse antes, tudo isso é parte da democracia, no fim das contas.

Já o clamor pelo impeachment, embora legítimo, é o que demonstra mais claramente a falta de consistência deste movimento de oposição, permeado por um ódio quase hidrófobo ao PT e à figura da presidenta Dilma (chamada aos quatro ventos de "vadia", "sapata", "piranha" e "FDP" durante o panelaço).

O que se procura não é uma "transição política", já que se a presidenta cair, o poder irá diretamente para o PMDB, com todas as implicações disto. Para muita gente o único objetivo é "punir" o PT. Aliás, em uma troca de mensagens que acompanhei no Facebook, um fulano disse exatamente isso, ao ser lembrado de que no caso de impeachment quem assumiria o poder seria o PMDB: "E daí? Pelo menos o PT leva o que merece."

É isso: "Pelo menos o PT leva o que merece" resume à precisão a qualidade atual do debate político em todas as esferas. Dane-se o Brasil, desde que o PT pague na carne por tudo o que fez, deixou de fazer, não fez ou pensa em fazer algum dia.

Impeachment e a cultura do atalho

Mais do que isso, o mantra do impeachment revela de forma crua o quão frágil ainda é a democracia no Brasil, refém agora da cultura do atalho, do jeitinho, tão entranhada na psique brasileira. Existe um processo democrático de troca de poder que, no caso brasileiro, se manifesta a cada quatro anos de acordo com o ciclo eleitoral. Com isso, o momento atual seria o de as forças de oposição afinarem o discurso e criarem uma narrativa que traduza sua visão alternativa de país. Um discurso que seja entendido e aceito pela maioria da população e que leve a oposição ao poder em 2018. Em vez disso, o que surge com força é a gritaria pelo tapetão, a busca do atalho, representado pelo impeachment.

Um atalho que tem o potencial de levar o Brasil a uma situação de caos institucional. Não dá para evocar o exemplo de Fernando Collor, cujo impeachment aconteceu quase em ritmo de festa na medida em que quase todos os ratos que mamaram de seu governo saltavam do barco afundando, não sem antes dar sua contribuição para que ele fosse mais rápido para o fundo do mar.

Collor era um presidente que representava a si mesmo. Seu partido, o PRN, era uma agremiação de aluguel, com nenhuma representatividade e força política intrínseca. Agora, estamos falando de um partido, o PT, que ainda é muito bem organizado e capilarizado. Seus militantes aceitariam cordatos e quietos o impeachment de Dilma?

Mesmo que aceitassem e tudo transcorresse de forma tranquila e ordeira, o herdeiro do cargo vago de presidente seria o PMDB. Dá para imaginar? Quem luta pelo impeachment tem a obrigação de pensar nisso.

Uma quantidade incalculável de pessoas vem gastando energia criativa nas ruas e redes sociais repetindo as mesmas palavras de ordem anti-governo. Os mesmos "soundbites", como dizem os americanos, ou seja, frases feitas que expressam a indignação, o rancor ou o puro ódio, mas que não representam uma reflexão madura sobre o país. De novo, isto é direito delas, mas segue a pergunta: qual é a visão alternativa de Brasil que defendem?

Em todo caso, acho mesmo que todos os indignados e descontentes contra o que quer que seja tem mais é que ocupar as ruas, as mídias sociais e suas varandas da forma que quiserem. A rua não é propriedade de ninguém, nem da Direita, nem da Esquerda. É de todos. E acredito que os governos, qualquer governo, de qualquer partido, tem de sentir permanentemente a chapa esquentando, até para ficar atentos, espertos e não caírem em auto-complacência e na ilusão de que representam a verdade única da sociedade.

O outro lado disso é as pessoas entenderem e aceitarem que a democracia não pode ficar à mercê de soluções que beiram o tapetão, como o caso atual dos pedidos de impeachment. Vamos amadurecer e entender que o país se constrói no longo prazo, com ciclos permanentes de troca de poder. Em vez de impeachment, preparem-se para convencer mais gente a mudar "tudo isso que está aí" em 2018.