OPINIÃO
28/04/2014 18:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

O 'movimento' #somostodosmacacos não passa de uma campanha chinfrim

Reprodução

Torcedor espanhol joga banana no campo quando o jogador do Barcelona Daniel Alves vai cobrar um corner. Ele se abaixa, pega a banana e rapidamente a come. Um gesto simples e ao mesmo tempo simbólico vira automaticamente um meme global. E é capturado por um novo "movimento" que se propõe a esvaziar o racismo nos estádios por meio da apropriação e ressignificação do discurso: "macacos somos todos nós".

Assim que vi a foto do Neymar segurando uma banana e com o filho no colo senti que ali havia de tudo, menos espontaneidade. Para aumentar a minha desconfiança rapidamente a hashtag #somostodosmacacos começou a bombar no Twitter, virando rapidamente trend topic, e outras fotos de celebridades com suas respectivas bananas começaram a pipocar.

Logo ficou claro que a força criativa por trás das macaquices e bananadas era uma agência de publicidade, a Loducca, trabalhando em conjunto com o astro Neymar, que teria ficado indignado há umas semanas quando ele mesmo foi alvo de insultos racistas da torcida espanhola. Esperavam apenas o momento certo de lançar o movimento, que surgiu com a atitude aparentemente espontânea do Daniel Alves.

"Somos todos macacos" se apresenta como um movimento, o que demonstra como já é equivocado desde sua origem. Movimento, por definição, aponta para o futuro, mobiliza as pessoas ao redor de uma causa comum com impacto tangível, tem uma teoria de mudança robusta. Ou seja, a sua narrativa mostra qual é o problema em questão, o que o movimento se propõe a fazer e como ficará o mundo quando o problema for resolvido.

Qual é a teoria de mudança do movimento "Somos todos macacos" mesmo? Tirando pelo que diz o vídeo oficial (em português e inglês) seria algo do tipo: "Existe racismo nos esportes. Vamos juntos ignorá-lo e o racismo vai acabar". WTF?, como diriam os americanos. Ou, "fala sério", como replicaria o Marrentinho Carioca do Bussunda.

Aliás, lá pelo fim do vídeo aparece a cereja do bolo da mensagem: "um apelido só pega quando irrita você". Ou seja, dito de outra forma, a vítima seria no fundo perpetradora do mal, já que a sua reação pode estimular o agressor. Então, para acabar com isso o caminho seria fagocitar a manifestação racista. Em outras palavras "somos todos macacos".

Dificilmente "movimento" criado por agência de publicidade e cacifado de forma plastificada por celebridades e subcelebridades dá para ser levado à sério. Muito menos quando vem baseado em uma teoria de mudança que não apenas é ingênua, mas ridícula e hipócrita mesmo.

"Somos todos macacos" é quando muito uma campanha e como toda campanha tem um ciclo de vida de curto prazo e com zero poder de transformação de longo prazo. Mas já começa a gerar alguns produtos, como camisetas "espertinhas" vendidas a R$ 70,00.

Alguém sempre poderá alegar que é uma campanha bem intencionada e por isso merece crédito. Mas eu particularmente estou de saco cheio das boas intenções, as mesmas que palmilham as estradas do inferno e não resolvem nada do problema que pretendem combater.

Sabe o que fotos segurando bananas ou camisetas com design engraçadinho vão fazer para resolver o problema do racismo no esporte? Nada vezes nada. Mas podem ajudar a faturar mais um leãozinho em Cannes ou dar a ilusão de ativismo para quem acha que uma banana é suficiente para esvaziar o preconceito.