OPINIÃO
06/07/2015 13:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

E se fosse com a sua família?

MARCELO GONCALVES/SIGMAPRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Nos últimos anos presenciamos consternados a onda proto-fascista dos linchamentos, da defesa aberta aos grupos de extermínio e do encarceramento em massa. As redes sociais se tornaram o palco principal para o debate público sobre os mais importantes temas políticos (legalização das drogas, aborto, financiamento privado de campanha eleitoral e etc.). Os mais profundos e complexos conflitos sociais são debatidos a partir dos mais rasos - e raivosos - argumentos.

Quem nunca leu nas redes as infames sentenças; "se esta com dó, leva para casa", ou o apelo sensacionalista e aparentemente irrefutável: "queria ver se fosse com a sua família"? Sabemos que menos de 0,02% do total dos crimes contra a vida cometidos são atribuídos aos adolescentes, e, por outro lado, os adolescentes são vítimas de 16% do total de homicídios ocorridos no país. Isto é, eles são as vítimas da violência, via de regra, e não autores desses crimes.

Mas porque enxergamos a realidade ao contrário, de ponta-cabeça? Por que ainda vemos a terra quadrada? Quais interesses movem os grandes meios de comunicação a fim de se vender uma informação distorcida que superdimensiona os delitos contra a vida praticados por adolescentes? Um dos fatores é, certamente, o punitivismo populista, pois o programa policial do meio-dia repetiu infinitas vezes para a Dona Maria e para o Seu João que bandido bom é bandido morto, que os adolescentes são os principais responsáveis pela violência no país.

Assim, a Dona Maria e o Seu João irão votar no Franscischini porque ele promete 'endurecer' (leia-se, ser condescendente com grupos de extermínio e tortura) no tratamento com os 'bandidos'. A ideologia do medo, a insegurança pública anunciada em tom alarmante pelo âncora do seu jornal predileto dá voto e, sobretudo, dinheiro, muito dinheiro. Carros-fortes, câmeras, armas, blindagens, coletes balísticos e etc.

"Mas e se o adolescente entrar na sua casa, estuprar sua mãe, matar seu pai, arrancar as unhas do gato, quebrar os dentes do cachorro e torturar seu papagaio? Que você fará? Irá adotá-lo? Passará a mão na cabeça dele? Queria ver se fosse com alguém da sua família!"

Esse argumento irracional é uma aposta na quebra do diálogo, pois não autoriza ninguém a refutá-lo, exceto àqueles que passaram pela situação traumática nele contida. Por outro lado, numa mesma linha de raciocínio, só permitiria que as próprias vítimas o invocassem. Não obstante, as pessoas do facebook nas últimas semanas tornaram-se todas sobreviventes de uma guerra civil, todos foram assaltados por adolescentes, todos tiveram "uma arma na cara", um ente familiar ou amigo morto. Todos experienciaram o horror inenarrável da violência.

Infelizmente eu posso responder à abjeta pergunta. Foi comigo, foi com minha família. Tive meu saudoso e amado irmão assassinado, enquanto trabalhava, por um assaltante. Um só tiro. Uma vida desperdiçada. 24 anos. Uma filha órfã de pai.

Ódio, frustração, desespero, impotência. Bebidas, antidepressivos, atestados, resignação.

Nenhuma das consequências que suportamos face ao ocorrido pôde ser resolvida pelo Direito Penal, se o indivíduo ficasse 6 anos preso, ou se fosse brutalmente torturado e assassinado, não iria mudar absolutamente nada.

Que forma de organização sócio-econômica cria seres semi-mortos que carregam como um fardo o que lhes resta de vida somente para serem os exemplos da derrota absoluta? Quantos séculos de indiferença foram necessários para que a nossa única exigência seja a morte ou o banimento do outro, e não sua vida e plena inclusão dentro da nossa comunidade de seres vivos e iguais? Realmente podemos cuidadosa e planejadamente produzir os monstros, os refugos, os resíduos sociais, sem arcar com o ônus dessa escolha?

Tal opção política, a da exclusão e espoliação dos eternos derrotados da história, só é possível porque as consequências da violência não são democráticas, elas não afetam a todos igualmente. Elas têm endereço e classe social certa, predileção de idade e cor. Ela, a violência, afeta apenas a população pobre. E, por mais surreal que pareça, é essa a população que mais adere ao discurso de ódio e extermínio contra os excluídos.

Por muitos anos eles nos ensinaram a jogar pedras no espelho, a odiarmos a nós mesmos e aos nossos pares. Acredito que se não interrompermos essa correnteza fascista, morreremos todos afogados no mar de sangue que certamente virá.

VEJA TAMBÉM:

As loucuras da Câmara em 2015