OPINIÃO
17/10/2014 15:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Mandato traído - Carta aberta ao Governador Geraldo Alckmin

A tentativa aparentemente deliberada de manter a população inconsciente do verdadeiro grau de gravidade da situação ajudou a chegar ao ponto em que estamos.

Governo do Estado de São Paulo/Flickr
O governador Geraldo Alckmin durante entrega de 273 unidades habitacionais construídas pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) para famílias de baixa renda. Data: 28/05/2014. Local: São João da Boa Vista/SP. Foto: Edson Lopes Jr/A2 FOTOGRAFIA

Excelentíssimo Governador Alckmin,

Escrevo esta carta na certeza de que não será lida e, caso seja, não será respondida. Na verdade, começo dizendo que não faço questão de respostas protocolares. Portanto, se este for o caso, não precisa realmente se dar este trabalho. Escrever carta é um ofício fora de moda. Eu mesmo nem lembro qual foi a última carta que escrevi. Mas achei que este seria um bom recurso para deixar registrado por que considero que o senhor traiu o seu mandato e é, sim, diretamente responsável pela crise de abastecimento de água que estamos vivendo em São Paulo, especialmente na região metropolitana.

Em algum momento o senhor foi informado de que a crise deste ano seria diferente das anteriores. Cercado de técnicos competentes, como o senhor gosta de alardear, com certeza alguns deles chamaram a sua atenção para o fato de que haveria um risco concreto de faltar água pra abastecer a região metropolitana. Algo, portanto, teria de ser feito. O problema é que esta crise escolheu uma péssima hora para se manifestar: 2014 era ano eleitoral e o senhor estaria lutando para garantir a sua reeleição.

O senhor tinha, então, dois cenários muito claros pela frente. Um primeiro cenário implicaria tomar por base as piores previsões e atacar o problema de frente. Alertar a opinião púbica sobre o risco que corríamos, implantar medidas claras e transparentes para racionalizar e, se for o caso, racionar o abastecimento de água, mobilizar a população em alta escala de forma permanente para que economizasse água, punir de forma efetiva e pública os desperdícios, investir emergencialmente em soluções para as diversas falhas no sistema de abastecimento que levam a que 31,2% da água distribuída se perca no meio do caminho. Enfim, criar uma situação quase de guerra para garantir que o sistema de abastecimento de água não entrasse em colapso.

E isto tudo que estou mencionando nem é grande novidade. Basta dar uma olhadinha no que o governador da Califórnia, que passa uma situação idêntica à de São Paulo, está fazendo, desde que surgiram os primeiros sinais de que o estado americano passaria por uma seca sem precedentes. Mas estas medidas teriam, claro, um custo político. O racionamento, por exemplo, sem dúvida seria impopular. Pior, lembraria o racionamento de energia que se transformou em uma das marcas negativas do governo FHC. Pior ainda, poderia sugerir que talvez a administração de que o senhor é o líder não seja tão competente quanto procuram vender os marqueteiros.

Com tudo isso, o senhor resolveu seguir o segundo cenário. Usar todos os recursos técnicos e financeiros disponíveis para esticar ao máximo o abastecimento de água. Afinal, o "volume morto" da Cantareira estava aí para isso mesmo, certo? Negar a todo custo sequer a possibilidade de faltar água. Fazer uma campanha pública por economia de água, mas sem alardear demais, para não despertar muitas perguntas. Racionamento? Nem pensar! Melhor a "administração de disponibilidade" da água. Afinal, a maior parte das pessoas nem usa água entre 22hs e 6hs da manhã mesmo!

Tudo para ter água nas torneiras dos eleitores pelo menos até garantir a sua reeleição. Talvez desse até para esticar mais um pouco, caso Aécio Neves fosse para o segundo turno, como é o caso agora. E quem sabe São Pedro finalmente se compadecesse de nós e mandasse umas chuvinhas boas a tempo de evitar o pior?

A tentativa aparentemente deliberada de manter a população inconsciente do verdadeiro grau de gravidade da situação ajudou a chegar ao ponto em que estamos.

Pois bem, caro governador Geraldo Alckmin, parece que nem as suas orações de católico praticante convenceram os Céus a quebrar o seu galho. As chuvas não vieram ainda e quando vierem, segundo os profissionais do ramo, será em quantidade menor do que a média histórica, insuficientes, portanto, para resolver o problema de forma definitiva. Pois é, fazer chover o senhor não pode. Mas tem coisas que o senhor poderia e deveria ter feito, e por isso a sua culpa direta na nossa crise atual.

A tentativa aparentemente deliberada de manter a população inconsciente do verdadeiro grau de gravidade da situação ajudou a chegar ao ponto em que estamos. O cálculo político-eleitoral de curto prazo para garantir a reeleição vai trazer, em troca, impactos de longo prazo para a vida de todos nós, seus eleitores ou não. Impactos estes que apesar de serem generalizados vão, como sempre, afetar os mais pobres e aqueles com menos condições de ter acesso à pouca água ficará disponível.

E quem dera que o problema fosse apenas com a água para beber, né? As pessoas não se deram conta, ainda, que a falta de água vai afetar, por exemplo, a agricultura e, portanto, a produção de alimentos ao redor da cidade, que geralmente depende fortemente de irrigação. Vai afetar também as indústrias, várias delas grandes usuárias de água. Vai afetar o comércio em geral, especialmente restaurantes. Vai afetar hospitais, escolas e outros serviços públicos. Como consequência, se o pior acontecer, pode-se esperar baixa de atividade econômica na região metropolitana de São Paulo e desemprego.

Senhor Governador, o seu discurso de posse, em 2011, trouxe algumas palavras muito bonitas. Por exemplo, o senhor falou que em seu governo "nenhum paulista será deixado para trás". Disse também que iria fazer um governo que pudesse "ser noticiado por suas boas práticas e observado criticamente nas suas faltas."

Para coroar, o senhor terminou o seu discurso de posse com as seguintes palavras: "Assumo o governo em nome das pessoas deste estado, e é para elas, em especial para as mais humildes, que vou trabalhar intensamente, devolvendo, em boas práticas de governo, a confiança que depositaram em mim."

Bom, senhor Governador, o senhor traiu a confiança dessas pessoas, que somos todos nós.

Espero pelo menos que a reeleição tenha valido à pena. Será didático olhar todos os dias para a cara da pessoa que nos jogou na situação em que estamos hoje.

Atenciosamente,

Renato Guimarães

Morador de São Paulo

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