OPINIÃO
23/07/2014 18:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

Haddad: hora de resgatar o sonho

Diria que pelo menos desde que passei a me relacionar diretamente com a cidade nunca vi um conjunto de ações tão abrangentes e coordenadas, capazes de impactar positivamente no curto e longo prazos.

J. DURAN MACHFEE/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Para mim é difícil de entender o alto grau de rejeição à administração de Fernando Haddad em São Paulo. Tento me despir de qualquer partidarismo, contra ou favor, e me parece evidente que não há termos de comparação com as administrações municipais anteriores quanto ao que está sendo feito hoje e até mesmo a forma como está sendo feito.

Diria que pelo menos desde que passei a me relacionar diretamente com a cidade (mudei-me para São Paulo, pela primeira vez, em 1998) nunca vi um conjunto de ações tão abrangentes e coordenadas, capazes de impactar positivamente no curto e longo prazos. E, no entanto, quase metade da população (47%) rejeita diretamente a administração e outros tantos (37%) a consideram "regular". Aprovação, mesmo, só de 17%.

Fico pensando em razões para isso. Por um lado, existe sem dúvida uma enorme rejeição de parcelas expressivas da cidade - que às vezes se traduz em ódio quase atávico - ao PT, sua atuação e projeto político. Isto acaba respingando em tudo que se refere ao partido e, claro, o prefeito Haddad não teria como escapar disso.

Por outro lado, existe também, a meu ver, uma profunda dificuldade de comunicação e diálogo da administração com a cidade. Haddad pessoalmente parece não ser uma pessoa particularmente afeita à comunicação direta com as pessoas, em massa. É um professor e, como tal, provavelmente lhe é mais fácil e seguro trabalhar os argumentos em grupos pequenos e com tempo para explicar bem suas ideias.

Esta é uma característica pessoal dele que, na minha opinião, tem de ser melhorada. Outros políticos, com muito menos capacidade que ele, infelizmente são muito melhores na comunicação interpessoal e na construção de relações empáticas, fundamentais para estabelecer sinergias com públicos diversos e fora da nossa zona de conforto.

Mas existem aspectos da comunicação pública da sua administração que podem ser melhorados, independente do estilo pessoal do prefeito. Por exemplo, acho o slogan "Fazendo o que tem de ser feito" muito ruim, de uma arrogância e falta de empatia sem par. Meu receio é que este slogan na verdade traduza uma visão de mobilização, engajamento e transformação que para mim é equivocada.

O que move as pessoas para mudanças de longo prazo é o sonho, é uma visão compartilhada de mudança e de como esta mudança pode afetar positivamente a vida de cada um. É esta visão que me leva, como cidadão, a dar algo de mim para sua construção, independente, no caso da cidade de São Paulo, do partido político que esteja à frente.

Pois bem, "Fazendo o que deve ser feito" fala de processo. Ou seja, da "forma" como se está construindo esta nova São Paulo. Posso até achar, no âmbito racional, que faz todo sentido, mas isto não me atrai nem um pouco. Pelo contrário, a arrogância implícita afasta quem poderia aceitar o preço a pagar pelo sonho de uma cidade melhor.

É óbvio que tem muitos comerciantes, motoristas de taxi, moradores de condomínio, donos de carros que se sentem diretamente atingidos por algumas das medidas tomadas pela prefeitura, especialmente as relacionadas ao transporte público e ciclovias. Adianta dizer para eles que terão de engolir, querendo ou não, as medidas tomadas porque a prefeitura "está fazendo o que tem de ser feito"?

Não seria melhor tentar construir uma ponte baseada na visão de uma cidade melhor para todos, inclusive para os filhos e netos destas pessoas. Afinal, é muito melhor tê-las, na medida do possível, como aliadas, não como inimigas. Mesmo por que os adversários desta nova cidade que se está tentando construir são muito poderosos e devem ser combatidos de forma coordenada.

Visão de processo, do "como vamos fazer", é o que menos precisamos neste momento singular da cidade de São Paulo. Acredito que todo paulistano, por nascimento ou opção, quer saber é o "para quê": o que vai emergir, que cidade teremos, diferente e melhor do que esta que temos. Com isso, fica muito mais fácil explicar o que está sendo feito e como está sendo feito.

Está na hora de a administração Haddad trazer a cidade para o seu sonho. Torná-lo um movimento de todos. Engavetar o "Fazendo o que deve ser feito" e criar o "Fazendo, juntos, a cidade que sonhamos", ou algo pelo estilo.

Sem medo de sonhar e entendendo que o sonho de cada um é diferente, mas que o desejo de uma cidade melhor para todos, nossos filhos, netos e os que vierem depois, é comum e urgente.

PS: Recomendo a leitura do excelente post "Carta Aberta a Fernando Haddad", do blog "Alguém Aí Fora", que elenca uma série de razões concretas para classificar a administração Haddah como muito superior às imediatamente anteriores.

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