OPINIÃO
12/03/2014 09:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Sobre a obrigação ao multi-tasking - para quê?

Desacelerar virou pecado. O ócio criativo, cuja necessidade todos nós conhecemos tão bem, perdeu lugar para um mundo onde o imediatismo toma o lugar da reflexão e do respirar profundo.

Não gostaria de ter que fazer tratados sobre nada, mas uma coisa na área da criatividade me chama bastante atenção. Porque intervém na liberdade mesmo, artística, que deveria ser inerente ao comportar-se como empreendedor criativo, naquela parte da vida em que teoricamente se estaria liberto das amarras do corporativismo e da vida de escritório.

Eu dou um exemplo.

Joana não estava feliz em seu trabalho. A mesma coisa, todos os dias, e não exatamente a área que mais lhe atraía. Porém, vocês entendem, era o que lhe permitia pagar suas contas. Para dar um jeito de arrumar escapes para sua realização pessoal, só havia uma possibilidade: trabalhar além das horas regulamentadas pelo que deveria ser humanamente tangível. Voltou sua vida, então, para duas frentes: a da felicidade e a do ganha-pão. Trabalhava bem suas oito horas por dia, e nas subsequentes organizava-se como podia para fazer cursos que lhe capacitassem a um dia se tornar a profissional que gostaria. Fazia bicos para pagar estes cursos e, nas outras horas que sobravam, ainda encontrava tempo para dedicar-se a projetos paralelos que, estes sim, apesar de não pagarem lá essas coisas, lhe proporcionavam aquele gosto saboroso do contentamento e do sorriso de plenitude.

De desdobrar-se, no entanto, seu organismo emperrou. Ela percebia que estava esgotando suas energias, mas mesmo assim insistia que não podia abandonar seus planos, nem tampouco deixar de dedicar-se ao emprego. Em um surto de mania, teve uma crise hepática repentina que a tirou do ar durante um mês inteiro - das notícias que tenho, ainda está em recuperação. A Valentina também, e olha que ela só trabalha com o que ama - porém, por volta de 12 a 14 horas por dia. Abrir a sua própria editora de livros, afinal de contas, demanda mais dela do que ela poderia se permitir. Para escrever sua dissertação de mestrado, não teve outro jeito senão passar o bastão para sua prima conduzir a start-up por três meses inteiros - senão, ela jamais chegaria ao fim sem uma estafa mental e física. Não que ela antes não estivesse fazendo as duas coisas ao mesmo tempo; sim, estava, mas uma hora seu corpo escolheria por ela, então ela preferiu decidir primeiro.

Do outro lado do mundo, minha amiga medita pela manhã e toma café assistindo ao cair da chuva. Quando lhe conto sobre a minha rotina, ela às vezes me pergunta se eu não precisava desacelerar um pouco.

Desacelerar, em vários mundos mas também no da criatividade, virou pecado. Piada de mau gosto. Não é possível se ter paz quando a multiplicidade de tarefas e a proliferação de compromissos inadiáveis tornou-se praxe. O ócio criativo, cuja necessidade todos nós conhecemos tão bem, perdeu lugar para um mundo onde o imediatismo toma o lugar da reflexão e do respirar profundo. A filósofa francesa Anna Cauquelin defende arduamente que todos nós, que interagimos da forma mais indireta que seja com os meios criativos, somos artistas; porém, somente ao criador primário, isto é, o artista classicamente reconhecido como tal, ainda é reservada alguma licença poética para inspirar e aspirar gastando mais do que cinco segundos. E só às vezes. Na maioria do tempo, ele também - todo mundo, no fim das contas - tem de estar ligado em absolutamente tudo o tempo todo, e isso tem consequências duras para o resultado mesmo do nosso trabalho. Simplesmente porque é um objetivo inatingível e gera, a longo prazo, frustração. E não há nada pior do que a desmotivação para as indústrias que vivem do prazer e do entretenimento.

Por que não se concentrar, como já preconizavam os orientais, no aqui e agora? Quem é que disse que é absolutamente imprescindível, ao montar uma exposição, estar ligado em todas as últimas tendências de materiais em substituição ao amianto que acabaram de ser lançados na China e chegaram ontem mesmo a Nova York? Você pode querer simplesmente utilizar uma estrutura de isopor. Por que, ao escrever um texto de 30 linhas sobre um novo game que acaba de ser lançado, o seu Twitter, Facebook e Flipboard devem ser conferidos ao menos 15 vezes? Quando foi que a concentração em uma tarefa por vez deixou de ser considerada algo nobre para ser correlacionada, arbitrariamente, a uma característica de seres fracos e despreparados? O que é, de fato, tão criativo em ser multi-tasking?

Fica o registro do meu manifesto por dias mais lentos, e pelo direito humano de poder fazer - e criar - uma coisa de cada vez. Só para variar.