OPINIÃO
22/09/2014 22:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

As reações às ciclovias e uma nova lógica de cidade

Não tenho dúvida de que em cinco anos, tal como em Nova York, a discussão em São Paulo não será mais sobre a necessidade de criar ciclovias, mas sobre a importância de expandi-las e dotá-las de mais qualidade,

Renato Guimarães

Uns dias atrás estive à trabalho na região de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, e parei para comprar pão e tomar café na padaria Barcelona - a mesma onde uma amiga, a Carla Mayumi, tinha parado outro dia e visto um abaixo-assinado contra a ciclovia implantada pela prefeitura na região. Ao pagar o meu consumo vi o tal abaixo-assinado a aproveitei para tirar uma foto. Ao menos na folha exibida naquele momento não havia muitas assinaturas.

O texto diz o seguinte:

ABAIXO ASSINADO

Os comerciantes, moradores da região e frequentadores da Praça Vilaboim - Higienópolis, abaixo assinados, vem através deste demonstrar seu inconformismo com a Ciclofaixa implantada na Praça Vilaboim sem o devido aviso prévio ou debate sobre o impacto que as novas ciclovias poderão trazer para a região.

A primeira coisa que me chamou a atenção é que se trata de um abaixo-assinado um tanto "desidratado", ou melhor, desfocado. Explico: como ferramenta de pressão, geralmente abaixo-assinados tem demanda clara e objetiva - queremos ou não queremos algo, exigimos providência, somos a favor ou contra e por aí vai. Neste caso, especificamente, não há demanda clara, mas o registro do "inconformismo" e uma reclamação sobre falta de "aviso prévio".

Abaixo-assinado do inconformismo com as ciclovias

Ou seja, não diz explicitamente se as ciclovias e ciclofaixas estão certas ou erradas, não exige claramente um debate. Deixa tudo ali num jogo de palavras que tenta mascarar ou amenizar a oposição à medida da prefeitura. É um tipo de ativismo de "baixo-impacto" coroado por ações de "desobediência civil", como estacionar carros sobre a ciclovia, situação flagrada algumas vezes nas ruas do bairro, e em outros lugares nos últimos dias. E que a prefeitura promete combater com a força da lei e dos radares.

Por que chamo de ativismo? Por que de fato as pessoas têm todo o direito de se manifestar contra uma situação que consideram injusta, mesmo que para grande parte da população o benefício e a necessidade das ciclovias e ciclofaixas sejam indiscutíveis. Uma pesquisa recente de opinião mostra que ambas são valorizadas por 88% da população. Até os níveis de aprovação da administração do prefeito Fernando Haddad melhoraram significativamente na proporção em que vai cumprindo sua promessa de entregar os 400 kms de ciclovias prometidas para fim de 2015 (já entregou 78 kms).

Imagino que o pouco número de assinaturas no abaixo-assinado, ao menos na folha que eu vi, deve-se ao fato de que não é toda Higienópolis que pensa assim. Suspeito que a maioria não está nem aí para o tema ou está francamente a favor. Não é justo, portanto, generalizar o bairro pelo temor de alguns às "gentes diferenciadas" ou pelo "incômodo" de não ter onde estacionar seus carros.

O curioso é que as reações diversas às ciclovias são uma espécie de "Crônica da Morte Anunciada". Reproduzem quase que ipisis literis reações semelhantes ocorridas em outras grades cidades que resolveram apostar firmemente neste sistema, como Nova York e Chicago, para citar alguns exemplos.

No caso da meca turística e referência de "cidade civilizada", que é Nova York, o atual sistema integrado de ciclovias foi implantado a ferro e fogo pelo ex-prefeito Michael Bloomberg entre 2009 e 2010. Não sem muita resistência, tal como vemos hoje em São Paulo.

Uma reportagem de 2011 do New York Times mostra a luta de parte dos moradores da rica região de Prospect Park West, no Brooklyn, contra uma ciclovia instalada alguns meses antes que estaria roubando espaço dos carros. A reclamação? Literalmente o novo equipamento urbano teria sido "mal projetado", "colocaria em risco" os pedestres e "complicaria" o tráfego. Já vimos isso muitas vezes estampado em matérias de jornais paulistanos e nas redes sociais. Mas o fato é que hoje quem circula nessa região de Prospect Park não concebe a inexistência da ciclovia na região.

Nem a interferência de políticos defendendo uma visão estreita da construção do ambiente urbano chega a ser novidade. Por exemplo, em recente artigo na Folha de São Paulo o vereador pelo PSDB Andrea Matarazzo se posicionou contra a construção de uma via exclusiva para bicicletas na Avenida Paulista. Obviamente ele não se posiciona em princípio contra a ciclovia. Primeiro assopra, para depois morder e destilar seus argumentos negativos: "Sobre este assunto adoto a seguinte premissa: sou favorável e acho importante a ciclovia como forma de equilibrar os modais de transporte, integrando-os, sem prejudicar o comércio nem transformar a cidade num caos." Mas... E segue com seus argumentos pelo não.

Isto me lembrou muito os elementos esgrimidos por vereadores de Nova York para defender suas recusas na instalação de ciclovias em Staten Island. De novo, o New York Times, desta vez em 2009: os legisladores reclamavam principalmente que a região tem uma "cultura de carros". Três vereadores escrevem uma carta pública à Secretaria Municipal de Transportes expressando claramente sua visão do problema: "Staten Island tem uma cultura do carro devido à falta de opções de transporte de massa. Nunca tivemos uma cultura de bicicleta."

Até hoje a luta continua e usar bicicleta em vias públicas continua um perigo em Staten Island, apesar de existir ciclovias e ciclofaixas nos vários parques públicos da região. Uma tentativa muito interessante de reverter esta disputa irracional - e que poderia ser implementada em São Paulo - é o "Tour de Staten Island", que acontece uma vez por ano. Tem dois percursos: 96 kms e 40 kms.

Contra a reclamação de que as ciclovias e ciclofaixas são subutilizadas na maior parte do tempo, que tal espalhar o hábito de usá-las criando o "Tour de São Paulo"? Com isso, elas seriam totalmente ocupadas uma vez por ano em um ou vários percursos que permitiriam percorrer a cidade de diversos ângulos, incluindo ciclistas convidados de outras cidades e outros países explorando juntos São Paulo em suas bikes. Uma espécie de "São Silvestre" sobre duas rodas.

Que tal se inspirar no exemplo de Staten Island e criar o Tour de São Paulo?

Não tenho dúvida de que em cinco anos, tal como em Nova York, a discussão em São Paulo não será mais sobre a necessidade de criar ciclovias, mas sobre a importância de expandi-las e dotá-las de mais qualidade, especialmente melhoria na sinalização e cobertura de asfalto, e serviços agregados, como melhores conexões com outros meios públicos de transporte, além de mais ações de mobilização, como o "Tour de São Paulo".

PS: No caso da ciclovia da Paulista, acho que não tem jeito: para combater as forças das trevas que estão sendo conjuradas por vereadores do ‎PSDB em São Paulo contra a iniciativa só mesmo muita mobilização. É preciso lotar a Paulista de bicicletas, tal como os holandeses fizeram nos anos 70 no auge da luta pela retomada de suas ruas contra os veículos privados. Temos de pegar um destes domingos e espalhar centenas, milhares de bicicletas na Avenida Paulista. Abaixo imagem de uma destas grandes manifestações na Holanda dos anos 70 para servir de inspiração.

A Holanda não virou uma terra de ciclistas sem luta e muito ativismo

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