OPINIÃO
03/09/2014 20:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

É hora de construir a São Paulo das pessoas

Pouca gente se dá conta de que a São Paulo que temos hoje não é fruto do acaso, mas representa o sonho de toda uma geração de administradores, urbanistas, arquitetos e políticos. E que sonho era esse?

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BRAZIL - NOVEMBER 20: Vehicles drive along Avenida Paulista next to the Sao Paulo Museum of Art in Sao Paulo, Brazil, on Tuesday, Nov. 20, 2007. Pablo Picasso's 'Portrait of Suzanne Bloch,' a painting from the Spanish master's so-called blue phase, was stolen from the Sao Paulo Museum of Art in the morning of Dec. 20. (Photo by Andrew Harrer/Bloomberg via Getty Images)

Pouca gente se dá conta de que a São Paulo que temos hoje não é fruto do acaso, mas representa o sonho de toda uma geração de administradores, urbanistas, arquitetos e políticos. E que sonho era esse? Nada menos do que criar a "Chicago da América do Sul", ou seja, um centro industrial, verticalizado e motorizado que tinha na metrópole americana sua referência mais acabada. Uma reportagem publicada na Revista da Semana, de 1926, faz referência ao "progresso formidável" e à "visão grandiosa" dos descendentes dos Bandeirantes que investiam fortunas na construção dos "maiores edifícios da América do Sul".

Este sonho de uma cidade poderosa, incomparável, locomotiva do Brasil, alimentou todas as políticas de desenvolvimento urbano nas últimas décadas. Com isso, a São Paulo atual encarna o pior e o melhor de uma metrópole. Por um lado, temos uma cidade vibrante, usina de oportunidades e criatividade, cosmopolita, berço de inovação, centro gastronômico, capital cultural, lançadora/influenciadora de comportamentos e tendências. Por outro lado, convivemos com índices extremos de poluição, engarrafamentos monstruosos e constantes, longas distâncias e tempo exagerado no transporte, pouquíssimo verde, paredes de "espigões" crescendo de forma desordenada, violência, "clusterização" e baixa permeabilidade entre Centro e Periferia.

"São Paulo é, em verdade, uma cidade colossal e soberba, onde todas as realizações se tornam possíveis e, sem desfalecimento, se empreendem."

Revista da Semana - 20/03/1926

Ou seja, o sonho de uma cidade gigante e pujante vem rapidamente transformando-se em pesadelo. Segundo a pesquisa IRBEM, da rede Nossa São Paulo, 55% dos moradores mudariam para outra cidade, se pudessem.

Mas, então, por que não mudam? Não acredito que a resposta seja simplesmente a falta de condições financeiras. Como um carioca apaixonado por São Paulo desconfio que existe um amor atávico por esta cidade. Pelo que ela representa em termos de dinamismo e oportunidades. Viver em São Paulo não é fácil, mas a boa notícia é que pode ficar muito bom.

A prefeitura municipal já vem implementando uma série de ações que, em seu conjunto, tem o potencial de mudar significativamente para melhor a forma como a cidade está organizada para os cidadãos. O Plano Diretor é um grande passo nessa direção, sem contar a implantação de ciclovias e corredores de ônibus, o trabalho com os setores criativos da cidade, incluindo o apoio a artistas e desenvolvedores de tecnologia, o trabalho consistente com usuários de drogas, a recuperação de áreas degradadas e por aí vai.

Ainda assim, visto de cima, este conjunto de ações parece que ainda não foi suficiente para amalgamar uma percepção coletiva de mudança de longo prazo. Isto talvez ajude a explicar os focos de resistência de setores e regiões às mudanças propostas e o baixo índice de aprovação da administração municipal.

Em um outro artigo eu havia dito que falta embalar o coletivo em um sonho comum de uma nova cidade, uma nova São Paulo. Ou seja, aquele sonho de 70 anos atrás, de uma "Chicago da América do Sul", que por tanto tempo foi o paradigma de desenvolvimento paulistano e que está claramente esgotado, tem de ser trocado uma novo sonho, de uma cidade que, como diz o prefeito Fernando Haddad, "pode mais".

Mas a questão realmente importante é a seguinte: pode mais o quê? Simples, pode ser mais inovadora, inclusiva, criativa, sustentável, verde, gostosa de viver. Enfim, mais humana.

Dito assim e pensando nos processos que levaram São Paulo a tornar-se o que é, parece que estou falando de uma utopia. Mas está bem longe disso. Trata-se de idear a cidade onde queremos viver e a qual queremos que nossos filhos, netos e futuras gerações herdem. É imaginar a São Paulo dos nossos sonhos e trabalhar duro para torná-la real.

Outras cidades já fizeram isso. Nos anos 70 do século passado Nova York estava distante de ser a metrópole que hoje encanta os turistas com sua diversidade e organização. A cidade estava literalmente falida, com índices crescentes de violência, com áreas inteiras dominadas pelo crime organizado e tráfico de drogas, com o fluxo de turismo em queda constante. No fim daquela década, diante de uma situação que parecia sem solução foi lançada a campanha I Love NY, cujo logo transformou-se em uma das marcas mais conhecidas do planeta. Originalmente pensada como uma ação para estimular o turismo, conseguiu capturar um desejo difuso de mudança, de "volta por cima" e catalisou todo um conjunto de políticas públicas e de ações privadas e cidadãs que ajudaram a criar a NY do Século 21.

Outro exemplo é Tóquio, considerada uma das cidades mais limpas e organizadas do mundo. A maioria das pessoas provavelmente credita isso ao senso comum de que os japoneses seriam por natureza organizados. Na verdade, até o anos 50 Tóquio era uma capital muito semelhante a qualquer outra do ponto de vista de organização urbana, além de estar ainda se recuperando das consequências da Segunda Guerra Mundial. Um dos pontos de virada foi a escolha da cidade para sediar os Jogos Olímpicos de 1964. Isto gerou uma mobilização pública sem precedentes no sentido de garantir que a cidade chegaria aos jogos como uma das mais bem estruturadas e limpas do planeta. Esta marca distintiva passou a fazer parte do DNA urbano e as gerações seguintes a incorporaram definitivamente.

I Love NY e Tokyo 64: dois símbolos de renovação coletiva

Há muitos outros exemplos, como o "Paris Plage", a praia artificial que toma conta de parte das margens do rio Sena todo verão. Quando foi lançado, há 12 anos, o projeto gerou todo tipo de críticas. Hoje está incorporado ao modo de ser da cidade, solar e aberto aos espaços públicos. Portland, maior cidade do estado americano do Oregon, se posiciona pelos aspetos de sustentabilidade e inovação. Isto inclui investimentos públicos e privados pesados para viabilizar este sonho coletivo, como o Portland's Innovation Quadrant, que reúne quatro distritos da cidade para se tornarem uma referência global de sustentabilidade e inovação, gerando mais de 30 mil empregos qualificados nos próximos 25 anos.

Meu ponto é que todos estes exemplos, e vários outros, como o rio Cheonggyecheon, de Seul, devolvido à cidade depois de estar por décadas aterrado, ou a transformação em relativamente pouco tempo, na década de 70, de Amsterdam em uma cidade onde as bicicletas é que mandam, são a manifestação física de um sonho coletivo. Do desejo de construir uma cidade diferente daquela onde vivemos. São frutos de um movimento que ultrapassa interesses políticos e financeiros imediatos e abre as portas - ou destrava o código - do sonho, tornando-o em uma realidade possível e tangível.

Rio Cheonggyecheon, cortando o coração de Seul, capital da Coreia do Sul, antes e depois

Este movimento por uma São Paulo das pessoas (e não dos prédios, dos carros e da especulação) permite acreditar, por exemplo, que um dia seria possível ter a Avenida Paulista permanentemente fechada ao tráfego, transformada em um bulevar, uma manifestação física e simbólica de lugar onde as pessoas - todo tipo de pessoas - podem se encontrar e interagir. Permite acreditar nos rios aterrados sendo devolvidos à luz e à cidade, tornando-se não apenas pontos de lazer, mas também de transporte.

Permite pensar em diversos polos de inovação espalhados pela cidade estimulando a criação e o empreendedorismo e dialogando entre si, quebrando desta forma os diversos muros invisíveis (e alguns nem tanto) que separam Centro de Periferia. Permite pensar em uma cidade por onde se possa circular de bicicleta e transporte público de forma segura e tranquila e onde os carros, uma vez dominantes, tornaram-se recurso de uso eventual.

De novo: sonho? Utopia? Quando falamos de movimento é disso mesmo que se trata. Ou seja, de como tornamos sonhos em realidade. Sob o risco de ser reiterativo, volto ao começo do meu texto. A São Paulo que temos hoje é fruto de um sonho de cidade que até poucos anos atrás ninguém questionava.

A "Chicago da América do Sul" já deu. Vamos construir um novo sonho. E a hora é agora. Cabe a nós, à nossa geração, a nós que estamos aqui neste momento, construir a São Paulo das pessoas. A cidade que daqui a algumas décadas pode ser exemplo mundial de sustentabilidade, inovação, criatividade e resiliência começa a ser construída agora, hoje mesmo.

Sem medo de sonhar, e sem medo de tornar o sonho realidade.

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