OPINIÃO
18/06/2015 16:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Humanidade, meio ambiente e o pecado contra as futuras gerações

A encíclica papal "Laudato Si - Sobre o cuidado da casa comum" foi lançada oficialmente pelo Vaticano. É um documento extraordinário, leitura obrigatória não apenas para os católicos, mas para todo mundo preocupado com o impacto das ações humanas sobre o meio ambiente.

ALBERTO PIZZOLI via Getty Images
Pope Francis greets the crowd at the end of his weekly general audience at St Peter's square on June 17, 2015 at the Vatican. AFP PHOTO / ALBERTO PIZZOLI (Photo credit should read ALBERTO PIZZOLI/AFP/Getty Images)

A encíclica papal "Laudato Si - Sobre o cuidado da casa comum" foi lançada oficialmente pelo Vaticano. É um documento extraordinário, leitura obrigatória não apenas para os católicos, mas para todo mundo preocupado com o impacto das ações humanas sobre o meio ambiente. Esta ideia, aliás, ficou clara do discurso de apresentação do documento, quando o cardeal Peter Turkson deixou claro que a encíclica não se dirigia apenas aos fieis católicos, mas que é uma carta dirigida a toda a humanidade.

Particularmente, considero fundamental contar com um líder global da estatura do Papa Francisco decidido a exercer sua liderança de forma positiva e propositiva neste momento crucial na história da humanidade. Ambos, o Papa e esta encíclica, serão lembrados daqui por diante pela mensagem e visão que trazem.

É preciso deixar claro que a mensagem papal não é realmente nova e muitos ativistas e cientistas vem defendendo, há muito tempo, pontos semelhantes sobre o papel da humanidade na natureza, especialmente nas mudanças climáticas. O que o Papa traz de novo é codificar os ensinamentos da Igreja sobre a Criação, amalgamá-los com o consenso científico, especialmente sobre as mudanças climáticas, e fazer um chamado ao imperativo moral de cada ser humano frente à Natureza e ao Próximo.

O Papa fala aos bilhões de seguidores da Igreja Católica, mas deixa claro que defender toda a vida é uma missão para todos e cada um de nós, sem exceção.

Sugiro fortemente a leitura da encíclica Laudato Si. O texto é saboroso, fácil de ler. É possível reconhecer o estilo do Papa Francisco em cada parágrafo. Quase como se ele estive ditando o texto para nós. O documento oficial em português está disponível aqui. A rádio Vaticana criou um guia de leitura da encíclica, com alguns destaques de cada capítulo. Veja aqui.

O Observatório do Clima também produziu uma análise bem completa da encíclica, que pode ser encontrada aqui e cuja leitura é mais do que recomendada. Veja aqui.

A tão esperada encíclica do Papa Francisco

Uma coisa que a encíclica faz de forma interessante é relacionar a ação negativa do homem sobre a natureza como um pecado contra a Criação e, portanto, contra Deus. É de dar nó na cabeça dos cristãos e, principalmente, é uma mensagem voltada para os conservadores religiosos, os quais, especialmente nos Estados Unidos, defendem que a Natureza foi dada ao Homem para sujeitar e usufruir.

A encíclica cita o Patriarca Bartolomeu I, de Constantinopla:

"Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas húmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar... tudo isso é pecado... Um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus".

"Amazing Grace" e mudança climática - belo vídeo produzido pelo Global Catholic Climate Movement

Da apresentação da encíclica no Vaticano participaram três figuras importantes da Igreja: o Cardeal Peter Turkson, Presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz no Vaticano, John Zizioulas, Metropolitano da Igreja Ortodoxa Oriental de Pérgamo, e o Dr. Carolyn Woo, presidente e CEO da Catholic Relief Services.

Abaixo seguem alguns do comentários levantados por eles durante suas apresentações ajudam a iluminar ainda mais o impacto da encíclica, do ponto de vista da Igreja:

Cardeal Peter Turkson:

"Somos parte da natureza. Não temos duas crises distintas, uma ambiental e outra social, mas sim uma única crise socioambiental complexa. Este é o contexto no temos de colocar alguns dos temas da Encíclica."

Metropolitano John Zizioulas:

"Nas páginas da Encíclica há alimento para o pensamento para todos: cientistas, economistas, sociólogos e, acima de tudo, para os fiéis da Igreja".

"A Igreja deve agora introduzir o pecado contra a natureza, o pecado ecológico. Não é um pecado apenas contra Deus, mas contra nosso vizinho e também, e isso é muito grave, contra as futuras gerações."

Dr. Carolyn Woo:

"As pessoas muitas vezes pensam que os negócios são um mal necessário. Essa é uma oportunidade para as empresas mostrarem que são um bem necessário".

"Todas as criaturas têm um valor inerente, e este valor não depende do preço que os seres humanos puseram sobre elas."

"Não tem ninguém que possa absorver as externalidades dos negócios. Somos nós e nossos filhos que vão absorver estes custos".

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