OPINIÃO
23/04/2014 18:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

Não pode ser perda de tempo

Não tem jeito: a perda de tempo é um risco quase certeiro quando não se toma o tempo, anteriormente, de traçar uma rota.

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Foi uma amiga que me contou essa história que me deixou meio impressionada. Fazendo um curso de criatividade na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, ela ouviu da incrível mente pensante Charles Watson que, para ser genial em alguma coisa, eram preciso dez mil horas de trabalho. Dez mil horas de trabalho, imagine você. Dominar o básico de ponta cabeça, fazer todo tipo de cambalhotas com ele para depois, e só depois de cada um desses milhões de minutos bem vividos, começar a percorrer as profundezas do espectro obscuro da inventividade. Quer dizer: para atravessar o caminho do novo era preciso recitar o antigo de trás para frente, estar apto a responder cada minuciosa questão sobre ele. Ora, sobre quantos campos na vida nós temos semelhante capacidade?

Eu deveria ter começado muito antes. É de se angustiar, porque para ser gênio, então, não há tempo para cometer erros. Não deve dar para mudar de ideia. Eu tinha certeza, já tive mesmo, mas aí os rumos mudaram, em algum momento eu me perdi e daí hoje não sei de fato qual é o meu grande talento - quantos de vocês podem estar na mesma situação? Será que nunca na vida seremos grandes alguma coisa? Será que esse festival de pequenas conquistas somadas configura na verdade vários ingredientes semi-desperdiçados de receitas largadas pela metade que nunca chegarão a se tornar aquela vistosa tarte aux pommes que se cobiça de longe na vitrine, intocável e serena?

Tento não devanear, mas gente, é de ficar louco.

Sem radicalismos, seguindo uma reflexão um pouco mais equilibrada, eu fiquei realmente pensando sobre o tempo das coisas, e o tempo que a gente gasta não fazendo o que deveria estar fazendo. Não por pressa, ou acomodação, ou qualquer um dos sinônimos ou antônimos envolvidos nesta conversa, mas simplesmente por uma temporária ou permanente perda de foco. Quando se decide ter uma profissão criativa, muito cedo na vida se é empurrado para fora de um status quo considerado "normal demais", "careta", "feito para os pouco interessantes", mas que é um parâmetro extremamente útil para ajudar os seres criativos a elaborarem, traçarem e realizarem concretamente os seus planos. Transformarem, finalmente, grandes sonhos em projetos tangíveis por meio de metas razoavelmente sólidas. Quantos atores, designers de joias ou produtores culturais você conhece que tenham estabelecido uma estratégia profissional antes de se lançar mundo afora prestes a topar o que quer que seja que o universo tivesse a lhes oferecer? E quantos advogados, médicos e contadores você já viu na mesma situação, isto é, perdidos no mundo sem saber qual seria o próximo passo a tomar em suas carreiras?

Antes de eu ir para a França, me lembro que, junto com meu projeto de pesquisa, tive que mandar um projeto profissional que se enquadrasse dentro do que eu planejava estudar por lá. Tive uma dificuldade incrível de entender o que eles queriam: como assim, encaixar a minha vida profissional em um plano para ter meu mestrado aprovado? Pois é, mas a minha amiga administradora achou absolutamente normal - e eu que pensei que isso era coisa de gringo. Ela fica, isso sim, abismada com as minhas histórias de jornalista. Uma vez contei que uma matéria exclusiva que um amigo tinha feito caiu porque o editor esqueceu que ele tinha preparado o texto para aquela data. Ela ficou embasbacada. "Mas onde está o planejamento desse editor? Ele realmente não tem a mínima noção de como gerenciar seu tempo, nem muito menos a sua equipe", comentou.

Parei, uma vez mais, para refletir - depois da primeira reação de achar supernatural o chefe ter esquecido, coisas da vida, né? - não, não é. É preciso acabar com essa ideia romântica mais do que ultrapassada do artista boêmio, largado à própria sorte, que não sabe do que vai viver no próximo mês e que não se preocupa com o futuro porque se alimenta de sua própria genialidade. Primeiro, porque genialidade só vem com muito trabalho; segundo, porque profissões ligadas às indústrias criativas são apenas carreiras como outras quaisquer. Com mais charme, pode até ser - não estou aqui para fazer tais juízos de valor - mas que precisam de organização para proporcionar paz a quem se dedica a elas. Terceiro, porque estou aqui associando livremente as carreiras criativas ao termo "artista", já que espantosamente é baseado neste arquétipo clássico que esses métiers são tratados até mesmo - quiçá principalmente - pelos seus próprios integrantes. Difícil, assim, fugir do estereótipo.

Não tem jeito: a perda de tempo é um risco quase certeiro quando não se toma o tempo, anteriormente, de traçar uma rota. É claro que mudanças acontecem, e podem enriquecer e muito uma vida e uma carreira, mas chega a ser injusto se lançar de braços abertos em um mundo de competitividade quase desumana quando não se estabeleceu com ajuda e orientação desde tenra idade mais ou menos onde se quer chegar. Eu sinto na pele as marcas deste despreparo e não vejo mais nada de bonito ou descolado nisso. Meus amigos também querem fazer planos a longo prazo e responder questionários sobre "onde você se imagina daqui a cinco anos" sem parecer que estão levando uma facada na boca do estômago. E não olhar os seus currículos com aquela impressão de "quanta coisa bacana eu fiz! Mas exatamente onde foi que eu cheguei com tudo isso?" Precisamos aliar esses dois mundos. Nossos colegas de paletó, gravata e tailleur podem realmente nos ajudar a organizar nossas mentes - e nossas vidas - às vezes mais inquietas do que produtivas.

Eu preferia mil vezes viver de sonho, mas e a hora que a gente acorda?